Categoria: Pedro Baleiro
Segunda, Nov 09, 2009
AUTODROMO DO RIO – O SONHO QUE DUROU POUCO

Papo com Pedro “Baleiro”
"Eu era feliz e sabia. Quantas vezes descemos a Serra de Petrópolis para participar de uma prova, ou mesmo para assistir.
A pista era precária, as arquibancadas improvisadas, não existia área de escape, o público assistia praticamente na beira da pista.
E daí?
Era maravilhoso ver o público vibrando pertinho dos seus ídolos.
Esses, uns abnegados sonhadores, que tinham certeza que aquele Autódromo ainda seria grande.
Não se sonhava com fórmula 1.
Os sonhos eram bem menores, mas de muita importância.
Aqui podíamos ver os cobras do automobilismo brasileiro, não convém citar nomes, pois eram todos amantes das corridas de automóveis, e em maior ou menor escala, pioneiros, que juntamente com São Paulo, abririam caminho para outros tantos Templos de raça, habilidade e coragem.
O sonho se realizou, e foi além das expectativas, o Autódromo cresceu, em tamanho, em importância e em arquitetura.

Depois virou Autódromo Internacional do Rio, foi batizado com o nome de um carioca que chegou ao topo do automobilismo mundial: Autódromo Nelson Piquet.
Agora já temos provas do mundial de Formula 1, Mundial de Moto Velocidade, Formula Indy e as nossa competições domésticas.

A realidade superou os sonhos mais otimistas.
Estávamos nas nuvens, daí pra frente era só acertar uns probleminhas e teríamos um automobilismo à altura de São Paulo e do Brasil.
Lêdo engano. Primeiro perdemos a Formula 1 para São Paulo, quando deveríamos ter um revezamento, ou até mais de uma prova no Brasil. Depois, numa crise de "inexplicável aversão” ($$$$???) por esse esporte que promoveu o Brasil no mundo todo, um prefeitinho de merda resolve iniciar a destruição deste patrimônio, fazendo obras do PAN ($$$), ignorando áreas maiores e disponíveis, porém ambicionadas pela especulação imobiliária.
Agora teremos os Jogos Olímpicos, e a patota dos coveiros do automobilismo vai se deliciar em acabar com o atual arremedo de Autódromo, como urubus devorando os despojos do nosso sonho.
"Adeus Autódromo".
Eles serão substituídos na administração, e talvez, quem sabe, possamos voltar a sonhar.
Pedro “Baleiro”
(reprodução)
Categorias: Esportes, Automobilísmo histórico, Pedro Baleiro
Quarta, Set 16, 2009
PAPOS COM "BALEIRO"
"Em Janeiro de 1970 foi realizada a primeira Prova do Torneio Internacional BUA de Formula Ford.
Nós tínhamos feito uns acertos no FUSCA, já com o numeral #52, trocamos os pneus traseiros que eram muito grandes, colocamos uma quarta mais curta, o que daria mais força na curva sul, e nas saídas das demais, melhoramos a carburação e fomos experimentar numa das quinta feiras de treino livre. O Erwin, dono do carro, já com a carteira de piloto, que era um porra louca, sentou e foi experimentar. Na 2º volta já passou com 2,59 “baixo, na 3º 2,58" baixo, e depois de umas seis voltas começou a cravar 2,56 “e parou pra que eu experimentasse. Eu sempre mais cauteloso que ele, virei, depois de algumas voltas 2,56" alto. Sinalizaram para que eu parasse e o Erwim me deu um esporro.
"Porra, isso ta parecendo acompanhamento de enterro. Baixa a bota. Tem que baixar meu tempo".
Eu argumentei que não estava valendo nada, e que eu não queria arriscar uma escapada que pudesse danificar o carro.
Ele concordou meio contrariado e subimos para aguardar a semana seguinte, na preliminar do Torneio BUA.
Sexta feira, ante véspera da prova, descemos pra treinar e eu dei umas três voltas em 1,58” baixo e mais umas três em 1,56 cravados. Conversamos, ele perguntou se dava pra melhorar, eu disse que na hora da verdade podia ser que tirasse alguma coisa”.
Sábado, treinos classificatórios, coloquei o capacete, as luvas (soutien de vaca, rs) ele me ajudou a colocar o cinto e fez mais uma recomendação:
"Cara, procura fazer a Sul e a Norte mais forte, acho que você consegue, e vai dar mais relógio”.
Saí dos boxes pensando naquilo, me concentrei mais no traçado da Sul e da Norte, dei umas duas voltas em 2,56 “alto, apertei mais um pouco, e me sinalizaram 2,55" cravado, 2,54 “alto, 254" baixo e 2,54 “baixo, repeti o 2,54” baixo, novamente 2,54 “baixo e entrei nos boxes”.
O Erwin, o Juca, o Alemão e o Betinho sorrindo de orelha a orelha. Na minha frente o MINI, um outro fusca com 2,54 “cravado, acho que o Botelho, numeral #6, não tenho certeza”.
Domingo, dia da prova, já contávamos com o 4º lugar, pois tinha um FUSCA verde claro, cujo numeral era #69, se não me engano, que nunca aparecia nos treinos oficiais e largava em ultimo, mas no fim da reta já tinha despachado todo mundo, menos a GTA e o MINI.
O Renato Kreyscher com a GTA, pai do Aluisio, não se inscreveu, então devia chegar em 4º realmente, mas o Alex Borinsky que corria de DKW, foi olhar o tal FUSCA foguete de perto, descobriu a dupla carburação WEBER e botou a boca no trombone, resultado? O cara não pode largar. Tristeza pra uns e alegria pros outros. rs.

Largamos, e a prova transcorreu dentro da normalidade. Na primeira volta dei uma escapada na Sul, mas consegui me manter em cima do asfalto, com isso o outro fusca botou um frente razoável, me desdobrei no miolo e consegui diminuir a diferença, pois eu era mais rápido de miolo, quando saímos no retão ele abriu de novo, e assim fui tentando nas primeiras cinco voltas, sempre se repetindo o lance das anteriores, resolvi me conformar com o terceiro lugar para evitar um acidente, já que estava me arriscando muito e não chegava no cara do Fusca. Ultrapassagens só de algum retardatário (Edgar "Moleque" de 1093, entre eles) e cheguei em 3º, com direito a podium Taças, e festejo nos boxes.
Nesse dia tive uma das maiores emoções da minha, relativamente curta, vida de Piloto.

Ao receber a Taça, olho para arquibancada e vejo um cara, que na minha opinião, foi um dos maiores, se não o maior Piloto petropolitano, nos aplaudindo: Álvaro Varanda. Fiz um gesto como a lhe oferecer a taça, desci do Podium, entreguei a Taça pro Erwin e fui buscar o meu grande ídolo para levá-lo até os boxes. Ele vinha deixando as arquibancadas, me abraçou, me deu os parabéns e declinou do convite dizendo:
“Desculpe, tenho um compromisso, só passei aqui pra te ver e te dar um abraço”.
Não precisa dizer que o bobalhão aqui ficou com a voz embargada, os olhos marejados, e voltou pros boxes, relembrando a semana passada na fazenda dele em Sapucaia, Fazenda Monte Café, onde ouvi muitos conselhos, muitas histórias e vi muitas fotos.
Erwin Keuper e Álvaro Varanda já se foram. Muitas saudades, mas devem estar juntos, tenho certeza de que todos os bons formam o mesmo grid".
Pedro Henrique "Baleiro"


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