01.11.07

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Não nasci para guia turístico

O fato é que não nasci para guia turístico. Sou tímido, perco-me com facilidade nas ruas de São Paulo e nunca fui ao Mosteiro de São Bento. Nem gosto do Museu do Ipiranga. Para piorar as coisas, faz uns sete anos que não pratico meu inglês. Mas, veja como são as coisas, fui convocado pelo patrão a ciceronear um casal de australianos em visita à cidade, durante a última sexta-feira. Meu inglês é o melhor e único da firma, o que é quase inacreditável numa empresa de 60 empregados.

Assim que soube da missão, apresentei as evidências de minha inadequação:

- Sou tímido.
- Não tem problema, eles falam pelos cotovelos, deixe que eles falam por você.

- Fico perdido no trânsito e minha carteira de motorista está vencida há uns dois anos.
- A gente vai colocar um motorista para você não ter que se preocupar com isso.

- Não conheço nada da cidade.
- Eu também não. Leve eles para o Parque do Ibirapuera, para rodar na Paulista e para um shopping center, que mulher adora fazer compra. Depois leva para almoçar em algum restaurante bacana, que eu sei que de restaurante você entende. À noite, leva no Terraço Itália, todo mundo adora o Terraço Itália.

- Mas, patrão, meu inglês está péssimo, faz sete anos que não pratico.
- Os gringos vão dormir na minha casa antes de ir para o hotel, e o meu inglês não chega aos pés do seu. Quer ver? “You around kangaroo”, ou seja, “Você tem que levar os australianos para passear”. O cara se chama McDonald. Só não leva eles no Bob’s.

Parece invenção, mas é verdade.

Combinamos de nos encontrar no lobby do hotel, às 10h, e de lá iríamos para o Ibirapuera. Acordei às 8h, olhei pela janela, tudo cinza. Caía uma leve garoa. O Ibirapuera estava fora de cogitação.

- E agora? O que você vai fazer com eles?
- Não sei, Ju. Acho que vou levá-los para conhecer a Paulista. Quem sabe eles topam entrar no Masp? Assim dá para gastar um tempão lá dentro.
- Boa...

Chego ao hotel 20 minutos atrasado por causa do trânsito. Pegamos hora do rush o dia inteiro. McDonald diz que está acostumado. Que em Sidney a coisa é parecida. Eu fico com a certeza de que ele só está sendo gentil, e exponho minhas idéias para o dia (em meu inglês que já viu tempos melhores).

- Está chovendo, não vai dar para ir ao Ibirapuera. Podemos conhecer nossa mais importante avenida, o coração de São Paulo, e, por lá, ver uma série de coisas: o Masp, o comércio local, o Trianon, os cinemas da Augusta, os resultados da Lei Cidade Limpa.
- Só não queremos ver museu e igreja, nem shopping – diz Sandra, a esposa, com um sorriso.

Meu plano de arrastar três horas dentro de um museu até a hora do almoço não seria posto em prática. O que fazer, então, até a hora do almoço? O fato é que não nasci para guia turístico.
Converso com o motorista em português, já que ele não falava nada em inglês, o que acabou sendo conveniente.

- O senhor já fez passeio turístico alguma vez? Tem umas sugestões para dar?
- Nunca fiz. Mas por que o senhor não leva o casal para a Marginal? Tem bem a cara de São Paulo.
- Acho que não. Tem outra dica?
- Eu sou de Osasco, não conheço direito São Paulo.
- Xiiii...

Liguei para meu irmão, que conhece a cidade bem melhor que eu.

- Pode me ajudar a ciceronear uns australianos? Te pago o almoço.
- Beleza.

Assim, nosso primeiro passeio pela cidade foi do hotel até a casa do meu irmão, na Vila Mariana. No trajeto, me virei como pude.

- Esses túneis são muito representativos da cidade de São Paulo. Este aqui é uma homenagem ao nosso maior piloto, o Ayrton Senna, embora eu preferisse o estilo do Piquet.
- Eu gosto muito do Senna. Vocês têm algum memorial em homenagem a ele, que a gente possa visitar? (McDonald)

Olho para o motorista. Ele acha que não.

- Esta aqui é uma avenida muito importante de São Paulo, a Sena Madureira, reparem como ela tem essas árvores dividindo as duas pistas (...) Este é um hospital muito importante, o Santa Cruz, meu avô morreu aqui (...) Agora estamos passando por cima do rio Ipiranga, onde foi proclamada a nossa independência (...) Este bairro se chama Vila Mariana; muitos bairros importantes de São Paulo têm nomes de vilas: Vila Mariana, Vila Maria, Vila Sônia, Vila Sésamo...

E assim fui tornando importante e histórica cada esquina na direção da casa do meu irmão.

por Alexandre Carvalho dos Santos 5 comentários - Permalink

03.07.07

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Nesta noite de terça (Itaúnas - Porto Seguro)

Itaúnas0003

Nesta noite de terça-feira, quero a brisa gostosa das tardes de Itaúnas, cerveja gelada aos meus pés, quase brancos de areia; cochilar nas redes dos quiosques simpáticos em que contemplei, em minha timidez, pós-adolescentes lindas e ainda deslumbradas com as maravilhas e as porcarias da vida adulta; quero o saboroso pastel de camarão, as fartas delícias dos restaurantes da Teresa e da tia Fina de Costa Dourada, quero aprender a dançar o forró incessante da madrugada; quero caminhar sob o sol ao lado das dunas que ainda se movem perigosas na direção da vila; quero estar na Praia dos Coqueiros, nadar nas águas carinhosas da Praia dos Coqueiros, preciso novamente do cheiro do capim molhado, das canções brasileiras no luau do Jade, das visões de céus estrelados na noite, céus como nunca vi, polvilhados de purpurina prateada, a lua cheia nascendo no mar.

Nesta noite de terça, quero voltar à Passarela do Álcool, em Porto Seguro, tomar caldinho de siri para poder enfrentar os capetas do Galego, Roberto, gente fina, pai de um menininho de seus três anos que, com os olhos verdes da mistura baiana de raças, pedia que eu tirasse sua foto puxando-me pela bermuda. Capetas tomados, a mente se abria e a Passarela, na verdade uma avenida, tornava-se um mundo exótico, mas muito natural para os encapetados, repleto de luzes e danças e sons originais de berimbaus tocados por malandros que logo sacavam a menina que estava comigo, e eu nem aí.

Mas dias e noites passam e se tornam semanas, e mesmo esta noite de terça há de passar, e talvez também se torne nostalgia, ainda que, sozinho num quarto, febril e tossindo, em meio ao barulho das motos e gritaria dos cortiços, eu respire a doença da poluição paulistana e engula os comprimidos e antibióticos de minhas próprias misérias.

19 de agosto de 1997.

* * *

Escrevi há dez anos, numa noite de terça como esta, semanas após minha primeira viagem para Itaúnas/ES, com direito a esticada para Porto Seguro. Não estava no melhor dos espíritos, como se pode notar, mas tive a clareza de concluir que Itaúnas seria, é, inesquecível.

Itaúnas0001

por Alexandre Carvalho dos Santos 5 comentários - Permalink

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