Arquivos para: Março 2007

Gasparzinho – o Fantasma Camarada

21.03.2007

Quase imortal.Nunca fui aficcionada por quadrinhos, a ponto de comprar edições raras, de luxo, importadas e saber de cor as melhores histórias da Turma da Mônica, Tio Patinhas, Sandman, X-Men, Batman e afins.

Dos meus xodós em HQ, adquiridos a custo de muitas economias de minha parca mesada nos áureos tempos do colegial (que não voltarão jamais), guardei até meados de 1993 a coleção completa de Akira, que infelizmente foi surrupiada por algum cara da Granero que fez minha mudança. Mas ainda tenho Orquídea Negra e alguns mangás coreanos para olhar, ler e lembrar dos bons tempos da minha quase já extinta inocência. Desde então, não tenho comprado mais gibis, já que o vil metal fez priorizar minhas aquisições de livros de “gente grande” e
apetrechos de informática.

Engraçado que, na noite de domingo, ao sair no meio da noite para comprar cigarros na banca de uma pacata pracinha no Bairro do Sumaré, em Sampa City, uma vozinha sussurrou “vá até a seção de quadrinhos, vá até a seção de quadrinhos”. E AHÁ – eu me deparo com uma bela edição encadernada reunindo as melhores histórias de Wolverine (Volume 01) publicadas entre 1992 e 1993. Nem perguntei o preço e trouxe o mimo pra casa. Devorei quase todas as 370 páginas em uma única noite, até que meu namorado me chamou pra dormir. Deviam ser quase 5 da manhã.

CORTA.

Estou no meio de uma batalha sangrenta entre Wolverine e o Demônio em pessoa. Os dois lutam kung-fu, karatê, jiu-jitsu, tae-known-do e o diabo, mas nenhum pede arrêgo. Soa o gongo e está findo o 467º round. Ciclope cuida dos ferimentos e verifica se nenhuma das garras de adamantium de Wolverine está danificada. Euzinha, vestida em um macacão colante ultra-decotado prateado (uhu, nunca me vi tão gostosa num sonho) dou Gatorade saber Maçã com Goiaba para o meu atormentado e amado mutante, enquanto ele fuma um de seus charutinhos. O Capeta bufa e expele fogo pelas narinas. O destino do mundo está em jogo – se o Coisa Ruim matar Wolverine, todos os seres humanos estarão condenados ao fogo eterno.

Soa o gongo e a batalha sangrenta é reiniciada. Wolverine é atacado pelo Coisa Ruim com uma cusparada de fogo capaz de incendiar dois maracanãs. A platéia vibra. Mas seu fator de cura mutante o faz surgir das chamas, pronto para desferir um golpe com suas garras. Ele joga longe os pares de chifres do Capeta e um sangue preto começa a inundar o campo de batalha. Cego pelo próprio sangue e bastante furioso, o Diabo sem chifres, porco e desonesto, envia Linda Blair, de “O Exorcista”, para atacar Wolverine por trás com uma vomitada de ácido verde. O mutante sofre como homem (seu coração é de homem) ao perceber que o grande amor da sua vida o traíra. Enlouquecido pelo ódio e mandando à merda as regras da luta, Wolverine arranca a cabeça de Linda Blair, matando-a junto com um pouco de si.

Mira o Diabo sem chifres e não consegue conter uma risada ao vê-lo. Enquanto isso, meu sangue ferve por saber que minha grande rival está morta e que Wolverine será meu, finalmente, para que possa apaziguar a sua dor existencial por ser um mutante.

Wolverine avança contra o Capeta e com seu punho esquerdo desfere-lhe um upper no queixo, enquanto as garras de sua mão direita cortam o rabo com ponta de flecha do bicho ruim. O Capeta geme de sofrimento. E Wolverine dá-lhe o golpe final para sua morte. Corta-lhe as asas negras que o fizeram cair do céu.

O Capeta cai no meio do ringue e não reage à contagem final. O mundo está salvo. Vou ao encontro de meu grande amor, muito ferido e muito humano. Suas garras começam a sumir, fraturas expostas começam a surgir em seu corpo. Ele volta a ser apenas um simples ser humano, apenas Logan. Com os olhos cheios de lágrima e em meio a gemidos de dor, ele me diz que aquele era o momento pelo qual esperara a vida inteira. Ser gente. E em nome do amor que eu sentia por ele, pede que eu acabe com seu sofrimento físico. Eu não conseguiria, eu não podia atender a seu pedido. Quer ser meu amiguinho?

Foi quando Gasparzinho, o fantasminha camarada, aterrisou flanando sobre o ringue ensangüentado. Ergueu Logan em seus braços como quem ergue um saco vazio de batatas e levou-o longe, bem longe de mim, até sumir na escuridão do céu estrelado. Antes de partir, Gasparzinho piscou-me o olho e deu um sorriso que iluminou toda a arena.

CORTA.

Acordei com os olhos inchados e pegando fogo – porra, tinha dormido de lentes de contato.

Por Suzi Hong | Email Permalink23 comentários

Transtorno Bipolar - alguns esclarecimentos. E chega disso!

16.03.2007

Decidi, algum tempo atrás, que evitaria escrever sobre o transtorno afetivo bipolar (TAB, a.k.a. psicose maníaco-depressiva), sobre as crises alternadas de depressão e euforia, efeitos colaterais do tratamento, yada yada yada.

Porém, o comentário de um leitor sobre meu post que trata de sobrevivência (sem nenhum cunho sociológico ou pretensões variadas), me fez pensar que seria necessário esclarecer alguns aspectos do tal transtorno. Reproduzo, a seguir, o trecho do comentário de 03.03.2007 que deu origem a este post.

"(...) Gosto da sua coragem de admitir seu transtorno bipolar, embora acredite que mais coragem é viver sem medicação, afinal se todo mundo vivesse chapado nunca teríamos Faulkner, Hemingway(tudo bem que eles bebiam bastante, mas existe uma certa nobreza na embriaguez, na medicação apenas um indivíduo abrindo mão da sua autonomia, mas esse papo fica para uma outra oportunidade) (...)."

[Respiro fundo.]

Vamos lá. O transtorno bipolar é uma doença que, como qualquer outra, precisa ser corretamente diagnosticada e tratada com medicamentos. É uma doença mental? É. O cérebro produz de forma atípica alguns neurotransmissores fundamentais para nossa saúde mental. O motivo? Ainda não se sabe com precisão. É genético? Os estudiosos entendem que sim. Pode incapacitar a pessoa de exercer suas atividades rotineiras? Quem sofre de TAB é retardado? Não.

Mas o pior de tudo é: não há cura para o TAB, apenas controle. Tal qual uma diabete, que precisa ser controlada com injeções de insulina.

Existe ainda um grande preconceito ou uma total ignorância sobre o que é o TAB e seus efeitos e sintomas, que podem ser devastadores. O paciente de TAB, se mal diagnosticado ou submetido a tratamentos incorretos, pode torrar todo o seu patrimônio em incríveis três semanas, trabalhar por 48 horas seguidas sem se cansar, emprestar as cuecas para o pior dos amigos ou, no outro extremo, ficar impossibilitado de trabalhar, parar de comer por dias e dias, não tomar banho por semanas, não falar com absolutamente ninguém, chorar até cansar e, falando um português bem claro, o paciente de TAB pode cometer suicídio.

Dito isso tudo aí em cima, posso dizer que eu sofro de um tipo de transtorno bipolar mais ou menos incomum: sou TAB com ciclagens ultra rápidas (ou seja, meu humor oscila muito mais vezes em um certo intervalo de tempo, se comparado ao humor dos bipolares “clássicos”). Isso quer dizer que o tratamento convencional, à base de lítio, não funcionou comigo. Tentei algumas combinações de medicamentos, fiquei internada dois meses em uma clínica psiquiátrica, fui submetida a várias sessões de ECT (eletroconvulsoterapia - eletrochoques, para ser mais clara), tudo para evitar o tratamento mais indicado para o meu tipo de TAB. Por quê? Apesar de eficaz, possui muitos efeitos colaterais.

O resultado disso tudo é que tenho que fazer hemogramas mensais, dormir pelo menos 9 horas por dia e controlar o apetite, já que engordei uns 20 quilos (ainda bem que eu era magérrima antes de iniciar o tratamento). Sem falar na grana que gasto todo mês com remédios (caríssimos) e sessões de terapia.

Então... o meu leitor sugere em seu comentário que: (a) dependo dos remédios, (b) falta-me coragem para viver sem eles, (c) eu vivo chapada por conta do tratamento. Sem falar da sugestão de que o mundo não teria mais Faulkners ou Hemingways se todos os talentos resolvessem viver “chapados” com medicamentos indicados para os mais variados tipos de transtornos da mente.

Pois esclareço, e perdoem-me os leitores pelo o que será um desabafo, que o comentário transcrito acima foi inadequado, típico das pessoas que desconhecem, infelizmente, o que é o TAB, a depressão crônica, a esquizofrenia, a síndrome do pânico, TOC – transtorno obsessivo compulsivo ou que enxergam uma certa beleza na afirmação de que "viver é sofrer", de Arthur Schopenhauer.

Eu busquei coragem para admitir que tinha um problema mental e precisava de ajuda médica. O segundo passo da via crucis em “busca da minha coragem” (isso poderia ser título de um filme melodramático, não?) foi não desistir de procurar um médico decente que me diagnosticasse de modo preciso e correto. Isto levou uns 4 anos, já que fui tratada por quatro (!) psiquiatras diferentes e todos erraram no diagnóstico. O terceiro passo foi aceitar a internação numa clínica psiquiátrica, monitorada 24 horas por uma acompanhante (eufemismo para enfermeira fiscal), sem falar nas sessões ECT no Hospital da Clínicas. O quarto passo foi encarar meu tratamento atual, mesmo com todos os efeitos colaterais. E continuo aqui. Matando um leão por dia, porque é FODA tomar clozapina, sentir-se cansada e gorda, fazer terapia, bancar tudo isso que custa tão caro, não ter a compreensão de vários amigos e familiares que acham que o transtorno bipolar inexiste, que o TAB não passa de mera frescura ou um capricho meu.

É FODA também sentir a solidão diária de quem precisa acordar forte todos os dias, porque uma crise pode me tirar o emprego. É FODA o desalento de perceber que só eu, e mais ninguém, realmente sabe o que é uma crise de depressão severa, quando a dor de um corte profundo não é nada comparada ao desespero de querer sair daquela crise, da desesperança e da vontade de pular do 10º andar.

Será isso tudo condição para escrever como Faulkners, Hemingways, sem falar de Virginia Woolf, Tolstoy, Graham Greene, Ana Cristina Cesar? Não, definitivamente não. Todos eles e gênios como Van Gogh e Mozart sofriam de TAB. Não é necessário sentir uma profunda angústia por estar vivo para escrever sobre as dores de viver. Não é absolutamente necessário viver escrava das minhas oscilações bruscas de humor ou da minha estranha produção de neurotransmissores, para ver beleza no que é incerto e querer, sempre, dias mais densos.

Prefiro escrever posts medíocres e não publicar um conto genial ou um romance digno de nota. Prefiro não perder minha identidade recém recuperada, prefiro tomar mais aulas de otimismo. Prefiro trabalhar no que eu gosto com a regularidade que o mercado exige. Prefiro sim, ser parte do establishment. Prefiro, mil vezes, amar as pessoas sem chocá-las com idas ao pronto socorro, com palavras mordazes e injustas típicas da fase maníaca.

Prefiro não morrer como Faulkner (morreu bêbado) ou Hemingway (cometeu suicídio).

Prefiro escrever tudo isso aqui, saudável, em casa, na companhia de minhas duas golden retrievers. Prefiro ter capacidade de cuidar de minhas duas golden retrievers e de todas as pessoas que realmente são importantes para mim.

Para quem enxerga “nobreza na embriaguez” e “perda de autonomia” com a medicação, eu continuo minha via crucis, aquela da coragem, para dizer “você não sabe nada, meu caro”. E nem por isso eu sinto rancor de você e de tantas outras pessoas que, ao ouvirem de minha boca "sou bipolar e não vivo sem medicação”, franzem a testa. Escrever bem é uma arte. Controlar o que é aparentemente incontrolável é uma luta constante que, ao final, vale muito a pena. Posso dizer que entre mortos e feridos, cá estou.

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IMPORTANTE - UPDATE:
Prezados Leitores, minha ausência deste blog explica-se em parte pelo excesso de trabalho e em parte por uma crise de TAB recente. A fim de tentar responder às diversas questões postadas na caixinha de comentários, redigi um outro texto, em que descrevo mais detalhadamente alguns aspectos de minha experiência com o TAB. Para acessar o novo post, clique AQUI. Um grande abraço! 10/10/2007.

P.S.: Continuarei a responder os comentários após retomar o ritmo normal desta casa.
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Por Suzi Hong | Email Permalink658 comentários

Esconde-Esconde

12.03.2007

I.

Para que servem seus ombros largos, homem?
Para carregar sua incapacidade de estar lá quando preciso,
para equilibrar seu ego que se esparrama em gestos umbigos,
ou para apoiar pesos que você carrega
contrariado,
só pelo fato de ser homem?

Para que servem seus pêlos no peito
e suas coxas e panturrilhas musculosas?
Para fazer uma combinação harmônica-conceitual-streetwear
designed by Alexandre Herchkovitch?

Homem, quem é você se não uma pilhéria?
Não deu para notar que inúteis
seu peito estufado e cabeludo,
seus pêlos púbicos,
seu pau ereto e tântrico,
sua voz grave e grossa,
sua cara de macheza artificial
seu cu virgem e seus bíceps malhados,
se teu espírito não passa de um pitbull?

II.

Para que este olhar de sonsa sensualidade, mulher?
E que mexida é essa nestes cabelos descoloridos loiros platinados?
Quem você quer seduzir ao final do dia?
De que servem esses closes que você inventa ante sua voz de hiena no cio?

Para que esses seios de borracha
que não se movem, não sentem um toque
de uma mão calejada e grande de um homem?
Hi, Barbie! Let me be your Ken?

(Quando era criança, minha Susi brincava de médico com o Falcon do meu irmão)

Lipo-escultura, botox, batom, sombras,
bronzeamento artificial, academia, lingeries e cintas-ligas,
perfumes enjoativos e adocicados.

Não há espaço, em meio a tamanho arsenal,
para seu terceiro olho, mulher!
Mulher, seu papel não é de caça,
nem és vitrine de estrógeno ambulante,
ou de biquinhos e vozinhas agudas de gatinha mimada,
porque o cara não te ligou no dia seguinte.

III.

Homem, quero sentir o teu cheiro de suor
enrolada nos lençóis e nos seus braços.
Não quero que você durma com
um sorriso de dever cumprido e
não quero, tampouco, fingir ter orgasmos.

Homem, não preciso de ombros largos
peito estufado e bíceps malhados.
Preciso que seus pés quentinhos tamanho 43
aqueçam os meus em dias de frio, em dias de sol.
Quero a sua voz ouvida e conhecida a falar-me
de seus medos, delicadezas e da sua verdadeira macheza.

Quero ver seus cabelos ficarem grisalhos.
Não te esconda atrás do errado que te ensinaram.

IV.

Mulher, quero apoiar minha pesada cabeça
sobre seus seios macios e quentes,
que amamentaram meus filhos.

Vou lhe comprar cremes para sua celulite,
suas rugas e estrias, apesar de achar que lhe são
tão suas, feito marcas do que vivemos juntos,
ou negativos de seu álbum de retratos.
Mas farei tudo isso pra
tirar um sorriso de seu rosto e
observar-te massageando rosto e corpo
diante do espelho de meus olhos.

Quero ver seus cabelos ficarem prateados e
ouvir sua voz lendo Hilda Hilst pra mim.
Não te esconda atrás do pudor com que te envenenaram.

Por Suzi Hong | Email Permalink5 comentários

Não sou apenas um par de olhos puxados.

10.03.2007

Momento Poser Recentemente, enquanto escovava calmamente os meus dentes após o almoço, percebi horrorizada que as primeiras rugas apareceram no meu rosto, bem embaixo dos olhos, onde normalmente eu só encontrava olheiras. Cogitei a possibilidade de que a Dona Maria, lá do escritório, tivesse esquecido de limpar o espelhinho do banheiro, i.e., um pensamento de alguém já desesperado ante a constatação das infelizes marcas do tempo. E olha que ainda estou mais ou menos longe de completar... hum, não falemos da idade.

Maldita mania que tenho de escovar os dentes olhando pro espelho só pelo prazer de ver a espuma na boca crescendo, divertindo-me com toda a espécie de caretas. Certamente, algumas caretas serão abolidas, especialmente aquelas que me deixam com os olhos mais puxados - terreno fértil para a reprodução desenfreada de rugas.

Eu sempre acreditei que a minha pele oleosa retardaria o aparecimento do que chamam "linhas de expressão" no jargão politicamente correto. A testa ainda lisa é prova de que esta minha teoria não é de todo errada. Mas o aparecimento do que em breve se transformará em múltiplos pés-de-galinha causou um certo pânico. Chegando em casa, não hesitei em vasculhar as gavetas do banheiro em busca de creminhos que prometem milagres: a atenuação das rugas e o aumento de firmeza da pele. Achei algumas amostras grátis e não hesitei em lambuzar não só a área dos olhos como todo o rosto, pescoço e colo. Com a sensação de missão cumprida e uma leve satisfação por ter dado uma bela lição ao passar inevitável do tempo, fui logo acender um cigarro e pensei que o fumo envelhece a pele, mas bah!, não sou de ferro.

Resolvi, então, que faria uma faxina em meus documentos do Word. Recorro a toda sorte de faxina quando há algo me incomodando e não sei muito bem o que é. Abrindo um a um os arquivos, lendo e relendo o conteúdo para verificar se era de fato relevante e merecedor de misericórdia para não ser excluído, acabei por encontrar textos meus de longuíssima data.

Dei boas risadas com a linguagem tosca de alguns poemas. Recordei alguns fatos de minha vida ao reler crônicas que eu mal lembrava de ter escrito. Constatei que não sei escrever contos por pura falta de imaginação. Descobri muitos textos que me causaram certo constrangimento e vergonha de tão mal escritos que foram. Reli textos inacabados que dificilmente deixarão de ser o que já são - meros rascunhos.

Ainda assim, não tive coragem de enviar um texto sequer para a lixeira. A idéia da faxina acabou indo pro saco.

Em compensação, percebi que meus textos, escritos ao longo de tantos anos, são, de certa forma, linhas que eu imprimi no tempo. Espero que este blog também o seja. Em troca, o tempo me deu as rugas: linhas de expressão que por ora mudaram apenas meus olhos puxados. Por ora...

P.S. - Por motivos técnicos, as respostas aos comentários são inseridas logo abaixo de cada ilustre missiva.
P.P.S. - Por motivos de força maior, posso demorar a responder...

Por Suzi Hong | Email Permalink13 comentários

A meu desconhecido amigo.

07.03.2007

Dedicado à Ana Carolina.

Sinto sua falta sem saber onde.
Tenho saudades de um riso que jamais ouvi.
Penso em você sem saber quando.
Escrevo-lhe sem saber quem.

Sim, meu amigo.

Eu ainda continuo fumando e usando sandálias
Ainda bebo e tenho insônias
Não me canso de ouvir Legião
E ainda dirijo como uma adolescente.

Moro na mesma casa
E durmo ainda ao lado do mesmo cão.
Coleciono rolhas de vinho, marcadas com minha anotações inúteis.
Minha letra continua ilegível.

Ainda devo ao banco e não uso mais cartão de crédito
Nem talão de cheque
Nem pulseiras de camelô
Nem aquele perfume e par de brincos
Nem mochila indiana
que eu costumava usar.

Sempre esqueço de tirar minhas lentes de contato.
E ainda sonho em viajar para a África
E descer o rio
E pular da ponte
E reclamar que a caminhada é muito longa
E a subida muito íngreme.

Tenho os mesmos pesadelos
E pressentimentos.
A mesma preguiça de acordar
Ir ao dentista apagar o tempo
E ao psiquiatra desafiar a sanidade.

Tenho os mesmos livros
Outros tantos que não pude lhe emprestar.
As mesmas cicatrizes e as suas em mim
E os mesmos cabelos ralos que também lhe esperam.

Sim, meu amigo.

Parece que o tempo correu mundo
E se esqueceu de mim
Perdida na esquina da Augusta
Ou sentada numa poltrona de cinema
Pensando que sou a única espectadora
De um filme que não verei ao seu lado.

É verdade, meu amigo.

Ainda amo a mesma pessoa
Ou a sua mesma sombra.
E sofro dos mesmos males e
Choro pelos mesmos medos e sonhos
Que não pude tocar com a palma desta mão.

Sim... ainda tenho as mesmas mãos,
Com os mesmos traços, linhas e calos.
Nada mudou... a não ser chamar-lhe de
Meu desconhecido amigo.

Por Suzi Hong | Email Permalink10 comentários

Por que adoro listas...

06.03.2007

Segue uma relação das listas que não podem faltar em sua agenda, entre a geladeira e seu imã do disk-pizza, na sua memória afetiva, no seu diário, no post-it preso ao seu computador.

Lista dos TOP 5 Melhores Filmes.

É interessante incluir nessa lista filmes que mudaram seu modo de enxergar certas coisa, filmes indescritivelmente belos, filmes com os quais você se identificou irremediavelmente, filmes com um certo valor sentimental. Eis a minha lista:

1. Noites de Cabíria, de Fellini. Essa escolha não requer muita explicação. A direção do filme e a atuação de Giuletta Masina são impecáveis.

2. Gritos e Sussuros, de Ingmar Bergman. Um complexo e belo filme sobre mulheres, sempre elas e inclusive eu.

3. Peixe Grande, de Tim Burton. Explico: meu pai mora na Coréia, tive lá as minhas rusgas com ele e gastei muitos lenços de papel assistindo às cenas finais.

4. As Horas, de Stephan Daldry. Li o romance que deu origem ao filme, escrito por Michael Cunningham (vencedor do prêmio Pulitzer) e acho que o filme dirigido por Stephan Daldry (também diretor de Billy Eliot) acertou na adaptação do romance para as telonas. As três diferente estórias narradas no filme retratam com delicadeza o que eu chamo "dor de viver e fazer certas escolhas". Penso que eu e muitos mortais já passaram por isso.

5. Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore. A sequência final do filme e a belíssima trilha sonora assinada por Ennio Morricone e Andrea Morricone justificam minha escolha.

Lista das TOP 5 Músicas de seu playlist sentimental.

Antes que me perguntem, essa lista é, sim, inspirada no livro "Alta Fidelidade", de Nick Hornby. Ao selecionar as músicas, dê preferência àquelas que passarão incólumes ao "repeat" de seu discman, Winamp, IPod, etc. Nem sempre a música nº 1 da lista é aquela relacionada à pessoa que foi a mais importante - às vezes, é necessário dissociar o valor artístico da música eleita à importância que uma pessoa tem no seu histórico sentimental. Vale a pena incluir, ainda, uma música que marcou uma ocasião especial: aquela festa de confraternização da empresa em que você tomou todas e teve coragem de demitir seu chefe, o primeiro beijo, a primeirá música que você cantarolou aos 2 anos de idade. Minha lista:

1. Crash into me, do Dave Matthews Band. A letra e os arranjos são dignos de nota. Além disso, é a "nossa música", digo a minha e do meu namorado, Victor. Tá. Soou piegas, mas é verdade. Atire a primeira pedra o casal que não tem a "sua música".

2. Porto Solidão, do Jessé. Isso mesmo. A razão: foi a primeira música que eu ouvi na vitrola que meu pai me deu como presente de aniversário. Detalhe: eu tinha uns 6 ou 7 anos.

3. Pais e filhos, da Legião Urbana. Trata-se da música que embalou a maior de minhas crises existencias da minha adolescência (eita fase aborrecida!). O verso "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã" gruda no ouvido de qualquer um.

4. Everybody hurts, do R.E.M. Ouvi essa música durante a apresentação da banda no Rock in Rio, um show memorável que tive o prazer de testemunhar ao lado de Ian Black e Alexandre Inagaki, meus vizinhos. Além disso, houve uma fase em que eu me identificava terrivelmente com a sua letra.

5. Quase um segundo, dos Paralamas do Sucesso. Essa música embalou uma das piores "fossas", após o término de um namoro.

Bonus track: We are the champions, do Queen. Tomei um dos maiores porres da minha vida. Quando: na festa de formatura da faculdade.

Listas de Supermercado.

Ordene a lista por ordem de necessidade, mas sobretude de acordo com seu saldo bancário. Para não esquecer nada, visualize o interior da sua geladeira, o quartinho da empregada onde você guarda os produtos de limpeza, a sua despensa. Itens obrigatórios de todas as minhas compras de supermercado: papel higiênico, pó de café, coca light, leite desnatado, carne e activia. É, eu tenho o que eles chamam de "intestino preguiçoso".

Lista de resoluções de começo de ano.

Bah. Eu incluo aquelas resoluções e promessas difíceis mesmo de serem cumpridas. Afinal, o ano novo é a oportunidade única concedida a nós, meros mortais, para acreditar que realmente vamos frequentar a academia e perder uns quilos, ecomizar e economizar para costurar o pé de meia, escrever posts diários, comer mais salada, parar de fumar, aprender mandarim, beber menos... tsc.

Por Suzi Hong | Email Permalink4 comentários

Algumas palavras sobre sobrevivência, sem cunho sociológico.

01.03.2007

Todas as manhãs, quando saio de carro para ir ao escritório, eu encontro um homem, numa das esquinas da Alameda Santos, vendendo saquinhos de balas sortidas a um real. Ele não tem um braço, mas em compensação possui pernas fortes que se apressam em distribuir os tais saquinhos de bala pelos espelhos retrovisores dos carros à espera do sinal verde. É preciso sobreviver nesta cidade que engole pessoas sem o menor pudor.

Cada um se vira como pode. Há pessoas que vendem flanelas e panos de chão nas ruas adjacentes à Av. Paulista. Há os mais criativos também, como os artistas de circo que se pintam de palhaço e brincam com tochas de fogo na Av. Rebouças. Meninos descalços que fazem malabarismos com bolas de tênis e laranjas já fazem parte do cotidiano paulistano. Existem ainda os senhores que montam um sebo improvisado nas calçadas da Rua Augusta, hippies que vendem seus badulaques em frente ao prédio da Gazeta e os chineses que preparam e vendem yakissoba em pratinhos de plástico nos pontos de ônibus a dois reais.

Todas estas pessoas parecem ter algo em comum: gana para permanecerem vivas com o mínimo de dignidade e a fé de que dias melhores virão. Seus parâmetros de necessidades básicas para sobrevivência gritam, revoltados, quando vêm a saber quais são os meus. Pra vocês verem quão relativos os padrões de sobrevivência nesta maluca metrópole paulistana, eis alguns itens indispensáveis para mim.

1. Xícara king size de café pela manhã, seguido de banho morno e hidratantes de vários tipos, um para cada região do corpo.

2. Remédios para o transtorno bipolar: Leponex, Lamitor e sulfato de tranilcipromina manipulada em laboratório. Uma pequena fortuna todo mês.

3. Carro para chegar ao trabalho, ir ao cinema e à terapia, viajar quando sobra uma graninha.

4. Escrever. Pode ser qualquer coisa: um post no blog, memorandos jurídicos, contratos, bilhetinhos, e-mails, crônicas, poemas. Escrever é essencial.

5. Festa com os meus cachorros quando chego em casa. Passeios com eles aos fins-de-semana.

6. Cigarros. Marlboro Vermelho Box. Um maço por dia. Danem-se as campanhas com fotos chocantes. Restaurantes sem alas de fumantes são sumariamente eliminados da minha lista. Estou careca de saber quais os males que os cigarros fazem à saúde. Mas repito aqui o que meu falecido avô costumava dizer: "prefiro viver pouco fazendo tudo o que gosto a viver muito privado dos pequenos prazeres que meus vícios proporcionam". No quesito "vícios prazerosos", incluo, além do cigarro, café, coca-light, internet. Já no quesito "prazer", aponto minha preferência por generosas porções de carne vermelha (a bisteca de boi do Sujinho é maravilhosa), vinho tinto cabernet sauvignon do Chile, chocolate e sorvete de creme.

7. Dormir boas nove horas de sono. É muito, eu sei, mas e daí? Se durmo menos fico vagando por aí feito zumbi mal humorado.

8. Ler qualquer coisa antes de dormir. Tenho o hábito de ler várias coisas ao mesmo tempo. Ultimamente ando ocupada lendo "Ensaio sobre a cegueira", do Saramago e "Como ser legal", do Nick Hornby. Tá, confesso: vira e mexe pego uma dessas revistas femininas, tipo Marie Claire, para ler no banheiro. É melhor do que ler jornal em certas manhãs de preguiça mental.

9. Falar com o namorado ao telefone, antes de dormir.

10. Música. Sempre ela. Nem todas.

E quanto a vocês digníssimos leitores? Como são os seus kits básicos de sobrevivência? Eu não incluí sexo na minha lista por ser óbvio demais. :>>

Por Suzi Hong | Email Permalink15 comentários





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