"UMAS & OUTRAS" #18...
Segunda, Jun 23, 2008
"UMAS & OUTRAS" #18...
Protótipos nacionais(cont.)
Joaquim Lopes Filho
Os anos de transição
Dando continuidade à nossa série, verificamos que o período de 1968 a 1970 foi uma época pródiga no aparecimento de protótipos nacionais.
Alguns fatores, objetivos ou subjetivos, colaboraram para tal: primeiramente, o momento econômico altamente favorável, pois o Brasil emergia da violenta recessão econômica que caracterizou o primeiro governo militar. Era o momento, do “milagre brasileiro”, do “Brasil Grande”, do ufanismo e crescimento sem precedentes que apresentaria sua conta na primeira crise do petróleo, em 1973.
Em segundo lugar, a retirada das fábricas das pistas deixou espaço vago para as equipes privadas e pilotos independentes, ao mesmo tempo em que há um grande desenvolvimento do motor VW com kits americanos e alemães, tornando-se logo a mecânica de eleição dos pilotos e equipes particulares.
Outro fator é a rápida assimilação dos mecânicos e construtores brasileiros das técnicas de construção de chassis tubulares, facilitada ainda pela maior acessibilidade do trabalho com fibra de vidro e tubos de aço cromo molibdênio em substituição a materiais tradicionais como a chapa de aço, alumínio ou tubos de ferro.
A primeira tentativa séria de construir protótipos em pequena série vem da iniciativa de Anísio Campos que, com apoio da Puma Veículos e Motores, produz em 1969 cinco chassis de seu famoso AC-VW, estabelecendo a receita para os que viriam em seguida: chassi tubular, eixo rígido VW na dianteira, motor entre eixos, caixa 3 da Puma e suspensão traseira de semi-eixos independentes, oriundas dos Fórmula Vê, tudo encapsulado numa bela carroceria spyder, inspirada nos potentes Grupo 7 Can AM. Embora de conceito multi-uso – podia usar motor refrigerado a ar ou a água, espaço para radiadores de óleo e água, etc, vários tipos de caixa de câmbio- o AC teve somente duas motorizações, a tradicional VW e uma versão com motor Porsche 904 2 litros.

AC-VW, o primeiro protótipo em série brasileiro
Apesar da expectativa criada e de alguns desempenhos exemplares, os AC só registraram uma vitória na geral, nas 100 Milhas da Independência de Belo Horizonte, em 1972, com o piloto Clóvis da Gama Ferreira.
Estiveram nas pistas até 1973 quando foram superados por protótipos muito mais modernos como Heve, Manta e Polar. Atualmente, somente dois chassis sobreviveram ao tempo, um deles em restauração no Paraná e outro em São Paulo.
Outro protótipo que viria a se tornar famoso foi o Snob´s Corvair, primeiro projeto do hoje celebrado engenheiro Ricardo Divila e Ary Leber para o piloto Eduardo Celidônio, obedecendo à receita do AC: chassi tubular, motor GM-Corvair a ar entre eixos, e carroceria em alumínio moldada a mão pelo artesão Francisco Picciuto (o mesmo do Fitti-Porsche).


Snob´s Corvair (em primeiro plano no grid acima), primeiro projeto de Ricardo Divila e Ary Leber
O carro esteve presente nas pistas de 1969 a 1971, sempre disputando as primeiras colocações em sua classe, até sofrer um sério acidente em Interlagos, desaparecendo desde então. Não se sabe o paradeiro do carro.
De Brasília, vêm dois belos carros. O primeiro é o protótipo OK, depois AMOK, muitas vezes erroneamente chamado de Camber II, do ex-senador cassado Luis Estevão. Projeto de Eduardo nardelli e construção de Karl Von Negri.

Amok-VW, ex-protótipo OK, erroneamente chamado de Camber II
O protótipo OK emulava uma Ferrari P-3, mas com a tradicional mecânica VW. Na sua versão AMOK foi o primeiro protótipo nacional com motor VW a apresentar injeção indireta de combustível. Correu até 1971, quando foi superado por carros mais modernos da Divisão Quatro.
Também do Distrito Federal veio o belo Elgar GT-104, construído pelo piloto brasiliense Ênio Lourenço Garcia único de conceito um pouco diferente, pois utilizava carroceria em fibra de vidro do tipo berlineta.

Elgar GT-104, outro belo exemplar do DF
Duas unidades foram produzidas e correram as temporadas de 1969 e 1970, sendo que uma delas acabou em incêndio e a outra teve sua capota cortada, tendo disputado algumas provas do campeonato brasiliense de 1971, tendo este rumo ignorado.
A partir de 1968, o Rio de Janeiro passa a sediar as principais provas do campeonato brasileiro em virtude do fechamento de Interlagos para reformas, o que duraria até o início de 1970. Mas poucas contribuições vieram do Rio em termos de protótipo nesta época, tendo os cariocas se fixado mais nos carros de turismo e GT.
Além da Lola T-70 MK3 dos irmãos De Paoli e o Ford GT-40 de Sidney Cardoso – sport-protótipos importados – o Rio contribuiu com um revisitado Patinho Feio-VW da Speed Motors que serviu a José Morais e Mauricio Chulam e o já abordado Geraldes Special, chassi tubular, motor traseiro DKW e caixa de câmbio VW.

Protótipo Patinho Feio II, Speed Motors
Um curioso protótipo carioca foi o Jamaro, equipado com dois motores VW 1300 cc acoplados, antecedendo inclusive ao conhecido Fitti-Fusca Bimotor. Criação de Jair e Jairo Amaro, irmãos construtores do Jajá-Vê, o carro somente andou em alguns testes, não sendo usado em competições oficiais. Não se conhece fotos do carro, nem se sabe de seu destino.
O Rio de Janeiro, a partir de 1970, se tornaria o maior centro de produção de protótipos no Brasil, inicialmente com o belo Casari A-1 posteriormente com a criação da Heve Veículos e da Polar, que abasteceriam os futuros grids da Classe A da Divisão Quatro nos anos seguintes.

Casari A-1, e o início do patrocínio comercial
O Rio Grande do Sul, notável pelas suas carreteras e carros de turismo modificados, também não se notabilizou nesta época pela produção de protótipos, exceção feita a um bimotor-DKW e ao Aragano de Dino de Leone de poucas participações em corridas.
Já no Nordeste, com a inauguração do Autódromo Virgilio Távora, em Fortaleza, o automobilismo regional tomou grande impulso e não tardou para aparecer os primeiros protótipos “made in Ceará”, com destaque para o Onça de Arialdo Pinho, o protótipo de César Figueiredo com motor de avião Franklin ou o baiano Bauer-Cravo, todos com um estilo invulgar.

Protótipos nordestinos Bauer-Cravo e Onça III
Vindo de Goiás, há o estranhíssimo protótipo de Neuder Mota que utilizava a plataforma de um Malzoni, motor e câmbio VW colocado na dianteira e tração idem.

Chassi de Malzoni, motor VW e tração dianteira
De estranha aparência era também o protótipo Lazzat do piloto goiano Jefferson Cardoso, sem contar com o folclórico MH-DKW de Marcos Jardim e sua carroceria de gesso.

Retrato dos anos 60: protótipo Lazzat à frente do MH-DKW
Em Juiz de Fora, Oswaldo Amorim construiu um protótipo VW que participou de algumas corridas em BH, Brasília e Rio de Janeiro.

De Juiz de Fora, Oswaldo Amorim e seu protótipo VW
Ainda em 1969, assinala-se a construção em São Paulo do estranho protótipo Amato, com plataforma VW, carroceria tipo berlineta com portas asas de gaivota e dois enormes faróis na dianteira. Encomendado pelos pilotos Luis Evandro Águia e Stanley Ostrower, o carro era tão ruim de dirigibilidade devido ao seu curto entre eixos de 2,10 metros (olha a “maldição dos 2,10 metros” aí, gente!) que nunca foi usado em corridas.

Amato-VW, mais uma vítima da “maldição dos 2,10 metros...”
Águia e Ostrower estreariam um novo protótipo, desta vez o Kinko, chassi tubular, mecânica VW e carroceria spyder que conseguiu resultados muito positivos nas pistas em 70 e 71.
A temporada internacional de F-Ford, realizada no início de 1970 em Interlagos, deixou como saldo algumas lições e uns poucos chassis aqui no Brasil. Dois deles foram aproveitados como base para protótipos nacionais: o Amato-Ford, de Salvatore Amato, construído sobre um chassi de um F-Ford Macon alargado e o belíssimo Repe 227, feito pelo petropolitano Renato Peixoto, sobre chassi Merlin e mecânica Ford.

O belo Repe 227 e sua carroceria de alumínio
Em 1970, o automobilismo brasileiro começava a mudar de figura em virtude do sucesso de nossos pilotos no exterior e a realização das temporadas internacionais de F-Ford e Copa Brasil.
Era tempo de enterrar o automobilismo amador e desorganizado que havia dominado os anos 60. Havia chegado a hora da profissionalização do esporte e o fim da improvisação e do romantismo.
Mas aí, é assunto pra próxima coluna.

Joaquim, Joca, ou "Anexo J" do Boteco do Saloma
Ex-comissário desportivo da FIA, foi fundador, presidente e diretor técnico de kart clube, rali, arrancada e dirigente de federação de automobilismo.
Titular da coluna “Umas&Outras”, escreve regularmente neste espaço às segundas feiras.
(reprodução)
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Comentários:
Sensacional, absolutamente imperdível. Assim como outros blogueiros, esta já está devidamente salva e impressa, um documento para a história do automobilismo brasileiro.
Este protótipo amork do Luiz Estevão não usava motor opala ou é outro carro, pois vi corridas dele aqui naquele antigo circuito de rua do Hotel Nacional todo vermelho e com o número 3 ou 4 ou estou enganado?
Agora, só a foto do Elgar do Ênio, para mim, já valeu pela matéria, pois tenho ótimas recordações dele nas corridas daquela época.
Você tem razão, eles deram uma organização no automobilismo brasileiro quando criaram as respectivas Divisões, quando separaram protótipos, turismo, formulas etc.
Abraço,
Jovino
Sua coluna de hoje serviu para matar a saudade dos
bons tempos dos curiosos protótipos nacionais.
Ainda bem que para compensar a falta de linhas har-
moniosas na aerodinamica haviam os Casari A-1,
Repe 227, ACs etc. Muito boa a lembrança do piloto
de Anápolis. Um grande abraço.
Sua coluna de hoje serviu para matar a saudade dos
bons tempos dos curiosos protótipos nacionais.
Ainda bem que para compensar a falta de linhas har-
moniosas na aerodinamica haviam os Casari A-1,
Repe 227, ACs etc. Muito boa a lembrança do piloto
de Anápolis. Um grande abraço.
Desenterrou inúmeros modelos. Parabéns. Me contou o Alex que o "Camber II", considerado por muitos a continuação do Patinho Feio, jamais conseguiu bons resultados porque a vibração do carro era tanta que a injeçã de combustível nunca funcionou direito. Em sua próxima coluna não se esqueça de falar dos Manta curitibanos, protótipos imortalizados nas mãos do saudoso Moura Brita e que tinha como peculiaridade a carroceria de alumínio a virtual ausência de curvas ou dobras em três eixos. Seu construtor (cujo nome você certamente recordará
Abs e boa semana
Desenterrou inúmeros modelos. Parabéns. Me contou o Alex que o "Camber II", considerado por muitos a continuação do Patinho Feio, jamais conseguiu bons resultados porque a vibração do carro era tanta que a injeçã de combustível nunca funcionou direito. Em sua próxima coluna não se esqueça de falar dos Manta curitibanos, protótipos imortalizados nas mãos do saudoso Moura Brita e que tinha como peculiaridade a carroceria de alumínio a virtual ausência de curvas ou dobras em três eixos. Seu construtor (cujo nome você certamente recordará
Abs e boa semana
interior era pequeno para o brother aqui.
E a foto do AC impressiona com o aerofólio altíssimo, tb tenho foto...achando posto mais tarde.
LS
Nunca vi vários destes protótipos....
Parabéns Joca e Saloma por mais uma maravilhosa descoberta....
P.S-Saloma,posta aquela foto do Elgar que eu tirei lá em DF...
O AC-Porsche era aquele do Wilson (desconfio que com o motor do Fittiporsche), ou houve outro? E aquele protótipo que os fittipaldis iriam fazer com motor Alfa? Parece que foi vendido antes de estreiar e acabou com outro motor...
Ó Saloma , precisa colocar mais fotos !
Jovino,
Vi a estréia do Protótipo OK nas 200 Milhas de Brasilia (novembro de 1969) e ele era branco e verde.Esta pintura vermelha só me recordo quando já era chamado de Amok, mas vc tem razão ele corria com o número 4.O Luis Estêvão andou correndo também com um Royale com motor Opala juntamente com o Evandro Faleiro, será que não há uma pequena confusão aí?
Beegola,
O nome do construtor dos Manta era o carioca Márcio Leitão, radicado em Curitiba. Na próxima coluna vamos falar de Fúriass, Heves, Mantas, Avallones e Polar, é só aguardar. Boa semana também.
César Costa,
Realmente, tenho a informação que a mecânica do AC-Porsche era a mesma que veio do Fitti-Porsche; na época o carro era uma sociedade entre o Bird Clemente e o Anisio Campos.Já o chassi desconfio que tenha sido o #1, pois aquele que foi do Wilsinho Fittipaldi pertenceu anteriormente a Walter Hahn e Angi Munhoz. Depois foi vendido ao piloto brasiliense já falecido (e ex-senador por Rondônia)Olavo Pires. ESte carro se acabou no pátio de estacionamento do que restou da Retífica Brasilia de Motores no DF, como já comentei aqui antes.
Grande abraço a todos,
As segundas de cada semana são aguardadas ansiosamente.
Abraço.
Jovino
Se você referiu-se ao chassi #01 do AC como sendo o desconfia ter sido o usado pelo Tigrão, creio que não é bem assim. O primeiro AC foi transportado ao Rio numa carreta puxada pela Simca Jangada do Anísio Campos. Ao chegar ao Rio a carreta doltou-se do engate e o belo protótipo ou vateu num poste ou foi parar dentro de um canal. O que sobrou foi parar na oficina do Norman Casari, que dele fez o Casari Ford A1.
Outra coisa. O protótipo Kinko, se não me engano, era na verdade uma re-leitura do protótipo Amato. Esse carro foi reconstruido na oficina dos irmãos japoneses que ficava na rua Santa Justina, em Santo Amaro, São Paulo. Mais detalhes com o Luis Evandro "Águia"...
Será que a goianada só sabe fazer mulher bonita e dupla sertaneja? Não, me recuso a acreditar nisso.
Deve haver algum protótipo esquecido no fundo de alguma garagem na casa do Edmar Ferreira ou da família Fontes, do Alencar Jr. sei lá. Abs.
LS
Estes chassi do AC são um mistério. Este primeiro chassi foi aquele que saiu numa reportagem da Autoesporte? Tempos atrás rolou uma conversa aqui sobre a quantidade de chassis produzidos e chegou-se um consenso de quatro. Entretanto, numa foto no site da Óbvio aparecem cinco chassis e, com certeza, o primeiro testado aqui no Rio não estava entre eles. E aí já são cinco chassis. Sempre desconfiei que o chassi do Casari era de AC, mas ele disse, na época, que apenas usou a frente do AC pra poupar tempo e dinheiro. Oficialmente o chassi seria do Carcará. Só que, convenhamos, passar de um motor três cilindros para um V8, nem com muito reforço estrutural, né?
Definitivamente, este seu bau não tem fundo !
Achei um grande "T" relembrar estas baratas, algumas merecidamente esquecidas.
Como o carro (carro ?) do Amato, uma verdadeira desinteria cerebral...
Mas precisamos revisar algumas das suas teorias sobre suspensão de VW. Vou tentar fazer um resumo e para vc.
E sem copyright, pq hoje estou bonzinho !!!
Hahahahahhh...
Grande abraço !
M
colaboração da galera.
abs
LS
Esclarecido o chassi do Casari A1 você saberia quantos chassis de AC foram feitos? Como disse antes, no site da Óbvio há uma foto em que aparecem cinco chassis nas instalações da Puma e, certamente, o usado nos testes aqui no Rio (que de acordo com o Beegola acabou num acidente), não seria um deles. Seriam seis então?
Valeu Dr!!!
Os automaníacos tarados de plantão agradecem...
Adorei seu blog..principalmente essa parte dos protótipos....rola um papo de um protótipo lá no Rio..que tinha dois motores...um VW atras e um DKW na frente...uma tranqueira para dirigir...dizem com 2 aceleradores...
Sabe se é verdade..ou mais um alenda do automobilismo carioca..
Abraços
O carro com 2 motores, (DKW e VW,Mixto Quente) foi construido no Paraná.
Abraços.
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