LE MANS #8
Quarta, Jun 10, 2009
LE MANS #8
Carroll Shelby, recorda a vitória em Le Mans, com Aston Martin, em 1959

Cartaz oficial das 24 Horas de Le Mans 1959, ilustrando o procedimento de largada que ficou famoso...
Há cinquenta anos atrás, Carroll Shelby, lendário piloto americano, formou como o inglês Roy Salvadori a dupla vencedora das 24 Horas de Le Mans desse ano ao volante do Aston Martin DBR1. Nas suas palavras, Shelby recorda essa histórica experiência que ele próprio define como o ponto alto da sua carreira desportiva.
“Foi uma experiência espantosa a que tive com a Aston Martin, marca pela qual sempre tive um especial afeto. Em particular, guardo imensas memórias de 1959, e todas elas bem diferentes. Gastámos litros e litros de óleo, por exemplo. No final da corrida, David Brown (o então dono da equipa) entrou no carro para volta de consagração. O quanto aquilo significava para ele; julgo aliás que ganhar em Le Mans era o que ele mais queria da vida. Quando ele percebeu que iríamos ganhar, se aprumou todo a carácter. Mas mal entrou no carro, sentou-se na poça de óleo! Fiquei destroçado, vendo-o tão bem aprumado e já todo sujo de óleo! Mas julgo que, dadas as circunstâncias, ele não se tenha importado muito…
Naquela época, o nosso orçamento era de 150.000 libras para a temporada completa.

O larga da prova, sendo visível o Aston Martin #5, em 6º lugar...
Muita coisa mudou desde então. Julgo que hoje dificilmente reconheceria a pista. Hoje, Le Mans é mais uma corrida de sprint que dura 24 horas. Naquela época era tudo muito diferente; era tudo um conjunto de compromissos. Não havia limitadores automáticos de rotações - apenas os nosso pés - e o câmbio não era resistente0. Era mesmo de resistência que se tratava. Qualquer erro podia custar o motor.
É impossível comparar 1959 com 2009. Eu costumo dividir a história das corridas em eras, e não se pode dizer que uma era foi mais fácil ou difícil que a seguinte ou a anterior. É como comparar maçãs com laranjas. Mas a vontade de vencer, essa, tenho a certeza que não mudou assim tanto!

O Aston Martin DBR1/2 #5 vencedor das 24 Horas de Le Mans 1959...
Fisicamente, essa corrida de 1959 foi para mim muito difícil, uma vez que tive problemas de disenteria durante toda a prova - devo ter comido algo que me fez mal! Esse foi um dos meus maiores problemas, mas em Le Mans consegue-se passar por cima de qualquer desconforto e esquecer tudo o resto. É assim porque quando se tem uma hipótese de vencer em Le Mans essa é a hipótese de uma vida. Mas olhando agora para trás, deve ter sido bem perigoso pois não comi nada durante essas 24 Horas a não ser tabletes para a disenteria. E quando ganhamos a corrida - meu Deus - enfiaram-me tão repente uma garrafa de champanhe pela goela abaixo que fiquei logo zonzo! Estava tão cansado que mal me conseguia manter de pé ou pensar. Lembro-me de me ter ido abaixo logo a seguir e ter dormido durante 12 horas.
Os tempos mudaram mas de certeza adoraria conduzir um moderno LMP1. Os pilotos de corridas adaptam-se a qualquer máquina e vão aprendendo à medida que vão praticando. Foi sempre assim e sempre assim será. Para a corrida de 1959 não treinamos muito, porque não precisávamos. Já conhecíamos o circuito e, além disso, tínhamos 24 horas para responder a quaisquer questões que fossem surgindo. A prioridade era ir andando e não cometer erros. Acreditem, havia muito por onde as coisas nos pudessem correr muito mal. Ou alguém fazê-las correr mal por nós.
Nessa época, chovia provavelmente todos os anos, durante a corrida. Depois havia o nevoeiro, durante a noite, e os carros mais lentos, rodando a cerca de 130 km/h, que deviam seguir pela direita da pista - essa era a regra - enquanto nós seguíamos pela esquerda, entre os 250 e os 260 km/h. Só nos restava esperar que tudo corresse bem. E em 1959 correu mesmo.
O que não mudou, certamente, entre essa época e os dias de hoje, é o fato de Le Mans continuar a ser tão diferente de qualquer outra corrida em qualquer sítio do mundo. As 24 Horas são lendárias porque apresentam sempre um conjunto de problemas novos e diferentes comparativamente com quaisquer outras corridas. Estou convencido que ainda hoje é assim.
A minha mensagem pessoal para os pilotos da Aston Martin, antes de iniciarem a corrida do próximo fim-de-semana, é muito simples: transportem a bandeira. Roy Salvadori e eu estamos ambos orgulhosos de vocês. Oxalá esta maravilhosa equipe perdure por mais 50 anos e boa sorte para todos.”

O Aston Martin DBR1/2 vencedor das 24 Horas de Le Mans 1959, embora ostentando na imagem um número diferente.
IMAGEM: Aston Martin Racing

Cockpit do Aston Martin DBR1/2.
IMAGEM: Wouter Melissen/Ultimatecarpage.com

Motor do Aston Martin DBR1/2.
IMAGEM: Wouter Melissen/Ultimatecarpage.com
A Aston Martin agradece a Carroll Shelby a sua simpática participação nesta entrevista.
Press release da Aston Martin Racing
Vítor Ribeiro,
Junho 2009/www.lemansportugal.com
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Comentários:
Mas quando eram abertos e lindos como estes das fotos deveria ser muito mais atraente.
De qualquer forma é Le Mans, e isto não tem preço e nem data de validade. A pista é a mesma e a velocidade só aumentou.
Só falta uma ao vivo do Restaurant des Hunaudières, onde Bird, Greco, Luizinho, Wilsinho sentaram décadas atrás.......
E o relato do Carroll Shelby é sensacional ,valeu Saloma!
Eu, fã de carros ingleses que sou, adoro ver essa maravilha de Aston Martin contra Lister-Jaguar e Tojeiro-Jaguar. Um dia vou ter um Jaguar, mas por enquanto meu MG B Roadster me encanta, não só pelo carro em si, mas pelo que fez na edição de 1965 das 24 Horas de Le Mans, fazendo voltas a 100 mph de média.
Vicente
PS: os motores Jaguar DOHC são lindíssimos
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