ENGENHOCAS DO VICENTE...(3)
Sexta, Mar 07, 2008
ENGENHOCAS DO VICENTE...(3)
Monaco-Trossi, Um Avião Sem Asas
por Vicente Miranda
O mundo das competições é sempre o palco para as viagens mais alucinadas dos projetistas em todos os cantos do planeta. Assim foi com o Bimotor Paranaense, o VW de 2 motores dos irmãos Fittipaldi, os vários Chaparral, o Rover BRM a turbina, etc.
Na Itália dos anos 30, Augusto Mônaco e o piloto Conde Carlo Felice Trossi construíram o Monaco-Trossi, um estranho “engenho” de 4 rodas com motor radial, do tipo muito usado em aeronaves na época. Monaco, que já vinha de experiências anteriores como projetista de carros de corrida de 1 litro de cilindrada, tração dianteira, para subida de montanha, decidiu construir algo maior, tipo GP, junto com o engenheiro-piloto Giulio Aymini.
Eles tiveram o apoio da Fiat que forneceu as instalações de Lingotto para construir e testar o arrojado motor 2 tempos de 16 cilindros, em 2 carreiras de 8 cilindros cada (diâmetro 65 mm, curso 75 mm), 3982 cm3, 2 compressores Zoller que forneciam a modesta pressão de 0,68 atm, carburador Zenith, 250 HP a 6000 rpm. Com a finalidade de reduzir o tamanho do bloco de alumínio, cada carreira de pistões era movida por 1 biela-mãe à qual estavam conectadas as outras 7 bielas. O cilindro “da frente” compartilhava o cabeçote (e a câmara de combustão) com o cilindro “de trás”, uma arquitetura que também foi adotada nos motores 2 tempos de algumas motocicletas de corrida de antes da Segunda Guerra. Refrigeração dinâmica a ar, ou seja, com o veículo em movimento. Após o insucesso dos testes, a Fiat suspendeu o apoio.
Nesse momento Mônaco aproxima-se do Conde Trossi para convencê-lo a ser sócio no projeto e obtém deste a oferta de construir o carro nas oficinas de Gaglianico, na verdade seu castelo residencial, provido inclusive de ponte rolante elétrica. Outro nobre italiano, amigo de Trossi, o Conde Revelli, participou da empreitada projetando a carroceria, que mais parecia um avião sem asas.

Além das características técnicas já citadas, o carro possuía uma transmissão, na qual um eixo atravessava a caixa de câmbio, chegava à embreagem, e daí de volta à caixa, como em algumas Ferraris de rua atuais e tração dianteira. Em suma, a embreagem não ficava entre o motor e a caixa, e sim, atrás desta, o que facilitava sobremaneira a manutenção, sem a necessidade de afastar o motor da caixa para substituição de um disco, platô ou colar, por exemplo. Um detalhe muito curioso era o fato de seus amortecedores serem reguláveis de dentro do cockpit. Chassi: tubular tipo “space frame”, suspensões independentes e freios hidráulicos nas quatro rodas.

O carro foi apresentado ao público em1935 para testes em Monza em 1935. Aymini e Trossi pilotaram o carro mas o comportamento sob-esterçante (75% de peso na dianteira) que faziam o carro ser muito perigoso, além dos problemas de refrigeração e de ignição, fizeram com que o mesmo nunca participasse de uma competição, mesmo tendo sido inscrito para o GP da Itália de 1935.

A viúva de Trossi, Condessa Lisetta, doou o carro ao Museu do Automóvel de Turim, onde é preservado, sendo exposto eventualmente em eventos como o Goodwood Festival of Speed de 2003, onde as fotos acima foram tiradas.

Luiz Vicente Miranda, é Engenheiro Mecânico, antigomobilista, dono de dois carros esportivos europeus, um MGB Roadster 1967 e um Porsche 914 1974, entusiasta de esportes a motor, ex-kartista e motociclista por quase três décadas, sempre com máquinas inglesas, como Triumph, HRD-Vincent, Norton e BSA.
(reprodução)
Categorias: Blogosfera, Carros, Esportes, Colunas, Automobilísmo histórico
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Comentários:
este carro é de um tempo onde nada se copiava, tudo se criava.....
Com a palavra, o Vicente...
Parabens Vicente ,mais uma grande sacada!!
O interessante é constatar que motores multicilindros a muito tempo foi utilizado na aviação,porem no automobilismo ,esta escolha sempre foi acompanhada de inumeros problemas.
Jonny'O
Obrigado pelas palavras. Seja bem vinda ao blog, na verdade um botequim virtual, onde se bate papo sobre antigomobilismo, de vez em quando regadas a chopp e pizza (infelizmente só para os paulistas).
Thiago,
Esse motor, se colocado em posição central, teria muitos problemas de refrigeração, ainda mais sendo radial, caso não utilizasse uma ventoinha. Leve em consideração que muitas vezes os projetistas ficam presos a paradigmas, e o de Monaco, no caso, era a tração dianteira, que não deixa outra opção, senão a de se usar colocar o motor na dianteira.
Joaquim,
Não tenho palavras para agradecer suas palavras elogiosas sobre meu artigo. Prefiro agradecer pessoalmente. Como vou ao Encontro de Autos Antigos de Águas de Lindóia, combine com Saloma para batermos um papo lá.
Jonny'O,
Obrigado pelas palavras. Estava preparando outra matéria, decidi parar e coletar algumas coisas sobre o Monaco-Trossi. Acho que valeu à pena.
LS
Aqui se aprende muito, nunca ouvi falar deste carro.
Bela matéria, parabéns!
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