07.07.08
Comerciais intermináveis no Warner Channel

"Melhor a gente conversar em outro canal"
Há duas semanas, prostrado em casa em plena noite de sábado por conta de uma dessas novas viroses imbatíveis, descobri que a TV passaria Antes do Pôr-do-Sol, de Richard Linklater, um dos melhores filmes dos anos 2000, com um dos melhores finais de todos os tempos. O desfecho do filme é daqueles em que você torce, “tomara que seja agora, seria um final perfeito”, e no caso a torcida é compensada com a perfeição. A perfeição de um fim que não é um fim, que se abre a todas as possibilidades, que deixa o minuto seguinte dos personagens à imaginação do espectador.
Mas toda a emoção do filme foi sabotada por uma escolha ruim de canal de exibição. Vi o filme pelo canal de TV paga Warner Channel, que demonstrou o maior desrespeito e descompromisso com seus espectadores (pagantes, ainda por cima).
Por quê? Por causa de seus três intervalos comerciais. Quanto à existência das interrupções, nada demais, a tradição da TV aberta já nos preparou para esses incômodos passageiros. O absurdo, no caso do Warner Channel, é a extensão desses intervalos. Cada um deles durou, em média, 11 minutos! Repito: 11 minutos! Decidi cronometrar na segunda vez, depois que me amolei com o exagero do primeiro intervalo. 11 minutos! Dava para eu sair de casa, ir à banca comprar um jornal e voltar antes que o filme seguisse. Dava para preparar três miojos, um em seguida ao outro. Dava para assistir a três clipes de música, ou a boa parte de um jogo de futebol. Dava para ouvir a quilométrica “The End”, dos Doors, de cabo a rabo... Só não dava para me lembrar sobre o que o casal do filme conversava antes da interrupção. E, no caso de um filme que se baseia em um único e longo diálogo, como a obra em questão, esquecer o assunto do papo era perder o fio da meada, o rumo da trama; perder o interesse, enfim.
Aos anunciantes que torram milhares em verba publicitária nos intervalos do Warner Channel, um aviso: assim como aconteceu comigo, outros tantos devem ter se impacientado com a repetição de seus reclames, e com a prolongada demora da volta do filme. Terminadas as sessões de intervalo, minhas decisões eram as seguintes: 1 - escrever em algum lugar denunciando o desrespeito (faço-o aqui); 2 – não adquirir nenhum daqueles produtos que tanto me irritaram numa noite de sábado que prometia ser um alívio, mas que foi um estorvo.
E o macaquinho de um anúncio da Fiat repetia e repetia, infindáveis vezes: “Don’t worry / about a thing / Every little thing / is gonna be alright”...
Não naquele sábado. Não no Warner Channel.
22.11.07
Lendo o New York Times de graça na Internet
A edição de 21 de novembro do New York Times trata, em sua seção de críticas de cinema, do filme I’m Not There, de Todd Haynes, sobre Bob Dylan, que foi sensação da última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Eu mesmo tentei assistir ao filme duas vezes, batendo com a cara no anúncio de ESGOTADO (assim mesmo, em letras garrafais e inapeláveis). O crítico Sérgio Alpendre, que conseguiu chegar lá, disse que o filme “é uma obra-prima”, uma das expressões preferidas desse meu amigo, editor da Revista Paisà. A.O. Scott, do NY Times, parece ter concordado com o Sérgio, pois cobriu I,m Not There de elogios: “Eu não tiraria um minuto desse filme, nem o quereria diferente. Como 'Subterranean Homesick Blues', ele convida à elaboração, à crítica e à interpretação infinitas. É um filme profundamente pessoal, apaixonado em seu engajamento com os mistérios do passado recente”.
Imperdível, portanto. Não vejo a hora de entrar em cartaz por aqui. Mas só descobri a crítica de Scott graças ao fato de que o New York Times tornou seu conteúdo aberto a quem se interessar por ele, o que considero uma das atitudes mais merecedoras de brindes e aplausos. Desta forma, qualquer brasileiro, mesmo desprovido de cartão de crédito, pode se tornar leitor assíduo de um dos jornais mais importantes do mundo, como eu fiz.
Até recentemente, o NY Times mantinha seções com conteúdo exclusivo para assinantes, que pagavam pelo acesso US$ 7,95 por mês. Agora, está tudo liberado, inclusive a leitura de artigos antigos. Isto me possibilitou, por exemplo, ler o que o jornal publicou no dia 12 de setembro de 2001, a primeira data a noticiar, na versão impressa, o ataque terrorista às Torres Gêmeas.
Não que o equivalente a uns 15 reais por mês seja um valor impeditivo; é até bem camarada, mas o fato é que, na Internet, você não quer pagar por informação nem informar o número do seu cartão de crédito, seu CPF, sua impressão digital. Se alguém restringe conteúdo de um lado, há sempre opções gratuitas de outro, e vamos sempre atrás das gratuitas.
Se você acha que o New York Times tem algum desapego material ou vocação beneficente pela idéia de estender suas informações aos menos favorecidos, você só pode ser um ingênuo de pai e mãe. Americanos não são bonzinhos quando o assunto é negócio, e o jornalismo, desde que o mundo é mundo, visa primeiro ao dinheiro do anunciante e do leitor. Há ética? Sim. Generosidade? Isto não é para os jornais.
A iniciativa do New York Times partiu tão-somente da conclusão de que, abrindo seu conteúdo à leitura geral, conseguirá ampliar o número de visitantes de suas páginas na Internet e, assim, ter um produto mais atraente do ponto de vista publicitário.
É uma boa estratégia? Talvez seja, mas nem todos os fatos apontam para conclusões definitivas nesta questão. No dia 5 de novembro, o Wall Street Journal anunciou que seu site chegara à marca de 1 milhão de assinantes, e a procura pelas assinaturas continua em alta (mesmo assim, os diretores do Wall Street estudam a possibilidade de também abrir seu conteúdo, os loucos).
O fato é que a “novidade” do negócio Internet para as publicações ainda está na fase do tentativa-e-erro, e mesmo os principais meios de comunicação do mundo ainda estão inseguros quanto aos melhores caminhos para fazer dinheiro na rede. Vivo ouvindo opiniões conflitantes de especialistas em Internet como mídia sobre a oferta de conteúdo na rede.
Eu, como leitor-navegador entusiasta dos conteúdos que mexem com a minha cabeça, mas não encostam no meu bolso, continuarei a prestigiar os gratuitos.
* * *
O Portal Imprensa, dirigido a jornalistas, está com uma enquete no ar: Importantes jornais internacionais abriram seus conteúdos na Internet. Na sua opinião, o exemplo deveria ser seguido pelos brasileiros?
Votei que sim, é claro, e o placar estava 730 x 18 a favor do sim.
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Para quem lê em espanhol, o El País, da Espanha, também abriu suas portas.
20.04.07
No Vasco: Oscar Niemeyer - A Vida é um Sopro
Quais as grandes bilheterias do documentário brasileiro? Há alguma? Se já não está fácil para ficção nacional emplacar nas telas, imagine os documentários, esse gênero tão esnobado pelas platéias. Exceção é o festival É Tudo Verdade, mas as mostras de cinema viraram coqueluche por aqui, e se formam filas para filmes que, estivessem normalmente em cartaz, amargariam dias de solidão até serem varridos das salas, poucas.
A propaganda sempre é um bom recurso, mas essa divulgação não é para qualquer bolso, mesmo com a generosidade de nossas leis de incentivo à produção cinematográfica, que viabilizam filmes que nem mesmo são assistidos. Mas isto é assunto para um outro texto. O negócio é que, com exceções como a Globo Filmes, não há fonte de verba para publicidade na maior parte dos casos, e a repercussão da crítica especializada é o que pode salvar bons trabalhos do isolamento.
Pois os produtores do documentário Oscar Niemeyer – A Vida é Um Sopro, que estréia nesta sexta, estão tentando uma tática diferente. Em vez de torrarem a verba com publicidade, investiram de outra forma: compraram todos os ingressos para a primeira semana de seu filme em determinadas salas. O que isto significa? Que assistir ao filme sobre o arquiteto que inventou Brasília, o Auditório Ibirapuera, o Memorial da América Latina e o Copan está saindo de graça a partir de hoje, durante uma semana.
Fabiano Maciel, diretor do filme, espera que a cortesia atraia um bom número de espectadores, e estes forneçam o boca-a-boca tão vital à permanência de um filme brasileiro para mais de uma semana, e assim a coisa engrene.
Será? Tomara que sim.
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Onde ver Niemeyer de graça
São Paulo
- Cine Bombril Sala 2, às 18h. – Endereço: Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2.073).
Rio de Janeiro
- Unibanco Arteplex Sala 3, às 19h. Endereço: Praia de Botafogo, 316
Belo Horizonte
- Usiminas Belas Artes, às 19h30. Endereço: R. Gonçalves Dias, 1.581 – Lourdes.
Porto Alegre
- Unibanco Arteplex Sala 1, às 18h. – Endereço: Shopping Bourbon Country (R. Túlio de Rose, 80, 2º piso).
Curitiba
- Unibanco Arteplex Sala 1, às 18h30. Endereço: Shopping Crystal Plaza (R. Comendador Araújo, 731).
Brasília
- Cine Academia de Tênis, às 19h30. Endereço: Setor de Clubes Esportivos Sul.
- Embracine CasaPark, às 19h30. Endereço: Shopping CasaPark - SGCV Sul, lote 22.


Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.