Qual a maneira mais fácil de uma criança, no primeiro andar de um shopping, chegar ao segundo?
Se você respondeu ‘pelo elevador’, ‘pela escada’ ou ‘pela escada rolante’ apenas, errou. Ou não teve infância.
A maneira mais fácil de uma criança subir um andar em um shopping, é fazendo isso pela escada rolante que desce!
Tá, tudo bem, pode não ser a maneira realmente mais fácil, mas é a adotada por onze em cada dez meninos e meninas entre quatro e nove anos. Pode reparar.
Eu confesso que fazia muito isso, e muitas vezes competia com meu irmão pra ver quem chegava mais rápido: eu subindo pela escada rolante que desce (ou descendo pela que sobe, tanto faz) e ele ‘dentro da lei’, ou então, o contrário: ele subvertendo a ordem e eu sem contrariar as normas dos shoppings.
Ontem passei uns minutos observando duas meninas que se divertiam fazendo isso, e minha vontade de juntar-me a elas naquele Trabalho de Sísifo foi quase incontrolável.
Nossa vida é tão cheia de regras, depois de uma certa idade, não é? Parece que tudo vai ficando ‘certinho’ demais, e o espaço para as loucuras vai diminuindo até quase sumir, e então passamos a impressão de seres ‘normais’.
Eu sou ainda muito infantil, e acho que algumas pessoas podem ter um pouco de vergonha ao meu lado.
Em alguns momentos, quando encontro uma pedra no chão, na rua, vou chutando, chutando, durante vários metros. Só paro se a pedra for parar realmente muito longe do meu caminho.
Eu adoro tomar chuva, estas de verão. Se vier acompanhada de granizos então, me regozijo! (Claro, granizos pequenos, se forem pedras de gelo do tamanho de um cubo mágico, tô fora).
Adoro balanços. Sonho com o dia em que possa ter uma árvore no quintal em que dê para fazer um balanço. Pode ser estes feitos com corda e um pneu de caminhão mesmo, acharia o máximo.
Fico frustrada quando por acaso estou em algum lugar com balanços e sinto que serei persona non grata caso dispute o balanço com crianças de cinco, seis anos.
A vida de adulto não nos dá muitas brincadeiras.
Queria poder, um dia que fosse, fazer uma grande amarelinha em frente à minha casa, como fazia 22 anos atrás, e brincar, mesmo sozinha. Mas a nossa auto censura não permite.
Na verdade ando muito estressada na correria deste mundo adulto.
Tem dias em que o que eu mais queria era perder algumas calorias – e a noção da idade – subindo uma escada rolante que desce.
(Mais um texto antigo, que felizmente achei. Me dei férias do blog por várias semanas, muitas coisas a resolver em casa e fora dela. E um ótimo 2010 a todos).
Aqui vai um poeminha beeem antigo que achei fazendo uma compilação de textos. Acho que vou colocar outros ainda este mês. Vai ficar uma coisa Tipo Chaves, que não acaba nunca.
Mulher Pitanguy
"Ela tem um bronzeado
Que é a pura tentação
Conseguido a muito custo
Cem reais cada sessão
Tem pernas torneadas
E músculos definidos
E cabelos tão sedosos...
Pena serem tingidos.
Tem seios volumosos
Que conseguiu com cirurgia
Faz yoga e hidroginástica
E até medita, quem diria!?
Suas unhas de tigresa
São "made in Taiwan"
E seus olhos ficam azuis
Depois das onze da manhã
Tudo nela é natural
Como uma tulipa de tecido
Seu único pertence
É o sangue O positivo."
(dezembro/2000)
Quando eu era adolescente, eu e minhas amigas ajudamos a enriquecer um pouco o famoso astrólogo das revistinhas de bancas de jornal. Fazíamos testes ridículos pra ver com qual signo deveríamos namorar ou de qual tínhamos que fugir em disparada.
E é engraçado ver a importância que algumas antigas amigas minhas ainda dão à astrologia (aliás, dão cada vez mais, mesmo com mais de 30 anos).
É engraçado numas, né? Na verdade diante de certos dálogos eu tenho mesmo é vontade de chorar de desgosto. Como este abaixo:
- Ah, fulano é assim? Que coisa, leoninos não costumam ser assim.
- Bom, mas pode ser que o ascendente dele seja em câncer (touro/virgem/whatever).
- Ah é, tem o ascendente também. E outra, ele pode ter muitos planetas em água.
- É, ele pode ter vênus na casa tal, sei lá o quê na casa 10, tal planeta na casa 12 (e eu só pensando: e júpiter na casa do caraleo).
Alguém aí já ouviu falar em GENÉTICA?? HEREDITARIEDADE?? Não, né, pra quê?? Tão mais fácil atribuir TODAS as características de alguém à posição dos astros quando fulano nasceu. E, juro, eu sou pisciana e leio sobre meu signo e sobre mais um monte, ou seja, não sou completamente cética em relação à astrologia, não. Agora, achar que ela tem mais importância que os nossos genes e muitas das características que herdamos dos nossos pais... isso já é meio toupeirice. Que me perdoem os arianos, escorpianos e sagitarianos que curtem demais astrologia e que, segundo o João Bidu dizia, eram os signos mais "nervosinhos" do zodíaco. :>>
Estava lendo um texto policial quando deparo com a seguinte frase, do escritor Laurence Sterne: "Um homem que não tem um brinquedo ignora todo o partido que se pode tirar da vida. Um brinquedo é o meio exato entre a paixão e a loucura."
Esta frase me deteve e fez eu me abstrair quase que por completo, a ponto de esquecer do texto em si. Fixei-me à frase.
Que verdade estas palavras contêm! Um brinquedo é o meio exato entre a paixão e a loucura! Quem em sã consciência há de discordar?
Olhemos pro nosso passado, e pensaremos em brinquedos propriamente ditos: bonecas que passávamos horas a embalar, pôr chupeta, dar comida, colocá-las sentadas a papearem umas com as outras. Panelinhas onde cismávamos de colocar grãos de arroz e feijão. Quem diz que não há uma dose obscena de paixão e loucura nisso?
Não me esqueci dos meninos e suas brincadeiras preferidas, até porque cresci com um irmão apenas dois anos mais velho: carrinhos, pistas de autorama, carros de corrida que colidiam entre mãozinhas que mal comportavam tais brinquedos. Loucura? Sim, e muita paixão também.
Agora olhemos pra nós, adultos que não passamos
de crianças crescidas, e digamos que "brinquedos" não nos fazem falta! Imagina, impossível!
O lúdico e o abstrato precisarão sempre de um lugar dentro de nós, dentro da nossa acachapante rotina.
Meus brinquedos favoritos: palavras cruzadas, falar sozinha, cantar, ler gibis, andar descalça, tomar banhos de chuva, brincar muito com meus gatos e cachorros, escrever.
Tudo isso são brinquedos e brincadeiras. São, guardadas as proporções, minhas subversões na minha versão "adulta". Porque brincar é subverter, é criar e recriar mundos, inventar personagens, desfazer-se deles em fração de segundos.
Espero que possamos tirar muito partido da vida, e que passemos boa parte de nossa existência neste meio exato entre a paixão e a loucura.
Boas brincadeiras a todos nós!
Uns anos atrás, eu estava em uma praia límpida e a alguns metros de mim, havia um homem com um bebê. Ele olhou pro chão e viu uma flauta. A água era tão clara, a flauta era clara, da cor da areia, e mesmo assim ele achou. Pra minha surpresa ele sabia tocar algumas músicas, o que fez a alegria do bebê.
Horas depois eu estava no mesmo trecho da praia e pisei na flauta. Peguei-a nas mãos e fiquei bastante triste. Certamente o homem a havia perdido. Procurei-o por boa parte da praia, e nada.
A sorte é que eu também sei tocar, pelo menos o desperdício foi menor. Vim pra São Paulo chateada pela perda do bebê, mas feliz por ter uma flauta de marca boa e que não desafinava, como a minha anterior. Toco essa flauta ainda até hoje, mas sempre lembrando do homem, da praia e do bebê.