21.12.07

Permalink Categorias: Relacionamentos, Crianças   Portuguese (BR)

Presentes de Natal

Discos de vinil antigos com orquestras cafonas tocando melodias natalinas, coisa da tia Inês. Era o prelúdio da festa, a entrada, o começo da animação. Ela nos puxava a dançar em roda sobre o tapete da sala, e aos poucos íamos nos embriagando com aquelas voltas, aquelas músicas, e um espumante surrupiado dos adultos. Quando os vinis começavam a rodar, a lua ainda a meio palmo, era sinal de que a festa tinha um início oficial, e as primas de Brasília deveriam se apressar no fim do banho; secadores de cabelo rugindo em cada cômodo da casa.
O Natal, para nós, era o momento máximo do ano. A compensação pela escola, pelas restrições; era o encontro do sentido que se busca, quando nossos muitos primos e tios vinham de toda parte do País para uma única noite de beleza, e a casa ficava cheia de crianças e de presentes e os pratos incomparáveis de minha avó Maria, a rainha de uma cozinha como nunca se viu: torta de palmito com camarão, peru e farofa. Minha mãe fazia a maionese. Eu amontoava comida nos pratos, receoso de que não durasse o tanto da festa. Mas durava, e poucos prazeres tive comparáveis a saborear a mesma torta na manhã do dia seguinte, numa espécie de majestoso brunch de sobras.

Se em todos os meses de minha vida eu tivesse, pelo menos, uma manhã daquelas, revendo os presentes, comendo as fartas sobras porque tudo era muito, as lembranças de tantas pessoas felizes com as outras, mais indulgentes, quase amorosas, não me lamentaria de muita coisa.

Mas o ápice da noite anterior era a distribuição dos presentes, com meu avô, de fala alterada pelos derrames de suas tristezas, chamando-nos pelos nomes, os presenteados. A sala virava um caleidoscópio de papéis dourados e vermelhos, e fitas e crianças experimentando seus brinquedos, mulheres vestindo vestidos novos, homens de bigode agradecendo gravatas e meias, e tudo a rodar.
E daí, de tanta comida e bebida, fartos de tanta comunhão de prazeres, íamos nos encolhendo, falando mais baixo, brincando menos, até que meu tio Zé Luís fosse o único a se manter à mesa, porque era homem para quem as festas não têm fim.
Dos carrinhos de fricção, passei a receber CDs, as festas ficaram mais alcoólicas, mas igualmente apoteóticas, e mesmo adulto esperava por elas como pelo melhor momento do ano, até que minha tia Inês morreu, aos 50, moça.
A partir de então, os discos de vinil passaram a rodar não mais com aquela espontânea declaração de felicidade, mas como uma homenagem à alegria de natais passados, à alegria que era tanto dela, de minha tia.
Um ano depois, se foi meu avô, e tivemos que improvisar papais noéis fajutos a substituir o insubstituível na distribuição dos presentes, das alegrias já não tão alegres. Risos amarelos, os primos de Brasília já não vinham sempre, e gritos que de harmônicos se tornaram ruídos. Minha avó a disfarçar o choro num canto, ou sem disfarçar, pois faltava quem não podia faltar.
E depois crescemos.

por Alexandre Carvalho dos Santos 7 comentários - Permalink

Busca

Resumo deste blog XML

Clique aqui para ver essa página no formato RSS/XML O que é RSS?

powered by
b2evolution

 

[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]