PAPOS COM SEABRA
Segunda, Set 14, 2009
PAPOS COM SEABRA

"Essa foi outra epoca divertida !!!"
Essa foi outra época divertida! Eu tinha ficado um tempo longe dos carros de corrida, estava fazendo Engenharia Mecânica e trabalhando com manutenção de equipamentos de construção civil (guindastes, caminhões, compressores, etc). Dai, um amigo muito chegado, que era um "bota", e a quem eu já tinha ajudado muito antes, no tempo dos fuscas, e depois, de Dodginho e de Maverick, resolveu fazer um Passat TS D1. Entregaram-me o carro pronto, mas com suspensão standard, para amaciar o motor na rua.
Andei uns 1500 km em uma semana, saindo só à noite, e subindo e descendo Petrópolis, Teresópolis e Friburgo, para amaciar o motor. Na rua parecia um foguete. Na véspera do treino parei o carro numa oficina em Botafogo (o dono era piloto conhecido, hoje dono de um "dealer" de superesportivos em SP), só pra colocar as molas e os amortecedores de corrida, os pneus lixados, colocar os números etc. Quando peguei o carro pra levar pro autódromo (naquela época ainda íamos rodando...), de cara achei uma bosta. Era só uma impressão visual, mas a traseira estava mais alta que à frente, e tinha pouca cambagem na frente, o que pra mim não combinava com acerto pra tração dianteira. No caminho, vi que a traseira estava muito mole. Pensei, isto não vai dar certo...
Na pista, 44 inscritos, e só 40 largavam. Nesta época o meu amigo (hoje já falecido)corria escondido da esposa, e chegou, treinou e foi embora, tudo correndo. Falou, que tava saindo muito de frente, mas que devia ter qualificado no meio do pelotão, ai pelo 20-22° lugar. Eu fiquei esperando pela classificação oficial (como demorava!), que era distribuída em folhas de papel mimeografado, ainda cheirando a álcool. Quando cheguei de volta na oficina e liguei pra dizer ele tinha ficado em 32°, ele ficou desapontado. O único consolo é que o dono-da-oficina-piloto-conhecido ficou em 38°...
Pedi autorização pra dar o meu "jeitinho" no carro, e ele me deu carta branca.
Fui mexer no estoque de molas, escolhi as molas traseiras mais baixas que encontrei, mandei colocar e aumentar muito a carga dos amortecedores traseiros. Deixei a dianteira como estava, pois não daria tempo de mexer na frente. O preparador, um gaúcho, estava puto, dizendo que eu estava fazendo merda, que o carro ia ficar enguiável, etc. ms, como eu estava com as ordens, e o meu amigo tinha grana e estava pagando caro...Deram-me uma papeleta com os valores de camber e caster e pulei no carro, já com o sábado anoitecendo, pra ir alinhar a direção no posto Mengão, lá na Lagoa.
Aqui vai um capitulo a parte: tinha um cara da Federação carioca, eu não me lembro o nome dele (também já falecido, num acidente besta, na rua), e que também estava meio puto comigo, me achando muito prepotente por discutir com o preparador, mas que resolveu ir comigo pro alinhador. Saímos devagarzinho, mudando as marchas na menor RPM possível, pra não fazer esporro com a descarga livre, passei pela rua da Passagem, subi a ladeira do Leme, e no final da descida, punta-tacco e espetei uma terceira, de levinho, mas o suficiente pra fazer roncar um pouquinho. Daí o cara, com uma voz fininha (o nome de guerra dele era Fala Fino) disse: "Agora, segunda", e eu obedeci na hora, já com giro mais alto e aquela roncada gostosa, e ele não resistiu na encomenda e já gritando: "e agora primeira!” Foi o suficiente, reduzida pra primeira, entrei entre dois carros, e cravei o pé na entrada da Rua Toneleros, segunda enchendo com o motorzão gritando forte, e o Fala Fino gritando alto “vai, vai, vai”, a terceira da caixa curta dos primeiros LS enchendo logo, e eu já a uns 120 no meio do transito complicado de sábado, "costurando" todo mundo de um lado pro outro da rua, jogando a quarta na porta do quartel da PM, de carro numerado e tudo, só fui tirar o pé lá na entrada do Túnel da Pompeu Loureiro, pensando que amanhã não tem mais corrida, vamos acabar sendo presos! Graças a Deus não deu em nada, além de muita adrenalina. E o Fala Fino já passou a gostar de mim, virou meu amigo de infância!
Bom, esta brincadeirinha deu pra sentir que a traseira tava um "pau", e que
até nas costuradas já ameaçava vir com tudo. Menos mal.
Eu era o quinto na fila do alinhamento. Na minha frente estavam, se a memória não falha, um carro da Refricentro, o Águia, o Chico Inglês e o Toninho da Matta, que tinha feito um dos primeiros tempos. Raparei que o "acerto" do carro estava parecido com o que eu tinha feito, talvez à frente dele só um poucochinho mais alto. Na hora de alinhar passei o tal papelzinho pro alinhador e vi que ele torceu o nariz. Botei uma grana legal de gorjeta na mão do cara e ele abriu o bico "ta tudo errado... os outros estão usando mais caster, mais cambagem e o alinhamento divergente”.
Falei pra ele colocar igual ao do Toninho da Matta, ele tentou, mas não deu, a coluna do Mc Person não estava empenada o suficiente, mas deu pra ficar parecido. Saímos do alinhador lá pelas 10 da noite, e no caminho de volta, mesmo indo mais devagar (agora a razão falou mais alto) deu pra sentir a direção muito mais "obediente", eu virava e o carro "entrava" logo, sem hesitar, bem mais preciso.
No domingo, o meu amigo Toninho Moutinho chegou em cima da hora pra alinhar, explicando que tinha dado banho no neném, antes da esposa autorizar ele ir ao autódromo "assistir" a corrida! Antes disto, eu fiquei xeretando a calibragem de pneus dos lideres, e vi que a nossa estava muito baixa. Coloquei mais pressão. Ele estacionou a maravilhosa Caravan seis cilindros, toda incrementada, colocou o macacão e o capacete de qualquer jeito (gordo é foda, quase "entalou" no macacão) e pulou no carro para ir alinhar. Falou que ia dar só três voltas e que se estivesse entre os últimos iria parar e voltar pra casa cedo. Estava desanimado. Eu pedi para ele testar o carro no miolo norte, e quando passasse na reta me fizesse um sinal com o polegar, dizendo se melhorou ou se piorou. Ele ainda desanimado, falou somente: "ta". Quando passou no retão, pôs o braço pra fora, e polegar pra cima, deu umas quatro "braçadas" mais pra cima ainda, o que pra um cara frio, era sinal de muita empolgação. Quando alinhou me falou apenas: ta gostoso, ficou bem "traseiro", ta muito melhor de guiar. A esta altura eu estava quase chorando de alegria...
Dada a largada, no retão ele já tinha ganhado algumas posições, e dai, foi uma festa só, na freada do fim da reta passou três carros de uma vez.
A cada volta era um rol de ultrapassagens. Na oitava volta já estava em nono (!), tendo passado muitos caras que estavam entre os favoritos, inclusive o Rômulo Gama e um dos carros da Refricentro, não me lembro quem. Mesmo andando no bolo, já tinha virado 2 segundos inteiros abaixo do tempo dele nos treinos e estava se aproximando dos carros da frente! Na volta seguinte ele vem devagar, perdendo posições e entra no Box com o motor falhando nas curvas.
Abre-se o capo, mexe-se nos cabos de velas e o motor apaga de vez.
Tinha acabado o álcool! Preparação amadora é uma merda, e o carro estava com uma tampa de tanque com chave, com a qual tinha sido comprado, e que não vedava direito. Nas curvas, tinha vazado tudo...Mas restou a alegria de oito voltas sensacionais.
Ah, e o piloto-dono-da-oficina chegaram entre os últimos...
Desculpem a longa estória, mas é a primeira oportunidade que eu tenho de contar por escrito, e de publico!
Antonio Seabra
Gentleman-driver
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Aqui só aparece doido.
E tá virando concurso de "contador de histórias".
Cada uma melhor que a outra.
Sem essa de pedir desculpas Seabra.
Considere-se intimado a contar mais.
Quanto talento escondido por aí ainda iremos descobrir...
"diliça" de ler e imaginar.
Não tenho o telefone de voces. Mas queria dizer que nosso amigo, meu pai, não vai mais poder comentar aqui no blog. Hoje ele não resistiu. Se quiserem me ligar para saber mais, estou no 24 7835 2863. Abs.
Lamento profundamente o ocorrido. Conheci seu pai apenas de beira de pista. Receba o meu abraço sincero.
Antonio Seabra
Saloma, agradeço pela oportunidade (como já havia feito por e-mail) de , de certa forma, homenagear um amigo que acelerava muito, e que já não está mais aqui conosco.
Antonio
As coisas eram assim mesmo nessa época, diversão da mais pura pra quem sabe curtir a vida, até mesmo essa de amaciar motor durante as noites, gostei muito.
Continua Saloma, vc tá fazendo a história...
Ary
Você sabe, mas quero tornar público, que sentí como se tivesse perdendo um irmão. O teu pai Serginho, os tios Paulinho, Carlinhos,João "Gago", e Marcinho foram para o andar de cima, mas, com certeza, cumpriram com suas missões. E como já disse antes, estão formando num grande grid, reservado aos bons. Transmita, por favor, à toda sua família os meus mais siceros sentimentos. Tomo a liberdade, em nome do Saloma e de todos nós, fãs desse blog, te peço para preencher essa vaga no pelotão da frente.
PS. Estou te enviando os telefones.
Um abraço a todos.
isso nao nos faz seer melhores do que ninguem mas apenas trocar experiencias....e ter prazer no que mais gostamos...essa tal de gasolina na veia....
Ao Seabra...sensacional relato!!!!!
Agradeço, e muito, as palavras de vocês. São muito importantes para nós. Tenho certeza que meu pai iria ficar feliz com a consideração de vocês e nós ficamos felizes por ele ter estado no meio dessa turma toda reunida pelo Saloma.
Estarei sempre por aqui, lendo as histórias de vocês desses tempos bacanas e compartilhando quando possível o pouco que sei, e que me foi contado por meu pai.
Forte abraço a todos.
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