F1 REVIVAL #1
Quinta, Ago 27, 2009
F1 REVIVAL #1
Blog: mais uma da dupla Saloma e Borghi...hj damos o larga para as colunas de F1 e suas histórias. Esperamos que gostem!
Temos a tendência de rapidamente substituir, ou mesmo de esquecer, quem nos proporcionou momentos de alegria e entretenimento. São assim, digamos, nossos ídolos e heróis “temporários”. Se não formos constantemente lembrados através da mídia, blogs, livros, ou de algum outro guardião da memória esportiva, em pouco tempo não nos recordaremos nem mesmo dos campeões, quanto mais, dos que não chegaram a tanto. Mesmo daqueles que continuam vivos. Somos imediatistas, e damos valor só para a mais recente vitória e vitorioso. Só nos importamos com quem chega em primeiro. Consideramos o segundo colocado “o primeiro dos últimos”. Se nosso ídolo não ganha sempre, logo na sua primeira “não vitória”, começamos a duvidar seriamente da sua capacidade de vencer novamente.
Um reporter brasileiro entrevistando o Emerson Fittipaldi, após uma prova na qual não havia sido muito feliz, fez a seguinte pergunta ao bi-campeão mundial de F1, duas vezes vice, campeão da Indy, e também duas vezes vice, vencedor por duas vezes das 500 milhas de Indianápolis: “Emerson, a que você atribui o seu fracasso?”
A interligação dos personagens no mundo das corridas também é muito interessante, e suas vidas muitas vezes se cruzam e re-cruzam durante décadas.
Nosso personagem abaixo alinhou em grids ao lado de Jochen Rindt, Ronnie Peterson, Emerson Fittipaldi, Jackie Stewart, Jackie Ickx, Graham Hill, Jo Siffert, e de muitas outras feras. Seu mecânico na Broadspeed, onde corria com Jaguar XJ12C, era um tal de Nigel Stepney. Mike Coughlan obteve sua primeira oportunidade de trabalho, como seu desenhista na Tiga, empresa que viria a ser criada mais à frente pelo nosso personagem. A dupla Stepney e Coughlan seriam em 2007, protagonistas do maior escandalo de espionagem da história da F1. Descontente por não ter sido promovido para o lugar de Ross Brawn que estava de saida, Nigel Stepney, na época Gerente Técnico de Competições da Ferrari, e com um salário superior a 1 milhão de dolares por ano, vazou informações sigilosas da sua escuderia para o amigo Mike Couglan que era na época o projetista chefe da McLaren em Working.
O homem que viveu tudo isso, e ainda por cima foi o primeiro piloto a correr para Ron Dennis na F2, chama-se Tim Schenken. Conhece, ou lembra-se dele? Muita gente, não...

Vencedor do Campeonato Inglês de Fórmula Ford, campeão da F3 britânica, e bem colocado na disputa do campeonato de F2, não tinha ainda conseguido uma brecha para a categoria maior. Sua chance pintou em junho de 1970 com a morte de Piers Courage em Zandvoort. Venceu a disputa por essa vaga no time de Frank Williams, e finalmente chegou na F1, sentando-se atrás do volante de um de Tomaso para disputar a provas restantes do ano. A Williams parece que desde aquela época, sofre com os mesmos problemas de falta de dinheiro. Em 1970, Frank pagava seus compromissos do ano anterior com os patrocínios do ano corrente. Com um carro que não era lá essas coisas, e o constante aperto financeiro, abandonaram por quebras na Austria, Itália e EUA. Mas no Canadá, conseguiram pelo menos chegar!
Além da situação trágica com a qual havia chegado ao mundo dos grandes prêmios, Tim estava também presente em Monza, quando seu herói Jochen Rindt, perdeu a vida. Por conta da primeira vitória de Emerson na F1, no GP dos EUA, ocupando sua vaga de primeiro piloto na Lotus, Jochen Rindt seria o campeão póstumo daquele ano. Apesar de abalado por esses acontecimentos, Tim Schenken estava fazendo o que sempre sonhara, e portanto, continuou a correr na temporada seguinte para a Williams, só que agora, com um Brabham BT33. Era melhorzinho do que o de Tomaso, mas não muito. De qualquer forma conseguiram um sexto lugar em Nurburgring, e um terceiro em Osterreichring, onde subiu no pódio com Emerson e Jo Siffert. Mas Tim não desejava ser só figurante, ou somente mais um dos 25 participantes do circo. Começou então, a se envolver cada vez mais com o time, com a engenharia, e o projeto dos carros. E isso, era tudo que o seu próximo patrão, John Surtees, não queria!
Autoritário, o campeão mundial pela Ferrari de 1964, fazia também o papel de piloto de testes, conduzindo ele mesmo seus carros para acertos e ajustes. Surtees foi o único a ser campeção tanto em duas quanto em quatro rodas. Venceu sete mundiais de motociclismo, quatro com as de 500 cc., e três com as de 350 cc. O proprietário da Surtees Racing Organization preferia um piloto que não desse palpites, daqueles que se apresentam somente na hora de guiar o carro, justamente o oposto do que Schenken pretendia. O choque foi inevitável. Apesar dos altos (poucos), e baixos (muitos) na F1, o ano de 1972 não foi de todo ruim para o australiano. Na F2, já pilotando para Ron Dennis, venceu em Hockenheim. Venceu ainda na categoria de esporte protótipos, com Ferrari em Buenos Aires, e também em Nurburgring, dividindo o volante com Ronnie Peterson nas duas oportunidades.

Tim tinha uma enorme admiração por Ronnie que, segundo ele, conhecia somente duas velocidades: Dando tudo o que o carro permitia, ou parado. Não havia meio termo. Uma noite em Daytona, após o jantar, estavam os dois voltando para o hotel, quando Peterson que estava ao volante do carro alugado, sugeriu: “Tim, que tal a gente levar o carro para experimentar a famosa praia de areia dura?” Com a concordancia do amigo, Ronnie deixou o asfalto da estrada a uns 150 quilometros por hora, e derrapou de lado por toda a largura da praia, até bem próximo do mar. Tudo teria terminado aí, não fosse a presença de um carro da polícia, naquela área de 40 km/h de velocidade máxima permitida, e que a tudo assistiu. Devidamente escoltados, foram para a delegacia onde os colocaram numa cela cheia de bêbados. Após horas de tentativas, conseguiram finalmente persuadir aos policiais em deixar Ronnie ir até o hotel buscar suas identidades. Puto da vida, o suéco sai cantando pneu, no meio de uma nuvem de borracha queimada. Os policiais que não se impressionaram a mínima com aquela demonstração de mau humor, montaram rapidamente uma barreira mais adiante, o interceptaram, e o jogaram de volta na cela! No dia seguinte conseguiram que o Peter Schetty, diretor esportivo da Ferrari, pagasse as fianças e os libertasse. A recepção aos dois nos boxes, foi gélida...
Nos anos seguintes, pilotou um Williams uma única vez , um Trojan, fez somente uma prova com o Lotus 76 em Watkins Glen em 1974, e estava terminada sua carreira em monopostos.

Foi então para a Broadspeed correr com os bonitos Jaguar coupé, no Campeonato Europeu de Turismo.

Em 1977 fundou a Tiga Racing Cars com Howden Ganley, um piloto neozelandês que havia ido parar na Europa, acompanhando Bruce McLaren como mecânico. Ganley teve algum sucesso na F 5000, e chegou na F1 onde teve uma passagen rápida, de quatro anos, defendendo as cores da BRM, Iso Marlboro, e March. Sua melhor classificação foram dois quartos lugares no primeiro ano.
Schenken acredita que tudo o que Mike Coughlan aprendeu sobre o desenho básico de carros de corrida, ele o fez com Howden, pois quando chegou na Tiga, era somente mais um desenhista, sem nenhum talento especial. Muito ao contrário de Adrian Reynard que assim que deixou a faculdade, foi contratado como projetista, e chegou cheio de idéias revolucionárias. Reynard ajudou à Tiga a desenhar um carro esporte de competição de 2.000 cc., e o resto da sua vida, é história famosa de sucesso na construção de chassis para competição...A Tiga chegou a produzir 400 carros durante sua existencia. Tim Schenken, a quem raramente é dado o reconhecimento que merece como mecânico, projetista, engenheiro, e construtor, é hoje membro da Confederação Australiana de Esporte a Motor, Diretor do Grande Prêmio da Australia, e Diretor Esportivo da “Australian V8”.

Além disso, preside, tendo ao seu lado Dereck Bell, Howden Ganley e Jochen Mass, o “Club des Anciens Pilotes” - para antigos pilotos. Ele mesmo declarou:
“Me disseram que só existem umas 300 pessoas no mundo que chegaram a pilotar um carro de F1. É por isso que o nosso clube é importante, e deve estar sendo sempre renovado, para que os pilotos não desapareçam como velhinhos esquecidos. Acredito que haja algo de especial nesses homens e mulheres que chegaram a atingir tal nível. E depois, existem ainda os especiais, como Fangio, Moss, Clark, Stewart, Senna, e agora, Lewis Hamilton que possuem um divino talento natural para a coisa. Todos eles devem ser lembrados”
O alemão Jochen Mass, seu colega na CAP, participou, entre os anos de 1973 e 1982, de 114 grandes prêmios de F1, tendo vencido uma única vez. Essa vitória aconteceu no GP da Espanha de 1975, pilotando um McLaren M23, e em circunstâncias terríveis. Rolf Stommelen perdeu o controle do carro que bateu numa barreira de proteção em alta velocidade, explodindo em chamas com o impacto. Os destroços fumegantes foram catapultados sobre os espectadores. Quatro morreram, e doze ficaram feridos. Stommelen sofreu múltiplas fraturas, e foi internado em estado crítico.

Diversos pilotos reclamaram, antes da prova, da falta de segunça da pista. Previdente, Emerson deu duas voltas lentas nos treinos, não se classificando para a corrida. Naquela altura, o campeonato mundial de F1, após três corridas, tinha como líder Emerson Fittipaldi, e José Carlos Pace em segundo lugar.
Imediatamente a prova de Montjuich, a última da F1 neste circuito, foi encerrada, e Mass que ocupava a segunda posição, declarado vencedor. Nesta corrida, Lella Lombardi tornou-se a primeira mulher a pontuar na F1.
Rolf-Johann Stommelen sobreviveu e voltou a correr.

O terrível acidente da Espanha foi causado pela quebra da asa traseira do seu Embassy-Hill-Lola. Em 1983, em Riverside, quando mais uma vez, a asa traseira do seu Porsche 935 também quebrou, Rolf não teve tanta “sorte”, como na Espanha, vindo a falecer.
Além da McLaren, Jochen Richard Mass correu pela Surtees, ATS, Arrows e March. Jamais obteve uma pole position.
“Puxa vida”, - poderão dizer alguns, - “Será que eu devo também me recordar desse camarada que venceu só uma vez, e nunca mais fez coisa nenhuma?” Acho que sim.

Obviamente, não pelos resultados que obteve, mas por um fato muito mais doloroso. No dia 8 de maio de 1982, faltando somente dez minutos para o término dos treinos de classificação para o GP da Bélgica, em Zolder, Mass observa pelo espelhinho, um carro que se aproxima veloz para ultrapassá-lo. Estão bem no meio de uma curva de alta para a esquerda. Com um ligeiro movimento do volante, faz seu carro chegar para a direita, a fim de deixar a parte interna da curva livre. Infelizmente Gilles Villeneuve já estava irremediavelmente comprometido para uma ultrapassagem pela direita, por fora. As rodas dos dois carros se tocam, e o Ferrari de Villeneuve é lançado nos ares. Bate violentamente na barreira de proteção, atirando o piloto canadense contra as telas de contenção.

Erro de Mass? Erro de Gilles? Acidente de corrida? O fato é que o mundo do automobilismo perdeu naquele dia um piloto superdotado.
Jochen foi Campeão Europeu de Turismo em 1972, e em 1989 venceu a 24 Horas de Le Mans com um Sauber Mercedes-Benz.
Hugo Borghi Filho
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Comentários:
A existência de 'coadjuvantes' desse porte garantiu que a F1 fosse bem interessante, ao tempo deles.
abs
É sempre bom lembrar os tempos mais "românticos" que, a bem da verdade não tinham nada de românticos posto que, o 'pau' rolava solto nas pistas. No entanto, o respeito e uma certa cortesia imperava entre todos, até mesmo entre os maiores egocêntricos do 'circo'.
Hoje é só business.
Dos 25 que largavam, 90% fizeram por merecer o privilégio e dentre esses as 'feras' das feras.
Com a caneta inspiradora do Hugo, e a sua bendita mania de relembrar tempos áureos, só podemos agradecer, e lembrar os que não foram mas poderiam ter sido.
Salut!
Continue nos brindando com esses banhos de cultura automobilistica.
Abraços
Acredito que todos que conhecem alguma história de qualquer piloto que seja, tenha sido ele estreante em corrida de Fusca, ou um dos poucos eleitos da F1, tem obrigação de preservar sua memória. Afinal, em algum momento de suas vidas, nos proporcionaram infinitas alegrias e entretenimento neste esporte que tanto amamos. Daí, quando me deparei com esses maravilhosos depoimentos de feitos antigos postados neste blog, e em outros similares, me veio a idéia de revelar algumas passagens menos conhecidas de alguns pilotos que foram "ficando pelo caminho" da fama, mas nem por isso, menos dignos de menção.
E que tempos ricos que foram aqueles! Tão diferentes desses de hoje, onde maracutaias e escândalos, surgem a cada momento... Havia uma certa nobreza na coisa toda. Um respeito e uma elegãncia pelo esporte, na acepção da palavra, que foram, infelizmente, desaparecendo com o tempo, na medida em que os valores envolvidos, e a ganância, foram aumentando, tornando na verdade bem pobres, os tempos atuais.
Grande abraço,
Hugo
Caríssimo Aylton! Obrigado.
Espero poder revelar mais algumas passagens menos conhecidas e curiosas desse nosso querido automobilismo.
Vamos lá ver o que mais tem no baú de guardados...
Abração,
Hugo
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