Aniversário: comemorar é realmente preciso?

13.02.2009

Alguns amigos queridos sabem que tenho problemas com certas datas que o senso comum exige comemoração. O Natal e o aniversário, por exemplo. Como falar do Natal requer mais dos meus famigerados neurônios, vou me ater ao dia 9 de fevereiro, quando invariavelmente ganho mais um ano de vida nas costas.

Tenho medo do tal dia 9. E não se trata do medo de ganhar mais uma ruguinha ao redor dos olhos, uma flacidez extra na barriga ou o sétimo fio de cabelo branco. Falo do medo de cair na velha armadilha da "retrospectiva de minha vida" ou "o que fiz e deixei de fazer até chegar aqui".

Passei a ter este temor no meu aniversário de 25 anos: o emblemático (mas nem tanto) um quarto de século. Uma idade besta, esta, em que eu me senti velha demais para folhear os catálogos de "moda jovem" e nova demais para achar um traço de genuína maturidade emocional, sexual, profissional, yada yada yada.

Quando cheguei aos 30 anos, tive meus dez minutos de felicidade por perceber que não pirei pelo fato de não ter cumprido as expectativas de meus pais: sucesso profissional, casamento, um filho no colo e outro na barriga já a caminho. Adorei a sensação de segurança ao entrar desacompanhada num bar lotado de gente, sem me preocupar com os olhares de casais apaixonados, solteirões vestidos de camiseta preta agarradinha ou grupinhos de mocinhas "tudo de bom" desfilando o último modelito da bolsa que a Carrie usou no episódio "x" de Sex and the City.

Como disse, foram apenas dez minutos de felicidade, pois logo fui acometida pela tal retrospectiva da vida, com um quê de autocensura. Afinal, (i) o que de útil e importante eu tinha feito ao longo de 30 anos de vida; (ii) o que dizer da insegurança para entrar em bares, restaurantes e afins desacompanhada; (iii) por que sentir culpa por não ter cumprido o roteiro que meus pais traçaram para mim; e (iv) por fim, o tiro de misericórdia: valeu a pena?

E assim tem sido... em consideração a meus amigos, sempre busquei responder aos e-mails e "scraps" de aniversário, dizer que está tudo bem ao receber telefonemas de parabéns e reunir outros tantos amigos num boteco para tomar cerveja e dar risada.

Entretanto, este ano foi diferente, como se o ciclo da comemoração obrigatória tivesse sido quebrado finalmente.

Percebi que meu aniversário era uma oportunidade para manter os laços com amigos de longa data imunes à distância e o passar do tempo, surpreender-me com felicitações inesperadas de pessoas que conheci no trabalho, num curso ali ou numa festinha de criança, e perceber que fiz amigos net afora, cujos rostos e vozes são desconhecidos mas tão presentes.

Consegui amansar o ressentimento por não ter recebido uma palavra do meu irmão, afinal ele deve estar muito ocupado para lembrar-se de fatos tão triviais.

Sobretudo, eu me dei conta que todo o dia 9 de fevereiro é uma chance de descansar e questionar o "ritmo alucinado eficiência resultado fast-food carreira fins-de-semana-no-escritório saldo-bancário casa-própria" que hoje nos impõem como algo tão normal e ordinário.

Ainda acho que aniversários não requerem obrigatoriamente uma comemoração. Mas descobrir um sentido para o passar do tempo cada vez mais rápido, pontuado pelo dia em que nascemos, fez toda a diferença neste ano. Pode ser um sentido questionável, sujeito a mudanças e à imprevisibilidade dele próprio, o tempo, mas ainda assim um sentido que posso chamar de só meu. Isso basta.

Por Suzi Hong | Email Permalink17 comentários

Reforma ortográfica da língua portuguesa: não neste blog, por ora.

02.02.2009

Enquanto estive fora do ar, resolveram que o tal do acordo ortográfico da língua portuguesa deve vigorar a partir deste ano, passando por um período de transição para as novas regras, que termina em 31.12.2012.

Este blog reserva-se o direito de não adotar as novas regras enquanto o período de transição não se encerrar.

Afinal, preciso de um tempinho para estudar o que mudou na nossa já mal tratada língua portuguesa (apesar de não concordar com algumas regras). Sem mencionar que existem pontos obscuros do novo acordo ortográfico que nem a Academia Brasileira de Letras conseguiu elucidar ainda. Pfuf.

Por Suzi Hong | Email Permalink10 comentários

A volta.

30.01.2009

Não sei o que é mais difícil: voltar a escrever ou voltar simplesmente.

Voltar atrás às vezes, o que requer uma certa dose de coragem.

Voltar no tempo, passeando por fotografias que a memória sempre revelou, ou parada diante de fatos que a memória desnuda, expõe com uma quase violência.

Voltar ao começo para ter certeza de que valeu a pena.

Voltar, apesar de ter dito que jamais o faria.

Voltar a folhear velhos livros, cartas, rascunhos e anotações que se julgavam propositadamente perdidas.

Voltar a ouvir medos que haviam dormido e encarar rostos familiares e envelhecidos; voltar a conversar com Deus e a brigar com Ele também.

Voltar ao silêncio incômodo e preciso, voltar a ouvir a voz própria em alto e bom som.

A volta incomoda, mas decidi voltar a enfretá-la.

Por Suzi Hong | Email Permalink7 comentários

Metrônomo

13.04.2008

METRÔNOMO

Hoje
saí descalça em busca de uma rima perdida
no meio-fio das ruas estreitas
tortuosas tacanhas tímidas
que povoam meus braços lassos
ausentes de ti.

Nove horas e trinta e sete minutos
parei ante o vermelho de teus olhos que
denunciavam: quero estourar seus miolos
no entanto
resisti reagi ressenti-me toda
e simples assim
ousei desafiar-te: amo-te.

Dezesseis horas e vinte e dois minutos
resfolegante extenuada eu ri
estendida em tapete vivo sobre a faixa de pedestres
um risco eu disse: pode passar
a mágoa é vil
o tiro é frio
o branco dos meus dentes seguro para sempre
guardar rangendo um grito
não vá: sobrevivi.

Vinte horas e dezesseis minutos
sentei-me à mesa de jantar
a carne mal passada a aguçar papilas
gordura sangue sal nervos fibras
ouvindo doces sonatas desconexas ao ronronar da boca
tua que mói batatas couves empanadas crisântemos
o telejornal exclama sem pudores: descoberta a cura
nunca soube do quê.

Vinte e três horas e quarenta e oito minutos
ajeitei impaciente as penas de ganso
reclamando o odor o ódio o ópio teu
na cama de solteiro na colcha azul no lençol amassado
sob o qual te busco dia e noite: todas as horas
sussurrando-te

Hoje
já passou.

Por Suzi Hong | Email Permalink24 comentários

Você já abraçou o seu pet hoje?

18.01.2008

Nara no Parque Villa Lobos Não sei se é fruto de um enorme estresse resultante das minhas atuais condições de trabalho, não sei se é a dificuldade que sinto ultimamente em verbalizar sentimentos... Pode até ser o ceticismo em relação à humanidade em geral, mas o fato é que ando abraçando a Nara e a Pina com uma frequência preocupante para elas (sim, cachorros ficam preocupados com seus donos). Apesar do termômetro indicar uma média de 30ºC nessas tardes de verão, fico bons minutos abraçadas às "meninas", sem ligar para o monte de pêlos que faz aumentar o calorão que tem feito nos últimos dias.

É uma espécie de terapia ainda, quando levo as duas para dar um passeio na pracinha perto de casa. Primeiro, por ver a expressão feliz (sim, cachorros dão risadas, entende?) e o rabo abanando freneticamente quando pego as coleiras e segundo, porque eu me divirto quando elas brincam de se esconder atrás de uma moitinha qualquer para sairem correndo, com a língua de fora. Abraçá-las porque deixaram uma criancinha pentelha puxar as orelhas, sem soltar um pio, abraçá-las porque latiram ao avistar dois "manos" grandes e com cara de mau, isso faz bem. Faz bem poder perguntar com o olhar "Nara, você me entende, né?". É bom acordar com as lambidas da Pina na cara e perceber que ela evitou um senhor atraso desta pessoa para chegar no escritório.

Essas são as razões que consigo enumerar para abraçar minhas "meninas". É diferente abraçar a Nara, porque ela tem a calma de quem já foi mãe de nove filhotes. Pina pidona. Abraçar a Pina, a primeira dos nove a nascer, é pedir para ser lambuzado com, pelo menos, duas lambidas. Isso sem falar na cara que ela faz, típica de uma chantagem emocional (sim, cachorros fazem chantagem emocional), quando desfaço o abraço e vou atender o telefone.

Abraçar seu pet faz bem. Seu pet estará sempre te esperando em casa e ficará louco de felicidade quando você chegar. De casas vazias, acredito eu, bastam os nossos dias em que nos deparamos com uma incômoda desesperança sem saber o motivo.

Abraçar seu pet faz bem. Ele depende de você para tanta coisa e não sente vergonha disso, em tempos que termos do tipo "independência financeira" ou "independência emocional" são dogmas para uma geração inteira quando falamos de felicidade. Tempos estranhos, estes.

Abraçar seu pet faz bem. Especialmente quando nenhum amigo, nem seus filhos, namorado e analista parecem te entender (nem você mesmo entende). Seu pet sabe do essencial: que você não está bem ou que palavras, às vezes, não valem tanto como um longo abraço de um dos poucos seres que sentem um amor incondicional por você.

O Marley, a Lassie, o Scooby-Doo, a Laika e o Snoppy que me perdoem. Mas as minhas "meninas" são muito mais legais.

E você? Já abraçou seu pet hoje? Serve gato, cachorro, tartaruga, porquinho da índia, bicho de pelúcia, boneca inflável, travesseiro...

Por Suzi Hong | Email Permalink36 comentários

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