01.09.07
Caetano é Godard - Balanço da Bossa
Fundamental, a leitura de Balanço da Bossa – Antologia Crítica da Moderna Música Brasileira, de Augusto de Campos. Publicação de 1968, reúne ensaios do autor e de outros pensadores da nossa música, como o maestro Júlio Medaglia, Brasil Rocha Brito e Gilberto Mendes, textos de 66 e 67, fotografando o momento em que a bossa nova passava a coroa da linha evolutiva da MPB para o tropicalismo. Evolução esta que se perdeu no começo dos anos 70, depois da explosão de originalidade de artistas como Tom Zé, Rogério Duprat, Os Mutantes e os inventores disso tudo, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Muito interessante, constatar como os autores dos ensaios captaram, na hora, o que representavam os primeiros discos de Caetano e Gil, na retomada da linha evolutiva da MPB, que se perdia com a banalização da “fórmula” da bossa nova e a xenofobia musical da juventude de esquerda.
Em “A explosão de Alegria, Alegria”, Augusto de Campos comenta: “Da mesma forma que a excelente letra de Gilberto Gil para “Domingo no Parque”, a de Caetano Veloso tem características cinematográficas. Mas, como me observou Décio Pignatari, enquanto a letra de Gil lembra as montagens eisenstenianas, com seus closes e suas fusões (‘O sorvete é morango – é vermelho / Oi girando e a rosa – é vermelha / Oi girando, girando – é vermelha / Oi girando, girando – Olha a faca / Olha o sangue na mão – ê José / Juliana no chão – ê José / Outro corpo caído – ê José / Seu amigo João – ê José’), a de Caetano Veloso é uma ‘letra-câmera-na-mão’, mais ao modo informal e aberto de um Godard, colhendo a realidade casual ‘por entre fotos e nomes’”.
E ainda sobre “Alegria, Alegria”: “Furando a maré redundante de violas e marias, a letra de ‘Alegria, Alegria’ traz o imprevisto da realidade urbana, múltipla e fragmentária, captada, isomorficamente, através de uma linguagem nova, também fragmentária, onde predominam estilhaços da ‘implosão informativa’ moderna: crimes, espaçonaves, guerrilhas, cardinales, caras de presidentes, beijos, dentes, pernas, bandeiras, bomba ou Brigitte Bardot. É o mundo das bancas de revista, o mundo de tanta notícia, isto é, o mundo da comunicação rápida, do mosaico informativo de que fala Marshall McLuhan. Nesse sentido, pode-se afirmar que ‘Alegria, Alegria’ descreve o caminho inverso de ‘A Banda’. Das duas marchas, esta mergulha no passado, na busca evocativa da pureza das bandinhas e dos coretos da infância. ‘Alegria, Alegria’, ao contrário, se encharca de presente, se envolve diretamente no dia-a-dia da comunicação moderna, urbana, do Brasil e do mundo”.
Faz pensar como o jovem e buliçoso Caetano traduziria, em música e invenção, a comunicação muito mais fragmentada e referencial desse começo de século de internets.

Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.