25.07.08
Dia do Motorista: está certo obrigar o uso do cinto?
Entre as muitas contradições em que a legislação de trânsito no Brasil costuma se meter, uma me chama a atenção em especial, e me parece tão evidente que estranho o fato de nenhum especialista tocar no assunto: a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança.
Claro, eu uso o cinto. Está mais que provada sua eficiência em salvar vidas na eventualidade de uma batida de trânsito a uma velocidade moderada – se você bater a 120 km/h, não há sistema de segurança ou anjo da guarda que o salve. E, além disto, o cinto não me incomoda nem um pouco. Por que não usar?
O que não me entra na cabeça é a obrigatoriedade do uso diante de alguns fatos.
O mais chamativo: as motocicletas.
Um fulano no interior de um carro, trafegando despreocupadamente sem o cinto de segurança, sem air-bag e sem sistema ABS nos freios, ainda assim está mil vezes mais seguro que o mais cuidadoso motociclista. Se bater o carro a 35 km/h, sem cinto, e for um cara sortudo, é capaz de sair do acidente sem um arranhão no dedo. Mas o motociclista, na mesma colisão, tende a ir para a UTI, no mínimo.
Os carros são desenvolvidos com um conceito de célula de sobrevivência, que corresponde à parte da carroceria em que ficamos nós, motoristas e passageiros. Tudo ali é pensado para minimizar os efeitos de um impacto sobre os ocupantes. Além disto, capô e outras partes contam com “pontos fusíveis”, que são dobras colocadas ali exatamente para que essas peças se encolham gradualmente numa colisão, absorvendo a energia do impacto que seria transferida para as pessoas no interior do carro.
E na moto? Basta um suave contato com outro veículo, com a motocicleta em movimento, para que motociclista e garupa voem longe, engordando as estatísticas de óbitos no trânsito.
Eu penso que tanto motorista quanto motociclista deveriam ter direito a decidir sobre o risco que estão correndo. Se alguém está dirigindo embriagado ou em velocidade excessiva, é diferente, porque aí coloca a vida de outros em risco. Mas se dirige sem cinto ou se aventura na moto, o risco é dele.
Mas o problema não é individual, rebateriam as autoridades de trânsito. Cada vítima de acidente automobilístico traz consigo um problemão para a sociedade: engarrafa o trânsito, aumenta as contas da saúde pública, deixa uma família desamparada e sem recursos... um estorvo.
Ok, mas, sendo assim, e levando em consideração o fato de que, hoje, com a expansão do motofrete, os motociclistas encabeçam qualquer índice de vítimas de trânsito, como não proibir as motos? Produzem muito mais insegurança e prejuízos à sociedade que a falta de cinto. Fica claro que há dois pesos e duas medidas nesta questão.
Parece-lhe óbvio que todo cidadão com um mínimo de amor à vida use o cinto? E que, com a obrigatoriedade, vivemos numa sociedade mais segura e zelosa de seus motoristas? Então lhe conto uma novidade: numa colisão, de nada adianta os ocupantes da parte da frente do veículo usarem o cinto se há pessoas na parte de trás sem usar.
Numa colisão frontal, os passageiros da parte traseira, sem cinto, são arremessados para a frente, e a desaceleração faz com que o peso da pessoa seja aumentado em 15 vezes ou mais. Ou seja, se você é um cara de 70 kg, na batida você se transforma num mamute de mais de uma tonelada, sendo arremessado de encontro aos passageiros da frente, de encontro ao pára-brisa, de encontro à fatalidade (sua e dos passageiros da frente, que serão esmagados).
E quem usa religiosamente o cinto de segurança no banco de trás? Não conheço ninguém. E pago um sorvete de pistache ao escolhido dos céus que já tiver sido parado pela fiscalização de trânsito por ter passageiro sem cinto no banco de trás.
Mas a moda é a da “lei seca”, que dá visibilidade às autoridades e a idéia de que “estão fazendo alguma coisa”... até a moda passar.
18.07.08
"Lei seca" e mau humor na sexta-feira
Recebi a newsletter da 2001 Vídeo, divulgando seus lançamentos de DVDs para venda. Tive pena dos pobres diabos que vão gastar R$ 44,90 em Antes de Partir, provavelmente o pior filme do Rob Reiner, o pior filme do Jack Nicholson e o pior do Morgan Freeman também. Tive pena dos atores que, vá lá, fizeram sua parte, mas não evitaram o naufrágio. Esconderam o roteiro deles até o começo das filmagens? Não imagino como se meteram naquilo.
Se estou de mau humor em plena sexta-feira? De modo nenhum, porque as manhãs de sexta são sempre luminosas, não importa o tempo lá fora, e é inclusive o dia em que mais gosto de ir para a empresa, quando todos estão felicíssimos um com o outro - e principalmente com a certeza de que não se encontrarão no dia seguinte, não baterão seus cartões de ponto nem arrumarão suas gravatas.
Domingo é a melancolia, sábado é o êxtase, mas a verdadeira felicidade está na sexta; a própria antevisão desta felicidade contagia a quinta, dia que bate seus iguais de longe, esses que acabam com o termo feira – excluindo a sexta, óbvio, que não tem concorrentes.
Os catastrofistas e os inclinados à depressão acreditam que as sextas e sábados não serão os mesmos por causa da “lei seca”, que nos impede de pegar o carro no fim da balada, mas eu não creio muito nisto.
Primeiro porque a atração pelo caneco dribla qualquer inconveniência, e dos amigos mais biriteiros não vi nenhum passar as últimas semanas a seco; houve os que foram apresentados ao transporte público, houve os que decidiram beber nas proximidades de casa, e ainda os que tentaram a sorte contra a fiscalização vigente. Digo vigente porque não aposto que continue policiando com seus etilômetros e ameaças de prisão por muito tempo. Para o bem, para terminar com os exageros que têm sido cometidos, e para o mal também, pois a irresponsabilidade ao volante vai voltar a ser o que mais se vê.
Mas são tempos mal humorados, não?
Porém, hoje, não. Hoje tem estréias do Batman sombrio de Nolan e de Nome Próprio, do Murilo Salles, e o dia está claro, e haverá bons shows nos Sescs amanhã, inclusive um com Tom Zé e Roberta Sá cantando a Tropicália, e tem exposição da Bossa Nova no Ibirapuera, e já combinei um teatro no domingo à noite para distrair minha percepção de que será domingo, mas não tem jeito, domingo é domingo mesmo com o time ganhando, com o almoço da mãe e com teatro à noite... mas fica mais leve assim.
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Será que Jack Nicholson começa a passar por aquela escassez de bons papéis a que os atores septuagenários (está com 71) são condenados? Até ele? Tomara que não.
01.02.08
O pecado mortal dos fumantes
Almocei esses dias com o jornalista Bob Sharp, experiente colunista da revista Quatro Rodas e que também escreve na internet. Bob é um ótimo papo, cheio de histórias para contar. Disse que houve tempo em que as pessoas precisavam usar gravata no exame da auto-escola, e que, por isso, havia espertinhos alugando gravatas nas imediações dos locais das provas. Uma faceta que eu desconhecia do jeitinho brasileiro relacionado à licença para dirigir. Mas o assunto principal do almoço era outro: segurança no trânsito.
Falávamos de como o uso do celular e o ato de fumar ao volante podem provocar acidentes. Distração era o tema, e Bob lembrou lucidamente que celular e cigarro são marcados como vilões, enquanto o motorista pode se distrair com qualquer coisa, e com isso provocar um acidente: ao mexer no rádio do carro (eu mesmo já provoquei uma batida ridícula por esse motivo), ao reparar na moça que passa, ao procurar um endereço, olhando para as placas, ao conversar com a pessoa do lado, ao pensar na vida.
Na opinião de Bob, o acidente por distração se relaciona muito mais com o poder de concentração de cada um, que é variável. Um cara que mantém o foco no trânsito pode falar dez minutos ao celular e não entrar numa situação de risco, enquanto uma pessoa desligada, que esteja com a cabeça nas contas do fim do mês, pode ser uma bomba ambulante no trânsito.
Pelo que entendi, Bob é contra a proibição de celular e cigarros dentro do carro. E contra outras proibições. “Desse jeito, o carro vai virar uma cela”, ele reclamava.
Este tipo de preocupação parece típico em jornalistas especializados em automóveis e apaixonados por isso, que associam o ato de dirigir a uma sensação de prazer, a uma forma de desfrutar a vida.
No final do almoço, Bob perguntou ao garçom se aquela era uma área em que fumar era permitido e, com a afirmação positiva, acendeu um cigarro, parecendo tirar disso grande prazer. Bob Sharp me deu a impressão de um sujeito que gosta da vida, e que gostaria de preservar os diversos gostos que o levam a pensar assim.
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“Há poucas coisas que me dêem tanto prazer quanto fumar um cigarro junto com o café depois do almoço”, me disse certa vez um amigo fumante. Eu nunca tirei a prova porque não fumo, nunca fumei. Mas dava para perceber que ele realmente curtia a coisa. Nesses momentos, tenho inveja dos fumantes. Mas só aí. De resto, começo a ter pena.
Não porque tenham muito mais chances de desenvolver algum tipo de câncer, tenham pouco fôlego ou fiquem com os dentes amarelados e frágeis. Com o tanto de informação que temos a respeito hoje em dia, o fumante sabe no que está se metendo. Sabe que o cigarro vicia e sabe dos riscos à saúde.
Começo a ter pena porque o fumante é o principal perseguido de uma campanha limpinha, politicamente correta e anti-hedonista que agora está chegando a um ponto que afronta o senso de quem não é desses tempos puritanos. A necessária e louvável iniciativa de se proibir a publicidade do cigarro e a venda a menores de idade tem sido seguida por proibições outras que estão castrando sem dó fumantes de diversas partes do mundo. Eu jamais sonharia que um país de tradição boêmia como a França proibiria, como proibiu, fumar nos bares, cafés e casas noturnas. Nos cafés...
Por lá, abriram uma única exceção para quem deseja fumar em lugares públicos. Bares e restaurantes podem construir “fumódromos”, claustros separados da gente de bem, que não poderão ultrapassar 35 metros quadrados. Após a saída do último fumante, o empregado responsável pela limpeza terá de esperar uma hora, por precaução, antes de entrar no local. E com máscaras de oxigênio, e só após ter assinado uma declaração de doação de órgãos caso venha a morrer, vítima dos efeitos terríveis dos resíduos de fumaça. O pulmão não prestará, melhor doar os olhos.
Confesso: as máscaras de oxigênio e o que vem depois é fantasia minha. Por enquanto. Mas as precauções para limpeza são de verdade.
Descobriram também que a execução da lei-seca (“o fim da happy-hour”) diminui os índices de assassinatos em bairros violentos. Acrescento que a redução de seres humanos em tais bairros igualmente reduziria assassinatos, atropelamentos e porres. Logo, logo, um gênio terá a idéia também de proibir o consumo de bebidas alcoólicas. Já tenho lido por aí que “não há como beber com moderação”, “a bebida destrói o indivíduo e a família”, e outras constatações geniais.
Bom mesmo será o dia em que ficaremos trancados dentro de casa, de um hospital ou de uma academia de ginástica (melhor fazer a ginástica em casa; atravessar a rua implica uma série terrível de riscos), imunes ao cigarro, ao vinho, ao chocolate, à carne vermelha, aos inúmeros danos que a paixão nos provoca e ao resfriado.
E engoliremos, religiosamente, nossos prozacs desenvolvidos com o intuito difícil de nos fazer gostar da vida.
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Meu pai deixou de entrar em shopping center quando se proibiu o fumo em seus corredores. E um amigo meu, com quem tenho o costume de debater livros, discos e filmes (quando deixamos o debate sobre niilismo de lado), confessou-me outro dia que não vai mais ao cinema porque o angustia a perspectiva de duas horas ou tanto impedido de fumar. Não que ele não fique duas horas sem fumar; de certa forma, até fuma pouco. É a proibição que o aflige.
Triste restrição para o amigo, mas meu pai saiu no lucro. Tinha a desculpa perfeita para evitar vésperas de vésperas de Natal no shopping.
16.01.08
Motociclista é o novo fumante
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, anunciou que, a partir do dia 11 de fevereiro, as motocicletas serão proibidas de circular nas vias expressas das Marginais do Tietê e do Pinheiros. A medida visa à redução de acidentes envolvendo motos nas Marginais: em 2006, foram 740 acidentes, dos quais dois terços aconteceram nas expressas (os dados de 2007 ainda não foram divulgados).
É claro que os motociclistas, especialmente os motoboys, não gostaram nada da decisão. As associações dos profissionais prometem reclamar, paralisar avenidas, a Paulista que se cuide. Como também não estão nada satisfeitos com a ameaça de proibição da simpática garupa: um projeto de lei do vereador Jooji Hato, do PMDB, sugere a proibição do transporte de passageiros nas garupas das motos. Kassab já disse que é a favor do projeto, que ainda vai passar por votação na Câmara.
Proibir a garupa? Esses vereadores não têm mais nada para fazer? Calma... o projeto se baseia na constatação de que muitos dos assaltos realizados no trânsito paulistano são feitos por duplas em motos: enquanto um dirige, o outro aponta a arma e nos leva os caraminguás. Sérgio Cabral, no Rio, defende a mesma coisa.
Quer mais? O Contran (Conselho Nacional de Trânsito) agora obriga o uso de capacetes com certificação do Inmetro. Ou seja, quem tem capacete sem o selo precisa colocar a mão no bolso.
Especialistas de trânsito e de legislação se dividem na defesa e no ataque a essas medidas, apontando ineficiência aqui, incompatibilidade com a Constituição ali, salvação da pátria acolá... O fato é que, pelo menos em São Paulo, cada vez mais o motociclista é visto com antipatia, tanto pelos motoristas de carros quanto pelas autoridades de trânsito. Os assaltantes vêm de moto; os motoboys nos chutam o retrovisor e nos entopem os ouvidos com suas buzinas, avisando ou ameaçando da passagem em alta velocidade pelos estreitos espaços entre as filas de carros; os acidentes envolvendo motoboys se multiplicam pelas vias paulistanas. Andar de moto começa a pegar tão mal quanto acender um cigarro no restaurante.
E o que o motociclista que respeita o trânsito, não assalta nem se arrisca, tem a ver com isto? Paga injustamente pelo mau comportamento dos outros, é claro.
Mas não pode alegar jamais que motocicleta seja um meio de transporte seguro. Enquanto os motoristas de carros são obrigados a usar cinto de segurança, o que segura as pessoas sobre os bancos das motos? A fé em Deus e na própria perícia, se tanto. Basta a encostadinha de um carro para que o motociclista seja atirado para longe, na direção de fraturas múltiplas ou do pior. Jô Soares, depois de seguidas quedas que lhe quebraram os dois braços (e olhe que ele caiu com a moto parada), desistiu das motocas para sempre com a seguinte conclusão: “Moto só tem duas rodas; é feita para cair”.
Alguém sem cinto dentro do carro está muito mais seguro do que estaria sobre uma motocicleta, pois o carro tem uma célula de sobrevivência no espaço destinado a motorista e passageiros, protegida por uma carroceria com tecnologia de deformação programada, que visa a reduzir tanto quanto possível a transmissão da energia do impacto de uma batida aos ocupantes do veículo. Num raciocínio lógico, se o tráfego de motos é permitido, o cinto no carro não deveria ser obrigatório.
Décadas atrás, a motocicleta era um símbolo de liberdade e inconformismo com os padrões estabelecidos. É provável que ainda hoje ela tenha este significado para muitos dos que compram suas motos pensando na viagem para o interior no fim de semana, a sensação do vento desimpedido por um pára-brisa. Mas a verdade é que, no violentíssimo trânsito dos nossos dias, tais sentimentos não tornam a moto um meio de transporte menos inseguro. Para o próprio motociclista e para os outros.
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Quer mais informações sobre acidentes com motocicletas? O Cesvi Brasil (Centro de Experimentação e Segurança Viária) apresenta em seu site um estudo europeu que investigou 921 acidentes com motos. Clique aqui e conheça as conclusões do trabalho. A página também traz dicas de segurança e boa convivência entre motos e carros no trânsito.
21.07.07
Um avião cai a cada dois dias, e ninguém dá bola
Acompanho a Folha de S. Paulo diariamente. Hoje é sábado, o acidente com o avião da TAM aconteceu na terça, e pela quarta vez consecutiva o jornal deu a manchete principal da primeira página para assuntos relacionados à tragédia. Sim, uma grande tragédia. Morreram cerca de 200 pessoas. Um avião fez um rasante sobre uma das avenidas mais movimentadas do País, em horário de rush, e acertou um prédio em que eu ou você poderíamos estar trabalhando, fechando nossas gavetas, dando um último olhar ao relógio, já pensando no trânsito antes de ir para casa. A empatia com as vítimas e a proximidade do acidente, que não aconteceu na Ásia, mas com nossos vizinhos, aumentam o espanto, o ultraje, a sensação de que aqueles corpos carbonizados poderiam ser o meu e o seu.
Um acidente dessas proporções com um avião não acontece todo dia. Tem uma qualidade cinematográfica. E o que não vemos, o horror dos mutilamentos e queimaduras no interior da aeronave, estimula a imaginação e o voyeurismo de cada leitor, de cada espectador, fazendo com que as primeiras páginas busquem o faturamento de que os jornais tanto correm atrás.
Aí, no miolo da publicação, sabemos da história do homem que deixou de embarcar no malfadado vôo por um capricho do acaso. “Nasci de novo”, ele comemora, com a fugaz intenção de ser um marido, um amigo e um pai melhor. Sabemos da história de famílias inteiras que terminaram quando o piloto precisou arremeter. Sabemos daquela personalidade da política ou do futebol que estava no avião, certa de um destino glorioso. Seria um filme de Robert Altman, com trajetórias paralelas que participam inconscientemente de uma imagem maior, como as peças de um mosaico dramático.
Morreram 200 pessoas. Quantas histórias, esta reportagem pode render... Ficamos então com a tragédia cinematográfica na cabeça, nos jornais, nas TVs, nas conversas de bar, na firma, pois um avião não cai todo dia. Claro, é o acidente do ano. Providências deveriam ter sido tomadas, houve negligência, incompetência, os interesses comerciais estiveram à frente da segurança da população, alguém precisa ir para a cadeia, o presidente tem que ser deposto, afinal caiu um avião. Os editoriais terão assuntos para semanas. Um acidente desses não acontece todo dia.
Sabe o que acontece todo dia? Acidente de carro. Mas, a não ser que envolva o jogador Edmundo, um artista da Malhação ou mate uma cantora decadente, a tragédia, aqui, não rende uma primeira página. Pois é um evento isolado. Aderbal Mantovani, gerente de uma agência de turismo, é vítima de acidente fatal na Dutra. No máximo, uma nota no caderno de cotidiano.
Mas o fato de ser apenas a morte isolada de um desconhecido não explica sozinho o desinteresse dos jornais, dos blogs, do horário nobre da Globo. O balançar de ombros também vem do fato de que tal acidente é, ao contrário da tragédia aérea, cotidiano. Porque morre gente todo dia em acidentes automobilísticos. “Ah, mas no acidente da TAM morreram 200 pessoas”, revolta-se o leitor dessas mal traçadas, que sabe de cor o nome de cada passageiro envolvido. Sim, meu caro, mas, nas ruas e rodovias nacionais, cai um avião da TAM a cada dois dias. Morrem 35 mil brasileiros, todos os anos, em acidentes automobilísticos. E não estão nesta conta, digna dos horrores da guerra, os sobreviventes: os mutilados, os paralíticos, os traumatizados. E não estão nesta conta os prejuízos individuais e coletivos provocados por tais acidentes. E não está nesta conta o drama de famílias inteiras que terminam porque algum bêbado quis arriscar na mudança do amarelo para o vermelho. A conta não lembra a criança que escapou de morrer com os pais porque insistiu em dormir na casa dos primos, e assim nasceu de novo, órfão.
A conta não deve dar a entender o tamanho da tragédia, pois o presidente Lula conhece esses números, a diretoria do Denatran os conhece de cabeça. As montadoras têm acesso a eles, mas insistem em sua publicidade com ênfase na esportividade do modelo. Que até o mau entendedor traduz para “com meu carro, você corre mais do que com o do concorrente”.
Conheço pessoalmente o coordenador do Prêmio Volvo de Segurança no Trânsito, um profissional extraordinário chamado J. Pedro Corrêa, que dedica parte significativa da sua vida a chamar a atenção das autoridades para a tragédia dos acidentes automobilísticos. Que nem sempre são cinematográficos, que raramente ganham destaque nos jornais, que não depõem presidentes. Recentemente, J. Pedro escreveu um artigo emocionante para uma revista da qual sou editor, desabafando a frustração com o descaso crônico de quem precisaria tomar medidas. Um trecho: “De vez em quando, ao analisar o quadro complicado do nosso trânsito, me pergunto se temos soluções para ele. Sempre temos. Ora, se sabemos o que fazer, porque não fazemos? É daí que vem a suspeita de que talvez não nos convenha."
Negligência, incompetência, interesses econômicos à frente da segurança da população... É, mas deixemos para lá. O avião dá mais ibope.



Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.