17.09.09

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O Apocalipse do livro impresso

kindle

A edição de setembro da revista Superinteressante, que está nas bancas, traz uma matéria minha, caprichosamente editada por Larissa Santana, sobre o futuro do livro. O protagonista desse texto é o Kindle, o e-reader da Amazon.

Você sabe o que é um e-reader? É um aparelho eletrônico, portátil (o Kindle é do tamanho de uma edição de bolso), que permite que você leia seus livros em qualquer lugar – até no banheiro, o que sempre foi o grande trunfo das publicações impressas contra os textos no computador.

Mas não vou ficar contando a matéria aqui. Só comentar que seu ponto de partida é a previsão apocalíptica quanto ao livro impresso. Não que eu, particularmente, ache que os leitores eletrônicos acabarão de todo com nossas estantes e bibliotecas. Mas, especialistas avisam, a versão impressa tem tudo para se tornar coisa de tarados por antiguidades. Como os escritores que não trocam suas máquinas Remington pelo teclado e o mouse, ou como o cartunista Robert Crumb, feliz da vida com seus discos de 78 rotações.

Para minha esperança, há quem discorde dos arautos da morte do livro impresso. Como Ruy Castro, no belíssimo editorial para a Folha de São Paulo de ontem. Que termina assim:

“(o livro impresso) já nasceu perfeito, e não é de hoje. Ele é bonito, gostoso e prático. É também portátil: pode ser levado na mão, na mochila ou na bolsa, e lido no sofá, na cama, no banheiro, na mesa do jantar, no bonde, no ônibus, no jardim, na praia, na banheira, onde você quiser. É também barato: quem não tiver dinheiro para comprar livros novos, encontrará farta escolha nos sebos e até na calçada da rua.
Um livro pode nos alimentar por uma semana, um mês ou o resto da vida. E, ao contrário do CD e do DVD, não precisa de uma máquina para tocar. Basta ser aberto para poder ser lido. Na verdade, o livro só precisa de nós.
Neste momento, mais do que nunca, talvez.”

por Alexandre Carvalho dos Santos 6 comentários - Permalink

22.04.09

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O golem do Bom Retiro, de Mario Teixeira

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Se ainda me lembro bem, e se ele me disse o que realmente se passou, meu amigo Mario Teixeira um dia colocou na cabeça que queria conhecer pessoalmente o escritor Marcos Rey. Descobriu o número do telefone, ligou e perguntou se podia, quem sabe, fazer uma visita. Sim, podia. O Mario foi e acabou ficando amigo do Marcos.

Mas por que, dentre todos os escritores brasileiros, meu amigo escolheu o Marcos Rey? Na época, estudávamos juntos na FAAP, e Rubem Fonseca era a sensação: havia acabado de lançar Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, sucesso absoluto nos cadernos culturais, e era o mestre de um brutalismo e uma concisão que nos punham de joelhos.
Mas então o Mario me respondeu que havia escritores que, por melhores artistas que fossem, não pareciam bons sujeitos para se tentar uma aproximação, conversar sobre um filme ou sobre o aumento do preço do pão francês. Já o Marcos Rey, para ele, devia render uma amizade ou um bom papo. Mario havia tirado esse palpite da maneira como o Marcos escrevia, e é claro que ele estava certo. Tanto que ficaram amigos até a morte do escritor, em 1999.

Depois descobri que a explicação do Mario para a escolha do Marcos Rey foi inspirada em uma passagem de O Apanhador no Campo de Centeio; os argumentos do Mario eram amiúde literários (Hemingway, Nabokov...), diferentemente da maioria do povo da faculdade, que citava bordões de novela ou de programas humorísticos (hoje, citam gente dos reality shows).

De qualquer forma, por algum tipo de influência ou porque já estivesse com a coisa na veia, o Mario acabou seguindo os passos do Marcos. Como ele, tornou-se escritor e também roteirista de TV; como ele, traduziu O Sítio do Pica-Pau Amarelo para as tardes da Globo e, como ele, agora se revela autor de obras infanto-juvenis que encantam qualquer adulto.

É o caso de seu segundo romance, O golem do Bom Retiro, uma publicação da Edições SM, lançada ano passado. A trama se desenrola em torno de um menino judeu de São Paulo e seus amigos que, apavorados com as ameaças de um grupo de skinheads, decidem criar um golem, uma criatura fantástica das lendas judaicas, muito forte, que serviria para proteger os judeus; humanoide de argila, sem alma, que no romance torna-se mais humano que o Frankenstein de Shelley.
Por meio de uma aventura sobrenatural, Mario traz para a realidade brasileira os mitos e os termos próprios do judaísmo, combinando ficção de primeira com uma aula de história e cultura, sem cair no didatismo ou nos clichês das lições de moral. “Este livro é verdadeiramente um triunfo”, aponta o escritor Moacyr Scliar na apresentação da obra. E ele entende do assunto. Os mocinhos do romance têm os defeitos e as ambiguidades de todas as crianças em fase de formação – caso de Nico, o menino de rua que usa o golem para roubar sorvete; seus vilões, assustadores e assustados, têm o benefício da dúvida – o aprendiz de skinhead é ignorante dos motivos da suposta supremacia ariana e se enrola com os porquês da violência do grupo.

Reunindo jovens heróis de origens diversas (judeus ortodoxos, a menina católica que briga como moleque, o garoto mulato que dorme na rua), Mario insere lições de tolerância e respeito sem descuidar do ritmo de sua aventura nem do bom humor, marca registrada do homem por trás do escritor: na assimilação do monstro pela família que o acolhe, uma mãe judia o coloca para espanar o pó da sala e polir as panelas.
Aos poucos, o golem se humaniza, mas sua humanidade tem uma pureza que não é deste mundo, o que o levará a questionar seu papel no teatro de que passa a fazer parte. Assim como as crianças, um dia, de um modo ou outro se perguntam o que estão fazendo nesse louco quintal.
Marcos Rey aprovaria.

* * *

Para quem não leu, Marcos Rey (1925–1999) escreveu Memórias de Um Gigolô (que teve versão para a TV com Lauro Corona e Bruna Lombardi nos papéis principais), Ópera de Sabão, Malditos Paulistas, Café na Cama, entre outros romances ambientados na cidade de São Paulo. De sua literatura infanto-juvenil, destacam-se clássicos como O Mistério do Cinco Estrelas, O Rapto do Garoto de Ouro, Um Cadáver Ouve Rádio... e por aí vai...

Ah, e também foi roteirista de muito filme da Boca do Lixo. Da literatura infantil às produções pornô-soft da Rua do Triunfo, o homem mandava bem em todas.

por Alexandre Carvalho dos Santos 3 comentários - Permalink

18.03.09

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Coppola é o diretor para uma ilha deserta

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Acabo de ler a edição caprichada de Filmes, da Publifolha, para a série Ilha Deserta, de 2003, que compreende os livros, discos e filmes que especialistas desses assuntos levariam para um exílio longe dos quiprocós da humanidade. Os náufragos que escrevem sobre suas paixões cinematográficas são: Inácio Araujo, João Moreira Salles, Ugo Giorgetti, Amir Labaki, Bernardo Carvalho, Isa Grinspum Ferraz e Agnaldo Farias. Cada um com a tarefa de escrever sobre os dez filmes com que ocupariam o tempo na tal ilha.
Inácio (meu professor de cinema) não se conteve e encaixou um filme a mais em sua lista: a camisa 11 coube a Anjos do Arrabalde, de Carlos Reichenbach. Moreira Salles também deu um jeito de citar mais um.

Repassei o que havia lido para identificar os mais assíduos nas listas. Francis Ford Coppola foi o mais lembrado, com quatro citações. E se engana quem imagina que todas foram para O Poderoso Chefão, mencionado apenas uma vez; também foram lembrados Apocalipse Now, Cotton Club e A Conversação.

Lembrei que, numa seleção de dez filmes de todos os tempos que fiz para a edição número zero da Revista Paisà, Coppola foi o único diretor de quem falei mais de uma vez: uma pelo "Chefão", outra por "Apocalipse".

Em segundo lugar, no livro, ficaram empatados, com três citações cada, Hitchcock, Antonioni, Godard e Orson Welles.

Deste último, também se engana quem acha que Cidadão Kane foi o motivo das três menções. Aliás, talvez para fugir da obviedade, nenhum dos ilhéus levaria "Kane" para uma ilha deserta. É Tudo Verdade ganhou dois textos; o outro foi para A Marca da Maldade.

Filmes mais lembrados, cada um com dois ingressos para a ilha deserta: Janela Indiscreta (Hitchcock), Os Sete Samurais (Kurosawa), Blow Up (Antonioni), Morte em Veneza (Visconti), A Palavra (belíssimo filme do Carl Dreyer) e o supracitado de Welles.

Achei que houve poucos filmes brasileiros nas seleções. Glauber só foi lembrado uma vez (por Deus e o Diabo na Terra do Sol), e há um Person aqui, um Walter Lima Jr. acolá...
João Moreira Salles, que só falou sobre documentários, foi mais camarada com os compatriotas, citando do indefectível Eduardo Coutinho até um documentário de Karim Aïnouz.

Estranhos no ninho: Um Cara Muito Baratinado (de Richard Benjamin) e 007 Contra O Satânico Dr. No, (de Terence Young), ambas escolhas de Amir Labaki.
Bom... o exílio é dele, ele leva quem quiser.

por Alexandre Carvalho dos Santos 2 comentários - Permalink

11.03.09

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Ferreira Gullar e o imprevisível

Ferreira Gullar, próximo de seus 80 anos, sintetizando a roleta-russa da vida, em entrevista para a Bravo! deste mês:

“O que faz o homem sobre a Terra? Luta para neutralizar o acaso. Eis a principal necessidade humana: driblar o imprevisível, a bala perdida. Concebemos Deus justamente porque buscamos nos proteger da bala perdida. Deus é a providência que elimina o acaso. É o antiacaso.”

por Alexandre Carvalho dos Santos 1 comentário - Permalink

21.02.09

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Entrevistas com Clarah Averbuck e Melanie Dimantas

Do nascimento de Camila
Nome Próprio, de Murilo Salles, parte do universo criado por Clarah Averbuck em seus livros e blogs, reinventado pelas mãos dos roteiristas

Por Alexandre Carvalho dos Santos

A escritora gaúcha Clarah Averbuck gosta de bares de rock, de Mick Jagger & Keith Richards, de Nina Simone, Tom Waits e, em momentos mais doces, do cool jazz de Chet Baker. A música é parte indissociável de seu cotidiano, trilha de seus melhores e piores momentos, a um ponto tal que ela assume a influência de letristas de canções em seus escritos, cada vez mais conhecidos.
Mas o que Clarah Averbuck escreve? Escreve reflexões sobre si e sobre bandas de rock, e sobre noites selvagens, e comportamentos e pensamentos à beira do abismo, em blogs que se tornaram referências de bons textos na Internet, marcados pela ironia da autora e a coragem de expor sua vida e seu ponto de vista num território aberto à interação e ao palpite alheio. Este mesmo universo é explorado por Clarah nos descaminhos dos personagens de seus livros, Máquina de Pinball (Conrad Editora) e Vida de Gato (Editora Planeta), obras que deram à luz a escritora Camila, interpretada por Leandra Leal no filme Nome Próprio, de Murilo Salles.

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Clarah Averbuck

Mas, para quem se apressa em apontar as coincidências, a autora dos livros enfatiza que a Camila das telas não é Clarah Averbuck. Em primeiro lugar, porque é personagem de ficção, dos livros de Clarah – com um tanto de elementos autobiográficos, o que confunde tudo; depois, e mais importante, porque é personagem reinventada em um roteiro de filme, escrito por Melanie Dimantas, Elena Soarez e Murilo Salles.
“O roteiro tinha total liberdade em relação ao trabalho de Clarah, que não me serviu concretamente de referência dramatúrgica”, aponta a roteirista Melanie Dimantas, uma das mais atuantes no cinema brasileiro, com a bagagem de trabalhos como Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995), Copacabana (2001), O Outro Lado da Rua (2004) e Mulheres do Brasil (2006). “Digo que não me debruçava em seus textos para buscar soluções, mas tinha em mente sobre quem se falava e seu estilo. A Camila nasce em Clarah, expande-se e abarca Murilo, Elena e eu. Tínhamos um foco, coisas que o Murilo queria dizer, e daí injetamos sangue, carne em nosso Golem, que, aliás, para além da nossa pretensão criadora, pode ser a criação de outra pessoa, intrínseca à trama, como aponta o final do filme. O segredo é que Camila é o Murilo”, revela.
Além dos livros, os roteiristas se basearam nos blogs de Clarah Averbuck para a inserção de escritos da protagonista, que também tem um blog confessional e que vai direto ao ponto. Mas, às citações de Clarah, somaram seus próprios “posts”.
“O blog, em si, como linguagem, é eixo dramático no que tange à personagem e sua dimensão, será ela real ou será ela uma ficção mediada pela virtualidade das vidas jogadas neste éter, que é a Internet”, esclarece Melanie. “A partir desta idéia, Murilo pretendeu discutir aquilo que move o artista”.

nome próprio
Leandra Leal em Nome Próprio

Inspiração na literatura
Melanie Dimantas assume uma forte influência da literatura em seu trabalho de roteirista, e suas fontes parecem distantes da nova literatura brasileira da qual Clarah Averbuck é figura em evidência ao lado de outros nomes como Daniel Galera (Até O Dia em Que O Cão Morreu, livro adaptado por Beto Brant em Cão Sem Dono) e João Paulo Cuenca (Corpo Presente). “Sempre que vou começar um roteiro, prefiro ler a ver filmes sobre o gênero em minhas pesquisas. Sempre amei Tchekhov e, em cada trabalho, me lembro de uma frase, de uma observação ou mesmo de uma situação que ele sugere e que eu adoraria usar com a mesma precisão. Me parece impossível, mas serve como desafio”.
Também professora de argumento e roteiro, Melanie afirma que os bons roteiros devem ser invisíveis à experiência sensível do espectador de cinema; não podem ser notados fora do conjunto. “Seja comédia ou drama, gosto de ser levada, de comprar uma passagem e embarcar na narrativa. Quando soa um sinal de alerta, é porque ali apareceu a mão de quem escreve, e eu odeio isto. Mas redimo Nome Próprio desta visão mal humorada, porque nele essa aparição é proposital”, reflete.

Sem o sarcasmo da fonte
Diferentemente do que, às vezes, acontece em filmes baseados em obras de autores vivos, não há interferência de Clarah Averbuck no roteiro final de Nome Próprio. De modo que a autora se esforça em destacar a diferença entre o que se vê na tela e o que há em seus livros. E o tom da narrativa é a principal evidência desta diferença de caminhos. “Eu mexi em um tratamento do roteiro, mas nada do que eu fiz ficou”, explica Clarah. “O aspecto que eu teria feito questão de manter seria o senso de humor da personagem dos livros, um certo sarcasmo que foi esquecido no filme. Mentira, não foi esquecido: foi uma escolha do diretor, e o filme é dele, então é isso aí”.
Mas como absorver a separação de uma obra que é sua, cedê-la a outros autores e ver que, adaptada para uma nova linguagem, filtrada por outras formas de interpretar o mundo, ela já não é espelho de sua criação? Depois de um período de receio e ansiedade quanto às intervenções em sua obra, Clarah concluiu que só o desapego a salvaria da loucura. “Eu gosto bastante do filme, mas tento vê-lo como um filme, não uma adaptação da minha obra. Desapeguei mesmo, autor bom é autor morto. A minha obra são os livros; o que for feito sem a minha interferência é problema dos outros”.
Além dos muitos pontos positivos que enxerga na produção – “a atuação da Leandra é brilhante, a fotografia é sensacional” –, Clarah revela o que mais a incomoda: “Eu tenho algumas ressalvas, mas são todas da adaptação. Por exemplo, os textos que aparecem na tela são quase todos adaptações dos meus ou de outras pessoas. Quem vai ao cinema ver a adaptação da obra literária pensa que são da autora – o que seria mais lógico mesmo. Também senti falta da trilha sonora, pois os livros são permeados de referências musicais, quase marcação de trilha. Mas, como já disse, o filme é do Murilo, e eu não tenho controle sobre o que é feito”.
Versátil, Clarah considera com carinho a possibilidade de escrever roteiros para cinema. Já está em negociação para outra adaptação de trabalhos seus e avisa que, desta vez, quer fazer o roteiro. Assim poderá lidar diretamente com o quanto de fidelidade à obra original um roteiro cinematográfico pode, ou deve, ter. Um tipo de controle que sempre seduz um autor, com os riscos inerentes a todo processo de criação e adaptação.

* * *

Matéria publicada na segunda edição da revista Plano B.
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