Categoria: Celso Unzelte
Quarta, Out 14, 2009
TEMPLOS E SUAS HISTÓRIAS
Histórias de Interlagos
Por Celso Unzelte, colunista do Yahoo! Esportes
A história a seguir foi contada por Chico Rosa, que participa da administração do Autódromo de Interlagos desde 1975, ao então quartanista de Jornalismo Andrei Spinassé. E está reproduzida no livro-reportagem Em teu Lar, Interlagos, apresentado como trabalho de conclusão de curso à Faculdade Cásper Líbero, que eu tive o prazer de orientar como professor em 2008.
O ano era 1973, o primeiro em que a etapa brasileira passou a integrar oficialmente o calendário da Fórmula 1. Antes do início das atividades do Grande Prêmio do Brasil, pediram para Chico comparecer ao portão de entrada, onde estavam três britânicos sem credenciais que insistiam em entrar. Dois deles eram ninguém menos que o piloto Jack Stewart e o beatle George Harrison. O porteiro só liberou a entrada de ambos porque conhecia Chico Rosa. Mas nunca tinha ouvido falar de nenhum dos outros dois.
Foi também para o livro de Andrei Spinassé que Edgard Mello Filho, conhecidíssimo jornalista automobilístico e ex-administrador do autódromo, deu o seguinte depoimento, a respeito de um ritual de Ayrton Senna que nem todos conhecem: andar em Interlagos na contramão.
"Sempre que ele ia a Interlagos, era batata: andava até com um Opala velho que tínhamos lá, que chamávamos de Onça, muito podre, mas todo enjoado, de pneus novos. Tinha uma folga desgraçada no volante, o câmbio engatava tudo, menos marcha, mas nos divertíamos muito. E às vezes ele ia com uns carrinhos tinhosos, ardidos, mas a voltinha dele na contramão era imperdível."
"No fim de 1993 ou no começo de 1994, houve um dia realmente especial, porque acho que o Ayrton gostou da brincadeira. Devia estar mais inspirado, de duas voltas passou para três, quatro, cinco, e pensei assim: 'Hoje, só quando acabar a gasolina ele para".
Saímos para dar uma volta e conversar. Ele começou a "descascar", "descascar", e decidi provocá-lo um pouco. Ele resolveu acelerar e eu, a provocar. Então, aticei um pouco, simulava uma narração de que ele estava sendo perseguido por aquele piloto francês narigudo (Alain Prost) e o inglês (Nigel Mansell) também vinha perto, queria passá-lo por fora. Ele dizia: 'Não vai passar! Não, por fora não passa!' Era uma perua Audi, o carro era um demônio. Foi memorável."
Também eu tive meu dia com Ayrton Senna em Interlagos. Foi no fim de fevereiro de 1994, pouco antes do Grande Prêmio do Brasil. Senna estava trazendo a marca alemã Audi para o país, e testaria o modelo S4 no autódromo para a revista Quatro Rodas, onde eu trabalhava. Eu estava entre os jornalistas que fizeram questão de participar daquela reportagem. Confesso que nesses quase 20 anos de profissão poucas vezes tremi diante de um entrevistado famoso como naquele dia.

Lembro-me de um Senna alegre, que desceu de helicóptero e conversou com todos nós sobre as perspectivas para o Mundial daquele ano. Estava tão bem-humorado que, a respeito de seu maior rival, o francês Alain Prost, ter abandonado as pistas naquela temporada, comentou: "Pelo menos neste ano eu não vou ter que ver aquele narigudo pelo retrovisor..."

Jornalista e pesquisador, Celso é professor de jornalismo e comentarista do canal ESPN Brasil, no qual participa do programa “Loucos por Futebol”. Também colabora com especiais para as revistas Placar e Quatro Rodas. Celso escreve semanalmente para o Yahoo! Esportes. Contato: celsounzelte@yahoo.com.br.


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