04.03.09
Paul McCartney e a Música Absoluta
Hoje li um texto da Revista Cult sobre Os Beatles, lembrando o quanto os fab four eram crédulos. Um trecho engraçado lembra a vez em que um hippie barbudo bateu à porta de Paul McCartney, dizendo que era Jesus Cristo. Paul imediatamente abriu a porta para o messias, convidou-o a tomar chá e, precisando ir para o estúdio onde gravaria “Fixing a Hole”, perguntou se “Jesus” gostaria de acompanhar as gravações. Claro que ele queria, podia estar doidão, mas não era bobo. Uma vez lá, “Jesus” ficou na dele enquanto John, Paul (nomes de apóstolos), George e Ringo estraçalhavam, e saiu sem chamar a atenção para si. Foi quando os outros perguntaram a Paul quem era o profeta caladão. “Ele disse que era Jesus Cristo, e eu o convidei”. Os outros imediatamente caíram na gargalhada, e Paul entrou na onda, mas deixando no ar um comentário menos irônico do que parecia: “Poderia ser, poderia ser...”.
Depois que li, passei o trecho para meu irmão, Ricardo Carvalho. Não porque ele goste de receber textos engraçados pela Internet (alguém gosta?), mas porque, se pudesse, vivia num submarino amarelo, cantarolando “It’s been a hard day’s night, and I’ve been working like a dog...”: é viciado em Beatles (e música em geral) tanto quanto eu. A diferença é que o Rica levou a coisa a sério. Como se não bastasse liderar uma banda especializada em Beatles e rocks dos anos 50 (da qual fui vocalista por um tempo), Rica estudou regência e composição na faculdade e se tornou regente de conjuntos vocais, além de professor de teoria musical, composição, arranjo e canto.
Seu amor pela música agora também se expressa na internet, num blog recém-lançado, com a finalidade de falar e ouvir sobre tudo aquilo que ele mais gosta. O nome: Música Absoluta.
No post de hoje, comentários bacanas sobre uma enquete da BBC que apontou os melhores maestros de todos os tempos.
O novo blogueiro é bamba em música erudita (de que eu pouco entendo), mas ainda me agradece por ter lhe apresentado os discos dos Beatles, dos Beach Boys e de Frank Sinatra (pensando bem, Sinatra veio desde sempre do meu pai). Tudo isso na primeira parte de uma vida dedicada à música, à camaradagem e ao destino inescapável de ser feliz.
Visite: www.maestrorica.blogspot.com
21.02.09
Entrevistas com Clarah Averbuck e Melanie Dimantas
Do nascimento de Camila
Nome Próprio, de Murilo Salles, parte do universo criado por Clarah Averbuck em seus livros e blogs, reinventado pelas mãos dos roteiristas
Por Alexandre Carvalho dos Santos
A escritora gaúcha Clarah Averbuck gosta de bares de rock, de Mick Jagger & Keith Richards, de Nina Simone, Tom Waits e, em momentos mais doces, do cool jazz de Chet Baker. A música é parte indissociável de seu cotidiano, trilha de seus melhores e piores momentos, a um ponto tal que ela assume a influência de letristas de canções em seus escritos, cada vez mais conhecidos.
Mas o que Clarah Averbuck escreve? Escreve reflexões sobre si e sobre bandas de rock, e sobre noites selvagens, e comportamentos e pensamentos à beira do abismo, em blogs que se tornaram referências de bons textos na Internet, marcados pela ironia da autora e a coragem de expor sua vida e seu ponto de vista num território aberto à interação e ao palpite alheio. Este mesmo universo é explorado por Clarah nos descaminhos dos personagens de seus livros, Máquina de Pinball (Conrad Editora) e Vida de Gato (Editora Planeta), obras que deram à luz a escritora Camila, interpretada por Leandra Leal no filme Nome Próprio, de Murilo Salles.
Mas, para quem se apressa em apontar as coincidências, a autora dos livros enfatiza que a Camila das telas não é Clarah Averbuck. Em primeiro lugar, porque é personagem de ficção, dos livros de Clarah – com um tanto de elementos autobiográficos, o que confunde tudo; depois, e mais importante, porque é personagem reinventada em um roteiro de filme, escrito por Melanie Dimantas, Elena Soarez e Murilo Salles.
“O roteiro tinha total liberdade em relação ao trabalho de Clarah, que não me serviu concretamente de referência dramatúrgica”, aponta a roteirista Melanie Dimantas, uma das mais atuantes no cinema brasileiro, com a bagagem de trabalhos como Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995), Copacabana (2001), O Outro Lado da Rua (2004) e Mulheres do Brasil (2006). “Digo que não me debruçava em seus textos para buscar soluções, mas tinha em mente sobre quem se falava e seu estilo. A Camila nasce em Clarah, expande-se e abarca Murilo, Elena e eu. Tínhamos um foco, coisas que o Murilo queria dizer, e daí injetamos sangue, carne em nosso Golem, que, aliás, para além da nossa pretensão criadora, pode ser a criação de outra pessoa, intrínseca à trama, como aponta o final do filme. O segredo é que Camila é o Murilo”, revela.
Além dos livros, os roteiristas se basearam nos blogs de Clarah Averbuck para a inserção de escritos da protagonista, que também tem um blog confessional e que vai direto ao ponto. Mas, às citações de Clarah, somaram seus próprios “posts”.
“O blog, em si, como linguagem, é eixo dramático no que tange à personagem e sua dimensão, será ela real ou será ela uma ficção mediada pela virtualidade das vidas jogadas neste éter, que é a Internet”, esclarece Melanie. “A partir desta idéia, Murilo pretendeu discutir aquilo que move o artista”.
Inspiração na literatura
Melanie Dimantas assume uma forte influência da literatura em seu trabalho de roteirista, e suas fontes parecem distantes da nova literatura brasileira da qual Clarah Averbuck é figura em evidência ao lado de outros nomes como Daniel Galera (Até O Dia em Que O Cão Morreu, livro adaptado por Beto Brant em Cão Sem Dono) e João Paulo Cuenca (Corpo Presente). “Sempre que vou começar um roteiro, prefiro ler a ver filmes sobre o gênero em minhas pesquisas. Sempre amei Tchekhov e, em cada trabalho, me lembro de uma frase, de uma observação ou mesmo de uma situação que ele sugere e que eu adoraria usar com a mesma precisão. Me parece impossível, mas serve como desafio”.
Também professora de argumento e roteiro, Melanie afirma que os bons roteiros devem ser invisíveis à experiência sensível do espectador de cinema; não podem ser notados fora do conjunto. “Seja comédia ou drama, gosto de ser levada, de comprar uma passagem e embarcar na narrativa. Quando soa um sinal de alerta, é porque ali apareceu a mão de quem escreve, e eu odeio isto. Mas redimo Nome Próprio desta visão mal humorada, porque nele essa aparição é proposital”, reflete.
Sem o sarcasmo da fonte
Diferentemente do que, às vezes, acontece em filmes baseados em obras de autores vivos, não há interferência de Clarah Averbuck no roteiro final de Nome Próprio. De modo que a autora se esforça em destacar a diferença entre o que se vê na tela e o que há em seus livros. E o tom da narrativa é a principal evidência desta diferença de caminhos. “Eu mexi em um tratamento do roteiro, mas nada do que eu fiz ficou”, explica Clarah. “O aspecto que eu teria feito questão de manter seria o senso de humor da personagem dos livros, um certo sarcasmo que foi esquecido no filme. Mentira, não foi esquecido: foi uma escolha do diretor, e o filme é dele, então é isso aí”.
Mas como absorver a separação de uma obra que é sua, cedê-la a outros autores e ver que, adaptada para uma nova linguagem, filtrada por outras formas de interpretar o mundo, ela já não é espelho de sua criação? Depois de um período de receio e ansiedade quanto às intervenções em sua obra, Clarah concluiu que só o desapego a salvaria da loucura. “Eu gosto bastante do filme, mas tento vê-lo como um filme, não uma adaptação da minha obra. Desapeguei mesmo, autor bom é autor morto. A minha obra são os livros; o que for feito sem a minha interferência é problema dos outros”.
Além dos muitos pontos positivos que enxerga na produção – “a atuação da Leandra é brilhante, a fotografia é sensacional” –, Clarah revela o que mais a incomoda: “Eu tenho algumas ressalvas, mas são todas da adaptação. Por exemplo, os textos que aparecem na tela são quase todos adaptações dos meus ou de outras pessoas. Quem vai ao cinema ver a adaptação da obra literária pensa que são da autora – o que seria mais lógico mesmo. Também senti falta da trilha sonora, pois os livros são permeados de referências musicais, quase marcação de trilha. Mas, como já disse, o filme é do Murilo, e eu não tenho controle sobre o que é feito”.
Versátil, Clarah considera com carinho a possibilidade de escrever roteiros para cinema. Já está em negociação para outra adaptação de trabalhos seus e avisa que, desta vez, quer fazer o roteiro. Assim poderá lidar diretamente com o quanto de fidelidade à obra original um roteiro cinematográfico pode, ou deve, ter. Um tipo de controle que sempre seduz um autor, com os riscos inerentes a todo processo de criação e adaptação.
* * *
13.11.07
Barsa, Desciclopédia, Quentin Tarantino e seu irmão brasileiro
Tarantino, o irmão do Samuel Rosa
Era na enciclopédia Barsa que o pequeno Alexandre, estudante ginasial e colegial, do alto de seus tênis Rainha Iate, procurava respostas para as grandes questões de sua até então curta existência, e também conteúdo para os trabalhos da escola. Nesse monumental acervo do conhecimento humano, leu sobre a complicada geografia da Europa Oriental, a velocidade alcançada pelos tigres de bengala e a extensão das conquistas de seu xará, O Grande, pelo mundo antigo de persas e gregos.
Os maiores nomes do expressionismo? A Barsa enfileirava. Um perfil de Olavo Bilac? A Barsa tinha. No que trabalhavam os irmãos Lumière? A Barsa sabia, é claro, a Barsa era pau pra toda obra!, bastava uma folheada rápida em suas dezenas de volumes para se chegar ao kama sutra das borboletas ou ao comprimento dos bigodes dos arcadistas.
Em tempos de Internet, imaginei a Barsa impressa como um grande monumento da obsolescência, mas eis que o site da enciclopédia me jura que não, não é assim, oferecendo a Barsa Universal em 18 volumes mais dez CD-Roms. São mais de 122 mil verbetes, 500 mapas, 300 tabelas e por aí vai. Há ainda uma opção light, a Enciclopédia Temática, “adaptada a estudantes e profissionais de todas as áreas”, composta de nove volumes, mais dois CD-ROMs, e ainda um “guia de profissões”. Responde a questões que não querem calar, como por que os ciclones giram em diferentes sentidos de acordo com o hemisfério em que se encontram.
Recentemente, descobri que na Internet há outra fonte inesgotável de informações, mas imprópria para os trabalhos de geografia e educação moral e cívica de estudantes e profissionais de todas as áreas. É a Desciclopédia, uma irmã do tipo “gêmea má” da Wikipedia, igualmente aberta à colaboração de todos, mas especializada na informação alternativa.
Procurei em seus arquivos um perfil do cineasta Quentin Tarantino, e descobri o quanto eu era ignorante sobre os detalhes realmente valiosos da vida e carreira do diretor de Pulp Fiction. Na Desciclopédia, aprendi que Tarantino é irmão do cantor do Skank, Samuel Rosa, e que sua opção por filmes sanguinolentos vem do berço: ele nasceu em pleno massacre da Noite de São Bartolomeu, com a mãe já decepada.

Samuel Rosa, o irmão
brasileiro de Tarantino
Também descobri que Tarantino se inspirou em filmes pornôs asiáticos para a criação de Kill Bill, o que explica os codinomes de personagens como Boca de Algodão e Garganta de Veludo. O filme conta a história de uma garota que dedica a vida a sangrar “pessoas, animais e japoneses”.
Liberto dos floreios parnasianos em seu linguajar direto e reto, o Descionário, que integra a Desciclopédia, explica que o termo “Cicaralho” tem origem no sânscrito, significando “flor matutina que desabrocha nos recônditos salinos”.
Em Deslivros, outra extensão do portal, obras de auto-ajuda obrigatórias para quem visa ao sucesso profissional e pessoal em todos os níveis: Manual de Conversão ao Judaísmo, Como Correr de Uma Gorda e Faça sua Bomba Atômica.
Se você também quiser ampliar o seu universo de conhecimentos para além dos limites que as enciclopédias formais sempre nos impuseram, acesse, por sua conta e risco: http://desciclo.pedia.ws
23.10.07
A repercussão de "Luciano Huck e a 'Tropa das Elites'"
Há duas semanas, após acompanhar a repercussão gerada por um artigo de Luciano Huck, indignado com um assalto sofrido em São Paulo, e a polêmica em torno do filme Tropa de Elite, de José Padilha, resolvi escrever um texto neste espaço, apontando as hipocrisias do pensamento que impera hoje, e já há muito, como sendo supostamente “do bem”: o da "esquerda liberal" (e vejo um duplo sentido nessa definição), que simpatiza com o criminoso, identificando-o sempre como o oprimido pelas “elites” (esta representação do mal, que pode ser muitas coisas e nenhuma, dependendo da intenção do argumentador).
Um dos primeiros a comentar meu texto foi o desenhista PC, um amigo, que logo me alertou: “Prepare-se para as pedradas, inclusive de amigos”.
Ele sabia o que estava dizendo. Convivemos lado a lado com este pensamento de condescendência com o criminoso e o crime, desde que não seja o de colarinho branco; uma atitude de suposta consciência social tão bem representada pelos estudantes de classe média alta no filme Tropa de Elite. Questionar esta visão de mundo parece questionar a própria ordem das coisas, o mundo como ele é ou deveria ser, os direitos humanos. Colocá-la em questão, em algumas rodas, dá a entender que você pegaria em armas, sorridente, na chacina do Carandiru.
Para minha surpresa, meu texto teve uma repercussão que superou em muito minhas expectativas. Até agora, recebeu mais de 5200 visitantes únicos, e gerou mais de 150 comentários. Também para minha surpresa, as pedradas foram poucas.
Como não tive tempo de responder a todos os comentários, preferi usar este espaço, novamente, para uma resposta geral, e um comentário acerca deles.
A grande maioria identificou, no texto, sensatez maior que a dos comentários de leitores da Folha de S. Paulo (que apresentou o artigo de Huck) e de personalidades como o escritor e rapper Ferréz, que demonstrou estar do lado do assaltante em um artigo dramatizando a vida difícil do criminoso. Foram muitos os parabéns e agradeço a todos. Agradeço também pelos que fizeram os comentários mais críticos, pela gentileza de escrever; um blog é feito para gerar discussão, conversa, encontros e desencontros de opinião. No caso desse post, os encontros superaram os desencontros.
Dando seqüência a esta troca de idéias, devo dizer que repudio, completamente, as insinuações de quem viu, no meu ataque a esta linha de pensamento, uma defesa da direita mais truculenta. Não vejo as coisas em preto e branco. Ser contra quem dá razão ao criminoso e acredita que o crime deve ser visto com uma aceitação maior, ser contra quem acha que a polícia é pior que os bandidos, contra quem acha que o dinheiro pago na maconha da galera vai sustentar alguma ONG na favela, não me torna um eleitor do Maluf nem um simpatizante de tiranias (de direita, enfatizo, pois a de esquerda parece ser bem tolerada, inclusive entre intelectuais dos mais populares).
Aos que criticaram minha menção ao Capão Redondo como bairro violentíssimo, só me ative aos fatos. Trata-se da sexta região em número de assassinatos em São Paulo, e me referi a ele especificamente por ser o bairro de Ferréz, que inclusive escreveu um livro sobre o dia-a-dia no local, Capão Pecado.
Já para os que viram no texto a empatia com um rico que chora a perda de seu rolex, aviso que nem Fusca eu tenho.
Houve comentários extremamente simpáticos e estimulantes, e alguns me chamaram a atenção:
- Muitos lembraram os crimes cometidos por nossos políticos, que se beneficiam de uma impunidade inaceitável.
- Helânio afirmou que cresceu na periferia e viu amigos morrerem por causa do crime, mas nunca pensou em roubar um rolex. A educação dos pais foi decisiva para que se tornasse um cidadão, em vez de um ladrão.
- Fábio, do Grajaú, apontou que a diferença entre a indignação de Huck e a de todos nós é que ele tem um espaço nobre para se manifestar, enquanto nossa voz não é ouvida pelas autoridades. É verdade, Fábio, mas é assim mesmo: só quando Marcelo Fromer, dos Titãs, foi atropelado por um motoboy na contramão é que começaram a discutir a atividade de entrega rápida e as condições em que os motoboys são obrigados a trabalhar (e também o perigo que eles representam para o nosso trânsito).
- Marcelo, um PM, agradeceu pelo texto e disse o que deveria ser o óbvio: na sua atividade, como em qualquer outra, há gente boa e gente ruim.
- Mirian diz que já foi assaltada algumas vezes e que, no minuto seguinte ao assalto, não ficava com pena do assaltante, muito pelo contrário.
Eu também já fui assaltado algumas vezes, já passei pela experiência extrema do seqüestro-relâmpago, e não pensei, em nenhum momento, que o “coitado” que estava com o poder de me deixar viver ou morrer fosse a vítima naquela situação.
Tem quem ache, e repita isso na mesa do bar, na festinha, nas páginas da Folha. Gente "do bem".
* * *
Assim como em todos os outros blogs que integram o Interney Blogs, os comentários passam por uma aprovação prévia antes de serem publicados. Isto evita um eventual processo no caso de um leitor dizer, no meu blog, que determinado político é ladrão, por exemplo, pois eu poderia estar abrindo espaço para uma acusação sem provas e, no mínimo, deveria abrir igual espaço para resposta. Também evita que sejam publicados palavrões ou comentários defendendo o nazismo ou o racismo, ou qualquer outra dessas aberrações do pensamento humano.
Num texto polêmico como este, poderia ficar a impressão de que apago os comentários contrários, para que prevaleçam os que compartilham com os questionamentos manifestados. Uma atitude dessa seria extremamente prejudicial ao blog, que sobrevive da troca de idéias, e não dos tapinhas nas costas. Quem escreve atacando um texto meu volta depois ao blog para conferir a repercussão de seu comentário, ou para compará-lo aos dos outros.
Apaguei apenas as ofensas gratuitas (duas ou três). Publiquei todos os comentários contrários, alguns com ótimas argumentações, outros mais prosaicos, mas válidos.
30.05.07
Leftovers da vida
A melhor companhia para a carne de panela é a televisão, ela diz com a autoridade de quem entende muito de carne, panela e preguiça. No seu blog, inaugurado outro dia, dá receitas para quem gosta de comer e viver, coloca (disponibiliza, não, pelo amor de deus!) vídeos de rock esperto e sacana, Cramps, Betty Page, spanking, fala dos desencontrados das esquinas, dos botecos com jogo eletrônico, de quem perde a hora, erra as medidas, erra o endereço de casa, mas se ergue elegante de um tropeço e de um salto quebrado. As sobras do grande banquete que é seu cotidiano de muita cozinha, sexo e reflexões.
Visite as novidades e velharias de Carolina, a moça do blog, minha leitura suave e risonha de todo dia: Leftovers da Vida
Aperitivos:
É, eu sou burguesinha
Detesto entrar todo dia na mesma santa padaria e pedir sempre a mesma coisa, o cigarrinho fedido de cada dia. Sempre convicta de que vou parar, não me animo a comprar logo mil pacotes e estocar. Tento então variar, o lugar, não o pedido. Hoje foi num boteco medonho, escuro, cheio de caça níqueis, às 8h da matina. Lá no fundo, um cidadão dava mostras de intimidade com o local, clamando aos quatro ventos sua opinião sobre um assunto qualquer. Trajava roupão e chinelos. Roupão. No boteco. Fiquei tão sem graça, olhei pro outro lado, me sentia como se tivesse aberto a porta do banheiro e deparado com um desconhecido de pau na mão. Roupão? Caraca. Mais vestido do que os muitos de bermuda sem camisa pelas ruas, mas roupão é roupão, não é o que ele mostra, mas o que suscita e pressupõe-se. Umas quadras adiante, ao longe uma senhora com muitos enfeites coloridos na cabeça parecia bem modernosa. De perto, os enfeites se revelaram, para meu espanto, uma bela coleção de bobs multicores, que ela portava desinibida enquanto varria a calçada e conversava com vizinhos. É, Perdizes não é Moema.
Ah, o de todo dia
Sentei numa das esquinas do balcão, no fundo do salão, pedi um suco. Tinha meia hora naquela padaria. Uma senhora magra e muito morena sentou a dois bancos de mim. Acenou para o balconista e iniciou uma conversa comigo sobre as pombas serem guiadas por anjos. Isso porque eu tinha acabado de reclamar das pombas. Pomba dentro da padaria? Pô. Só falta estar de roupão.
Daí vem o balconista com um copaço de café, deixa na frente dela, sai e volta com uma baita fatia de queijo quente. Sem uma palavra.
Lembrei dos velhos amigos do Caju. Os velhinhos mesmo, com sua pinga de todo dia, sempre o mesmo não-pedido, o mesmo horário. Tínhamos o nosso ballet.
By Carol.




Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.