22.04.09
O golem do Bom Retiro, de Mario Teixeira
Se ainda me lembro bem, e se ele me disse o que realmente se passou, meu amigo Mario Teixeira um dia colocou na cabeça que queria conhecer pessoalmente o escritor Marcos Rey. Descobriu o número do telefone, ligou e perguntou se podia, quem sabe, fazer uma visita. Sim, podia. O Mario foi e acabou ficando amigo do Marcos.
Mas por que, dentre todos os escritores brasileiros, meu amigo escolheu o Marcos Rey? Na época, estudávamos juntos na FAAP, e Rubem Fonseca era a sensação: havia acabado de lançar Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, sucesso absoluto nos cadernos culturais, e era o mestre de um brutalismo e uma concisão que nos punham de joelhos.
Mas então o Mario me respondeu que havia escritores que, por melhores artistas que fossem, não pareciam bons sujeitos para se tentar uma aproximação, conversar sobre um filme ou sobre o aumento do preço do pão francês. Já o Marcos Rey, para ele, devia render uma amizade ou um bom papo. Mario havia tirado esse palpite da maneira como o Marcos escrevia, e é claro que ele estava certo. Tanto que ficaram amigos até a morte do escritor, em 1999.
Depois descobri que a explicação do Mario para a escolha do Marcos Rey foi inspirada em uma passagem de O Apanhador no Campo de Centeio; os argumentos do Mario eram amiúde literários (Hemingway, Nabokov...), diferentemente da maioria do povo da faculdade, que citava bordões de novela ou de programas humorísticos (hoje, citam gente dos reality shows).
De qualquer forma, por algum tipo de influência ou porque já estivesse com a coisa na veia, o Mario acabou seguindo os passos do Marcos. Como ele, tornou-se escritor e também roteirista de TV; como ele, traduziu O Sítio do Pica-Pau Amarelo para as tardes da Globo e, como ele, agora se revela autor de obras infanto-juvenis que encantam qualquer adulto.
É o caso de seu segundo romance, O golem do Bom Retiro, uma publicação da Edições SM, lançada ano passado. A trama se desenrola em torno de um menino judeu de São Paulo e seus amigos que, apavorados com as ameaças de um grupo de skinheads, decidem criar um golem, uma criatura fantástica das lendas judaicas, muito forte, que serviria para proteger os judeus; humanoide de argila, sem alma, que no romance torna-se mais humano que o Frankenstein de Shelley.
Por meio de uma aventura sobrenatural, Mario traz para a realidade brasileira os mitos e os termos próprios do judaísmo, combinando ficção de primeira com uma aula de história e cultura, sem cair no didatismo ou nos clichês das lições de moral. “Este livro é verdadeiramente um triunfo”, aponta o escritor Moacyr Scliar na apresentação da obra. E ele entende do assunto. Os mocinhos do romance têm os defeitos e as ambiguidades de todas as crianças em fase de formação – caso de Nico, o menino de rua que usa o golem para roubar sorvete; seus vilões, assustadores e assustados, têm o benefício da dúvida – o aprendiz de skinhead é ignorante dos motivos da suposta supremacia ariana e se enrola com os porquês da violência do grupo.
Reunindo jovens heróis de origens diversas (judeus ortodoxos, a menina católica que briga como moleque, o garoto mulato que dorme na rua), Mario insere lições de tolerância e respeito sem descuidar do ritmo de sua aventura nem do bom humor, marca registrada do homem por trás do escritor: na assimilação do monstro pela família que o acolhe, uma mãe judia o coloca para espanar o pó da sala e polir as panelas.
Aos poucos, o golem se humaniza, mas sua humanidade tem uma pureza que não é deste mundo, o que o levará a questionar seu papel no teatro de que passa a fazer parte. Assim como as crianças, um dia, de um modo ou outro se perguntam o que estão fazendo nesse louco quintal.
Marcos Rey aprovaria.
* * *
Para quem não leu, Marcos Rey (1925–1999) escreveu Memórias de Um Gigolô (que teve versão para a TV com Lauro Corona e Bruna Lombardi nos papéis principais), Ópera de Sabão, Malditos Paulistas, Café na Cama, entre outros romances ambientados na cidade de São Paulo. De sua literatura infanto-juvenil, destacam-se clássicos como O Mistério do Cinco Estrelas, O Rapto do Garoto de Ouro, Um Cadáver Ouve Rádio... e por aí vai...
Ah, e também foi roteirista de muito filme da Boca do Lixo. Da literatura infantil às produções pornô-soft da Rua do Triunfo, o homem mandava bem em todas.
21.12.07
Presentes de Natal
Discos de vinil antigos com orquestras cafonas tocando melodias natalinas, coisa da tia Inês. Era o prelúdio da festa, a entrada, o começo da animação. Ela nos puxava a dançar em roda sobre o tapete da sala, e aos poucos íamos nos embriagando com aquelas voltas, aquelas músicas, e um espumante surrupiado dos adultos. Quando os vinis começavam a rodar, a lua ainda a meio palmo, era sinal de que a festa tinha um início oficial, e as primas de Brasília deveriam se apressar no fim do banho; secadores de cabelo rugindo em cada cômodo da casa.
O Natal, para nós, era o momento máximo do ano. A compensação pela escola, pelas restrições; era o encontro do sentido que se busca, quando nossos muitos primos e tios vinham de toda parte do País para uma única noite de beleza, e a casa ficava cheia de crianças e de presentes e os pratos incomparáveis de minha avó Maria, a rainha de uma cozinha como nunca se viu: torta de palmito com camarão, peru e farofa. Minha mãe fazia a maionese. Eu amontoava comida nos pratos, receoso de que não durasse o tanto da festa. Mas durava, e poucos prazeres tive comparáveis a saborear a mesma torta na manhã do dia seguinte, numa espécie de majestoso brunch de sobras.
Se em todos os meses de minha vida eu tivesse, pelo menos, uma manhã daquelas, revendo os presentes, comendo as fartas sobras porque tudo era muito, as lembranças de tantas pessoas felizes com as outras, mais indulgentes, quase amorosas, não me lamentaria de muita coisa.
Mas o ápice da noite anterior era a distribuição dos presentes, com meu avô, de fala alterada pelos derrames de suas tristezas, chamando-nos pelos nomes, os presenteados. A sala virava um caleidoscópio de papéis dourados e vermelhos, e fitas e crianças experimentando seus brinquedos, mulheres vestindo vestidos novos, homens de bigode agradecendo gravatas e meias, e tudo a rodar.
E daí, de tanta comida e bebida, fartos de tanta comunhão de prazeres, íamos nos encolhendo, falando mais baixo, brincando menos, até que meu tio Zé Luís fosse o único a se manter à mesa, porque era homem para quem as festas não têm fim.
Dos carrinhos de fricção, passei a receber CDs, as festas ficaram mais alcoólicas, mas igualmente apoteóticas, e mesmo adulto esperava por elas como pelo melhor momento do ano, até que minha tia Inês morreu, aos 50, moça.
A partir de então, os discos de vinil passaram a rodar não mais com aquela espontânea declaração de felicidade, mas como uma homenagem à alegria de natais passados, à alegria que era tanto dela, de minha tia.
Um ano depois, se foi meu avô, e tivemos que improvisar papais noéis fajutos a substituir o insubstituível na distribuição dos presentes, das alegrias já não tão alegres. Risos amarelos, os primos de Brasília já não vinham sempre, e gritos que de harmônicos se tornaram ruídos. Minha avó a disfarçar o choro num canto, ou sem disfarçar, pois faltava quem não podia faltar.
E depois crescemos.
05.11.07
Meu Melhor Amigo, de Patrice Leconte
O primeiro filme de Patrice Leconte a que assisti foi O Marido da Cabeleireira (1990), que tinha um pouco de drama, um pouco de comédia, um tanto de romance, e era de uma sensibilidade à flor da pele, de pouca fala e muita delicadeza.
Este Meu Melhor Amigo, que acaba de entrar em cartaz após exibições na Mostra de São Paulo, não foge ao intuito de emocionar o espectador, dessa vez refletindo sobre o valor da amizade. Mas aumenta a dose de humor, ainda que na linha das comédias leves, uma tradição francesa que já foi muito bem representada por Truffaut em sua seqüência dedicada ao personagem Antoine Doinel. Neste filme de Leconte, entretanto, o argumento e a narrativa são mais tradicionais, o que não enfraquece o conjunto, em que a química entre Daniel Auteuil e Dany Boon se destaca.
François (Auteuil) é um marchand apaixonado por peças raras e suas histórias, mas de resto um misantropo, que restringe suas relações humanas às profissionais. Não tenta ser simpático, não se comunica com a filha pós-adolescente e tem baixa estima entre colegas de trabalho. Numa noite, sua sócia no antiquário lhe expõe essas fraquezas, que ele rejeita, discussão que resulta em uma aposta: ele deverá, num período de poucos dias, apresentar o que seria “seu melhor amigo”, coisa que a moça acredita (com razão) que ele não tenha. Desafiado, François pede a um taxista simpático e falante (Boon) que lhe dê aulas sobre como fazer amigos. E o que se espera, desde o começo, se estabelece: com o desenvolver das aulas, o marchand e o motorista de táxi se descobrem o melhor amigo um do outro. Mas tudo começou como uma aposta, e assim nasce outro conflito a ser trabalhado.
Patrice Leconte parece ter procurado na simplicidade o caminho para construir uma comédia sem arroubos mas muita graça, e que pode ser vista como uma homenagem aos filmes de Capra, na recuperação de valores que a vida moderna reprime; no caso, a qualidade das relações humanas. Mas esta aparente falta de ambição esconde sutilezas e reflexões, exigindo do espectador uma atenção às entrelinhas.
Há, no filme de Leconte, um olhar crítico sobre a vaidade. É a ela que François presta tributo na aquisição impulsiva de um vaso grego, raríssimo, o qual mantém para si ainda que sob risco de perder seu negócio de antigüidades. É a vaidade que o cega à dedicação de sua amante, ao afeto de sua sócia. É o que o faz ignorar a verdadeira conquista na relação com o taxista, fazendo com que exiba seu novo amigo como um troféu, a vitória na aposta, a confirmação de que é um sucesso completo. Por ela, a vaidade, ama apenas aquilo que o explica e traduz: objetos de arte que são sua história e seu espelho. É sua exclusão, seu abrigo, de um universo de convenções e gente que se repete, como produtos de consumo popular.
01.11.07
Não nasci para guia turístico
O fato é que não nasci para guia turístico. Sou tímido, perco-me com facilidade nas ruas de São Paulo e nunca fui ao Mosteiro de São Bento. Nem gosto do Museu do Ipiranga. Para piorar as coisas, faz uns sete anos que não pratico meu inglês. Mas, veja como são as coisas, fui convocado pelo patrão a ciceronear um casal de australianos em visita à cidade, durante a última sexta-feira. Meu inglês é o melhor e único da firma, o que é quase inacreditável numa empresa de 60 empregados.
Assim que soube da missão, apresentei as evidências de minha inadequação:
- Sou tímido.
- Não tem problema, eles falam pelos cotovelos, deixe que eles falam por você.
- Fico perdido no trânsito e minha carteira de motorista está vencida há uns dois anos.
- A gente vai colocar um motorista para você não ter que se preocupar com isso.
- Não conheço nada da cidade.
- Eu também não. Leve eles para o Parque do Ibirapuera, para rodar na Paulista e para um shopping center, que mulher adora fazer compra. Depois leva para almoçar em algum restaurante bacana, que eu sei que de restaurante você entende. À noite, leva no Terraço Itália, todo mundo adora o Terraço Itália.
- Mas, patrão, meu inglês está péssimo, faz sete anos que não pratico.
- Os gringos vão dormir na minha casa antes de ir para o hotel, e o meu inglês não chega aos pés do seu. Quer ver? “You around kangaroo”, ou seja, “Você tem que levar os australianos para passear”. O cara se chama McDonald. Só não leva eles no Bob’s.
Parece invenção, mas é verdade.
Combinamos de nos encontrar no lobby do hotel, às 10h, e de lá iríamos para o Ibirapuera. Acordei às 8h, olhei pela janela, tudo cinza. Caía uma leve garoa. O Ibirapuera estava fora de cogitação.
- E agora? O que você vai fazer com eles?
- Não sei, Ju. Acho que vou levá-los para conhecer a Paulista. Quem sabe eles topam entrar no Masp? Assim dá para gastar um tempão lá dentro.
- Boa...
Chego ao hotel 20 minutos atrasado por causa do trânsito. Pegamos hora do rush o dia inteiro. McDonald diz que está acostumado. Que em Sidney a coisa é parecida. Eu fico com a certeza de que ele só está sendo gentil, e exponho minhas idéias para o dia (em meu inglês que já viu tempos melhores).
- Está chovendo, não vai dar para ir ao Ibirapuera. Podemos conhecer nossa mais importante avenida, o coração de São Paulo, e, por lá, ver uma série de coisas: o Masp, o comércio local, o Trianon, os cinemas da Augusta, os resultados da Lei Cidade Limpa.
- Só não queremos ver museu e igreja, nem shopping – diz Sandra, a esposa, com um sorriso.
Meu plano de arrastar três horas dentro de um museu até a hora do almoço não seria posto em prática. O que fazer, então, até a hora do almoço? O fato é que não nasci para guia turístico.
Converso com o motorista em português, já que ele não falava nada em inglês, o que acabou sendo conveniente.
- O senhor já fez passeio turístico alguma vez? Tem umas sugestões para dar?
- Nunca fiz. Mas por que o senhor não leva o casal para a Marginal? Tem bem a cara de São Paulo.
- Acho que não. Tem outra dica?
- Eu sou de Osasco, não conheço direito São Paulo.
- Xiiii...
Liguei para meu irmão, que conhece a cidade bem melhor que eu.
- Pode me ajudar a ciceronear uns australianos? Te pago o almoço.
- Beleza.
Assim, nosso primeiro passeio pela cidade foi do hotel até a casa do meu irmão, na Vila Mariana. No trajeto, me virei como pude.
- Esses túneis são muito representativos da cidade de São Paulo. Este aqui é uma homenagem ao nosso maior piloto, o Ayrton Senna, embora eu preferisse o estilo do Piquet.
- Eu gosto muito do Senna. Vocês têm algum memorial em homenagem a ele, que a gente possa visitar? (McDonald)
Olho para o motorista. Ele acha que não.
- Esta aqui é uma avenida muito importante de São Paulo, a Sena Madureira, reparem como ela tem essas árvores dividindo as duas pistas (...) Este é um hospital muito importante, o Santa Cruz, meu avô morreu aqui (...) Agora estamos passando por cima do rio Ipiranga, onde foi proclamada a nossa independência (...) Este bairro se chama Vila Mariana; muitos bairros importantes de São Paulo têm nomes de vilas: Vila Mariana, Vila Maria, Vila Sônia, Vila Sésamo...
E assim fui tornando importante e histórica cada esquina na direção da casa do meu irmão.
13.10.07
Stella, a astronauta (e escritora, e roqueira...)
No dia das crianças, a Stella passou aqui em casa. Stella é filha da minha irmã, e é também a felicidade da família.
Está com oito meses já, e ensaia os primeiros de muitos passos, e quer dizer o quanto gostaria de dar forma aos sons que saem de sua boca de primeiros dentes, de ensaios de dentes, mas não diz nada e apenas sorri, e chora e estende os braços na minha direção, celebrando o amor que sinto por ela desde o dia em que a vi e acompanhei seus primeiros movimentos, suas primeiras horas.
Foi um dia de muitos bebês em casa. Esteve aqui o Assis, de oito meses também, e o Lucas, de apenas três, com seu cabelo de pica-pau, filhos de amigos queridos. E ainda a Clara, de 2 anos, filha de minha prima (e amiga) Carolina.
O que mais me encanta na Stella é que essa menina de olhar hesitante e curioso tem, diante de si, todas as possibilidades. Pode ser campeã de automobilismo, viajar para a lua e descobrir a cura do câncer. Ou tudo isso junto (a uma criança de primeiros passos, primeiros dentes e sorrisos, nada é impossível). Poderá ser Miss Universo, uma roqueira pós-pós-punk ou a trompetista de uma orquestra. Pode receber o Prêmio Nobel da Economia ou ser neurocirurgiã, como quer a mãe.
Pode nos encher os dias com seu amor, ou nos esquecer, imersa em seu próprio mundo de tantas possibilidades, distante do nosso cotidiano de velhos costumes. Pode morar com a mãe e o pai até os 30 anos, ou viajar para a França, aos 18, e nunca mais voltar. Pode ser escritora e contar a história de minha família, e até de meu pai, o avô que ela não conheceu e que estaria, ontem, com ela no colo, trocando sorrisos. Mas se foi antes que Stella descobrisse a cura do câncer.
Stella pode ter um destino de grandeza nos fatos do País e do planeta, ou simplesmente tornar os nossos dias mais ricos de experiências e de afeto. Ela recupera, diante de nossos olhos, traços de meu pai, minha avó e minha tia Inês, tornando-os não mais crias singulares de minha memória, mas a certeza de uma continuação.




Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.