LE MANS - 1966, HOUVE EMPATE?
Sexta, Jan 01, 2010
LE MANS - 1966, HOUVE EMPATE?
Galera, mais um presentinho início de ano pra ôces. Com maestria e conteúdo, Toni Seabra faz um relato da prova que provocou discussão e sempre é lembrado pelos "puristas" de plantão! Se deliciem galera...
LE MANS 1966 – Houve ou não houve um “empate”?

Os Ford GT40 MkIIA se aproximam juntos da linha de chegada...
Muito se comenta sobre a chegada dos 3 Ford’s GT40 MkIIA juntos, nas 24 horas de Le Mans de 1996. Por muito tempo alguns jornalistas fomentaram a versão de que dois dos carros teriam cruzado juntos a linha de chegada (é preciso lembrar que naquela época não havia cronometragem eletrônica!), o que teria levado a Ford a solicitar a direção de prova que fosse declarada uma vitoria dupla, ocorrência que seria única em toda a historia da corrida. E que o ACO (Automobile Club de L’ Ouest), organizador da corrida, teria decidido dar a vitoria ao carro n° 2 porque este teria largado cerca de 20 metros mais para trás no grid - largada parada do tipo Le Mans - ou seja, teria percorrido uma maior distancia durante as 24 horas da competição.

A foto mostra o carro n°1 (Miles/Hulme) cerca de 20 metros a frente do n°2 (Amon/McLaren), no grid de largada
Sabemos que depois de “débâcle” de 1965, a Ford investiu mais pesado ainda para vencer Le Mans em 1966. Os GT40 originais foram extensivamente modificados, em busca de melhor performance, e receberam o enorme motor de 7 litros, com uma cavalaria improvável para a época (485 HP). Os resultados positivos já ficaram demonstrados em Daytona e Sebring onde a Ford obteve 2 vitorias e todos os demais lugares no pódio, tendo Ken Miles como piloto do carros vencedores de ambas as provas. Era uma prova de força, apesar da ausência da Ferrari em Daytona, e da inscrição de apenas uma P3 em Sebring.
Mas a grande aspiração do gigante americano era mesmo vencer Le Mans, e a Ford levou para La Sarthe uma “armada” de 8 GT40 MkIIA, além de alguns GT40 de antiga versão, inscritos por equipes particulares. Guiando os MkIIA estavam alguns renomados pilotos de F1, tais como Denny Hulme, Dan Gurney, Chris Amon, Bruce McLaren e Graham Hill, além dos não menos conhecidos e competentes Mark Donahue, Mário Andretti e Ken Miles, entre outros. Em contra partida, a Ferrari só conseguiu aprontar 3 unidades da novíssima 330 P3, em virtude das greves de metalúrgicos na Itália, sendo que já era patente que as antigas 365 P2/3 não ofereciam real oposição, talvez nem mesmo aos Ford GT 40 mais antigos.
Os treinos provaram a velocidade dos novos GT40 MkIIA, que ficaram com os 4 primeiros lugares no grid, Gurney/Grant na pole com 3.:30.6, Miles/Hulme em segundo com 3:31.7, Whitmore/Gardner em 3° com 3:32.2, Amon/McLaren em 4° com 3:32.6 e a primeira 330 P3 de Rodriguez/Ginther em 5°, com o excelente tempo de 3:33 cravados. Depois mais um Ford, de Graham Hill/Muir, e as P3 de Parkes/Scarfiotti e Bandini/Guichet, sendo estes os últimos abaixo de 3:35.0. Entre 3:35 e 3:37 estavam o Chaparral 2D de P. Hill/Bonnier e os três outros Ford MkIIA de Bucknum/Hutcherson, Hawkins/Donahue e Andretti/L.Bianchi. Os demais vinham com tempos acima de 3:40 min.
As Ferrari P3, apesar de seus V12 de 4 litros serem bem menos potentes (420 HP) que os V8 de 7 litros americanos, estavam muito rápidas, e deveriam dar trabalho aos Fords. Mas eram apenas 3 contra os 8 Ford’s, o que a transformava numa espécie de Davi enfrentado um Golias. O ponto fraco dos Ford’s era o sistema de freios, dado que o carro era muito pesado para sua velocidade, exigindo trocas dos discos durante a longa prova. Um sistema de trocas rápidas foi desenvolvido para superar esta adversidade. As Ferraris 330 P3 tinham na transmissão e no sistema de refrigeração do motor o seu calcanhar de Aquiles.
Ken Miles, piloto, engenheiro e peça importantíssima no desenvolvimento do carro, buscava em Le Mans a “tríplice coroa”, ou seja, a vitória nas 3 mais importantes provas de “endurance” da temporada, dado que já havia vencido em Daytona e Sebring. Durante as primeiras horas de prova os GT 40 de Gurney e Miles impunham um ritmo muito rápido, porem eram acompanhados a curta distancia por Rodriguez e por Parkes, em duas das P3. O carro de Amon/McLaren rodava mais lento, numa estratégia de se conservar para a vitoria, sendo “marcado” pela Ferrari de Bandini e do “gentleman driver” Jean Guichet. Por volta de 4 horas de prova, Gurney e Miles seguiam numa disputa feroz, ambos virando em tempos iguais aos obtidos nos treinos. Mas, devido ao handicap das paradas para troca de discos e pastilhas de freio, com 6 horas de prova as duas Ferrari 330 P3 alcançam a liderança. Rodriguez continua voando baixo com a spyder, transfigurando-se no favorito do publico.

A Ferrari 330 P3 spyder de Rodriguez-Ginther
Nesta altura, começava o aparente calvário de parte da armada da Ford: um deles já havia abandonado a prova e dois estavam muito atrasados, dando a impressão que o acaso começava a equilibrar as chances de vitoria entre Ford e Ferrari. Porem, a partir da 7° hora as esperanças da Ferrari começam a se esvair, talvez por conta do ritmo infernal da prova, com as P3 apresentando problemas de transmissão e de superaquecimento e caindo na tabua de classificação. N 9° hora a dupla Scarfiotti/Parkes se envolve num acidente, e na 11° hora é a vez de Rodriguez abandonar com problemas na caixa. A terceira P3, lutando contra o superaquecimento, vai resistir somente até a 17° hora, e também abandona. Um pouco adiante, é a vez do Ford de Gurney abandonar, com a queima da junta do cabeçote.
Com 20 horas só restam 3 Ford’s GT 40 MkIIA na prova, viajando em velocidade de cruzeiro, a caminho da vitoria. Miles e Amon passam a andar juntos, com Bucknum vindo em 3°, algumas voltas atrasado. Os carros giram agora cerca de 30 segundos por volta mais lentos do que na classificação, já que ninguém mais pode lhes oferecer combate.
A Ford precisava definir qual dos dois carros vai vencer a corrida. Miles, apesar de ter sido peça chave no desenvolvimento dos carros, estava passado por sérios problemas de relacionamento com a Ford, em função de seu gênio turbulento. Mas tinha liderado grande parte da corrida, na fase inicial, tinha imposto um ritmo alucinante, e merecia vencer. Foi ai que dentro da Ford teria ganho corpo o plano de fazer os carros chegarem emparelhados, dividindo o primeiro lugar, de onde provavelmente se originou a lenda. Porem, a foto da chegada, abaixo, mostra de forma inequívoca, que a estória não passa mesmo de lenda, deixando claro que o Ford n° 2 chegou nitidamente a frente do carro n° 1.

A bandeirada de chegada de Le Mans 1966
Entretanto, como toda lenda tem seu fundo de verdade, o que se comenta é que a Ford chegou e ventilar a idéia junto ao ACO, que finalmente teria usado o argumento da distancia total percorrida para negar a pretensão dos americanos. Fato é que muitos asseguram ter visto Ken Miles e Dennis Hulme chorando, depois da chegada. Afinal, eles reduziram o “train” de corrida por instrução dos boxes, permitindo a aproximação de Amon e McLaren, de certa forma abrindo mão de uma vitoria que seria certa, dado que o carro deles agüentou o “tranco” do fortíssimo ritmo mantido por mais de metade da prova.
O que restou como curiosidade na primeira, acachapante e tão almejada vitoria da Ford em Le Mans foi que 3 dos 4 pilotos que conduziram os MKIIA aos dois primeiros lugares, e por tão pequena margem, eram neo-zeolandeses: Chris Amon, Bruce McLaren e Dennis Hulme !
Poucos meses depois, em agosto, o inglês Ken Miles viria a falecer em Riverside, aos 48 anos, testando o malfadado Ford modelo “J”, cuja horrorosa carenagem tinha a forma denominada como “breadvan”. O carro tinha sérios problemas de aerodinâmica e de estabilidade direcional, o que acabou fazendo com que com que Miles perdesse o controle em plena reta, em alta velocidade. O carro saiu da pista, capotou, desmanchou-se e incediou. Miles foi atirado para fora do carro, perdendo a vida e também a chance vencer em Le Mans, meta para a qual dedicou tanto esforço e tantas horas de teste. Deve ter gente na Ford que ficou com um bocado de remorso...

O feio, problemático e fatídico Ford “J”
Com o acidente de Miles, a Ford desenvolveu uma nova carroceria, mais aerodinâmica, a partir do leve chassis em “honeycomb” do “J”, que acabou se tornando o Ford GT40 MkIV, carro vencedor de Le Mans em 1967 nas mãos de Gurney e Foyt. Se Miles não houvesse falecido, possivelmente seria ele quem estaria dividindo o carro com Gurney: a justiça teria sido feita, e os vencedores seriam os 2 pilotos que andaram mais rápido, e disputaram a liderança por tantas horas, na prova de 1966. Mas o automobilismo, como a vida, na maioria das vezes não é um esporte justo.
Mais aí, eu e Saloma achamos que a comparação tem que ser melhor abordada, fica pra mais tarde...valeu galera e ótimo ano de 2010. E que seja “mágico” como fala o síndico...
Toni Seabra
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Comentários:
Qualquer dia desses escrevo uma matéria sobre a performance dos MGBs nas 24 Horas de Le Mans de 1965.
AGORA, DE QUEM VC. COLOU A ÚLTIMA FRASE DO TEXTO ???
PARECE QUE OUTRA PESSOA ACABOU POR VC., POIS NÃO TEM PÉ NEM CABEÇA.....
ABS.,
H
Uma abordagem interessante.
Eu não lembrava e, francamente nem tenho certeza de terme lembrado da "controvérsia so empate". Acho que nem registrei o fato. Sonhava era com 'aquela' reta...
Estamos bem servidos de 'penas' por aqui.
Abração Seabra, e um belo ano a todos nós.
Vicente: procure no YouTube o filme da Targa Florio de 1965 (8 partes). Precisa ter saco pra esperar carregar, mas é sensacional. E aparecem cenas geniais de um MGB (ou seria Midget, especial ??? voce conhece mais...), coupe, com a frente mais aerodinamica, desde o desembarque do navio ate´os treinos extra oficiais (pista aberta e trafego na contra-mão !!!!), pilotado pelo Paddy Hopkirk. Tem uma cena dele morro abaixo seguindo acho que uma Alfa TZ que é impressioannte, ele vai "encurtando a distancia pra Alfa (ou Ferrari, não lembro) a cada curva, com o transito vindo ao contrario !!! A BMC levou 3 carros, além do MG levou um Healey Sprite para o Aaltonen e um Healey 3000 Hardtop para o Makinen. Só piloto de rally (também, né...) !!!! MAs o show mesmo é do Paddy. Tambem é show ver o Vacarella com a 275 P2, e o feio Porsche Bergspyder 904/8 que foi recusado pelo G. Hill e Joakim Bonnier e chegou em segundo com o Colin Davies !!!!! Um GT 40 spyder (spyder MESMO, parabrisa de pexiglass em toda volta !)tocado por Sir John Whitmore e Bob Bondurant, que deu uma panca no final. Vale a pena !!!!! Filmaço !!!
Ah, outra coisa que vale a pena prestar atenção é uma Simca Abarth iguail as que vieram pro Brasil, até o numero é 26, só que branca e com motor 1300 Twin Cam, andando barbaridade !
Abraço
Antonio
http://www.interney.net/blogs/saloma/2008/03/07/simca_abarth_1/
Neste post, só pra esclarecer uma duvida levantada pelo Vicente, o motor cujos comandoas são acionados por correia dentada é o 1.300 TwinCam. O outro motor, igaulmente TwinCAm, mas conacionamento interno, provavelmente por corrente, é muito mais "parrudo" (vide os Webers mairoes e o coletor de descarga volumoso é o 2.000cc.
Fatos são: foram importados 3 carros, todas elas com motor 2.000cc, 2 com com cabio de 6 marchas e uma com cambio de 4 marchas. E as 3 voltaram para a Europa, estando descartada a versão de que elas tenham sido lançadas ao mar !!!
Quem quiser ver uma muito similar as "brasileiras", exceto pela saida de ar sobre o capo dianteiro (modificação do proprietario), veja o site abaixo:
http://www.cobraferrariwars.com/abarth_simca-2000.html
Estou buscando os dados corretos deste carro, mas parece que o motor é derivado do Simca 1500cc, passando a 1946cc, com potencia variando entre 187PS a 202 HP (qual criterio de medida, DIN? SAE?), a 7.000 RPM (o Toco fala em até 11.000 RPM, acho que tem algo errado ai, não é motor pra tanto RPM). Estes carros foram produzidos entre 1963 e 1964.
Vou buscar mais dados sobre este carro, nos sites italianos. DE qualquer modo gostaria de ver 3 coisas:
1 - Qual o tempo que eles viravam eme Interlagos velho ???? (ai, pessoal que tem coleçao de autoesporte, vamos ajudar ???)
2 - Fotos das brasileiras de capo aberto
3 - O Jayme Silva contando o que sabe sobre estes carros
Saloma, o assunto vale outro post !!!
Antonio
Eu, que além de proprietário de MG sou aficcionado pela marca, conheço bem toda essa história dos MGBs nas pistas. O carro com frente mais arredondada, mais aerodinâmica, nada mais é que o velho e bom MGB com o "long nose" que era colocado em apenas 1 carro daequipe em provas de alta velocidade média. O long nose uma vez causou problemas de super-aquecimento. Só havia 1 long nose na equipe que podia ser instalado em qualquer um dos três "works cars", sempre vermelho com hard top branco. Após cada temporada o "long nose" era desmontado e reparado na fábrica em Abingdon. Em 1964 foi utilizado no BMO 541B (os carros de corrida eram emplacados) e em 1965 no DRX 255C.
Em 1965 o DRX255C chegou em décimo primeiro na geral nas 24 Hs de Le Mans usando o "long nose", sendo o primeiro entre os carros de produção, atrás de Fors, Ferraris e Porsches. E com apenas 1800 cm3 e 01 carburador Weber 45 DCOE. Antes disso, o "long nose" causou problemas de super-aquecimento em outro "works car", o BMO 541B, no quinto dia do "Tour de France".
Vale dizer que ambos BM) 541B e DRX 255C sobreviveram e estão impecavelmente restaurados. Teclo com as revistas em que eles aparecem apoiadas na perna dobrada. Tenho farta documentação sobre esses carros de fábrica mas a preguiça me impede de escrever. Imagine que tenho na parede atrás do meu computador, aqui em casa, um poster de época com um "long nose" reabastecendo numa prova.
Um abraço,
Vicente
PS: vou lá no YouTube ver Paddy Hopkirk acelerando ..... e mais, o pedal de acelerador do meu MGB é um acessório que tem a assinatura do Paddy.
Interessante, apesar de Paddy Hopkirk correr normalmente de MGB, na Targa Florio de 1965 ele participou com um MG Midget mesmo, fechado, equipado com caroceria especial. Mas quem arrasa nos treinos é Timo Makinen com o Austin Healey 3000.
Acesse o site: http://www.formula2.net/Targa65.htm
Desculpe o atraso, aeroportos sob neve (sou tripulantes numa voadora suiça, bangolando de lá/pra cá
Saudações belgo-monarquistas
carlo paolucci
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