12.06.09
A idéia de jerico da "torcida única"
Parece-me óbvia a escolha do lado certo na questão da "torcida única". Para quem não imagina do que estou falando, as violências recentes perpetuadas por idiotas de torcidas organizadas fizeram com que outros idiotas chegassem a esta conclusão: se, num jogo do Palmeiras contra o São Paulo, por exemplo, só permitirmos a entrada dos torcedores do Palmeiras, não haverá confronto entre torcidas e, portanto, não haverá violência nos estádios.
Sim, não haverá violência, nem graça em torcer. Nem estímulo para o time que jogará sem o apoio da sua torcida. Nem o que entendemos (ou entendíamos) por um jogo de futebol.
O problema são os bandidos? Só pode ser, porque, mesmo que meu time (que é o Palmeiras) perca de 9 x 0 para o Santos, o Corinthians ou o Asa de Arapiraca, eu jamais terei ímpetos de disparar um revólver contra um torcedor santista, corintiano ou arapiraquense (ou seja lá como se chamam os torcedores do Asa, time que deixou tristes lembranças ao meu Verdão). E bandido, que me lembre, é caso de polícia.
A violência, na maioria das vezes, se dá fora do estádio: nas redondezas, nas estações do metrô... A emboscada que matou o corintiano, dias atrás, foi na Marginal, longe do campo de jogo. Era caso de polícia.
Antes de proibir o torcedor de beber cerveja no estádio, de levar bandeiras, de usar a camisa do time do coração, de ir ao estádio em clássicos, as autoridades deveriam proibir a impunidade e a falta de educação.
A noção de que é punido se comete um crime, e punido de forma rigorosa, leva o vândalo mais descerebrado a hesitar diante da possibilidade de uma violência. E, de hesitação em hesitação, uma ponta de luz pode surgir nos recônditos de sua cabeça pouco estimulada, levando as sinapses à seguinte evidência: “não vale a pena”.
A idéia da “torcida única”, me parece, é de quem não acredita que possamos conviver de forma civilizada. É de quem desistiu do ser humano. E segue essa tendência perigosa de proibir tudo, de higienizar a sociedade, evitar que nossos instintos animais andem à solta. Querem levantar grades, evitar encontros, cheiros, beijos; abraços podem transmitir doenças ou estimular um confronto físico, uma luta. Logo não teremos capacidade de diferenciar um abraço de uma briga.
19.02.08
O verdadeiro baú do futebol
Descobri, faz pouco mais de um mês, o site do Globo Esporte. Cheguei lá procurando novidades sobre contratações do Palmeiras, este meu bem e mal incuráveis, mas constatei que os sites do Lance, da Gazeta Esportiva e do Globo Esporte dão sempre as mesmas notícias, freqüentemente com os mesmos títulos. O jornalismo esportivo, como já apontou um blog vizinho, é de uma mediocridade que o nosso futebol, tão rico de histórias e fatos novos, todos os dias, não merecia. Denílson, ponta esquerda à antiga, recém contratado pelo Verdão, chegou dizendo que não comemoraria se fizesse gol contra seu ex-clube, depois mudou de idéia, e isso rendeu centenas de notas, e às vezes manchetes, em nossos mornos periódicos peladeiros. Mas isso é assunto para outra conversa.
O que me agradou no site do Globo Esporte foi a disponibilidade de vídeos. Como a TV aberta agora só quer saber da audiência dos corintianos, o site é uma opção para conferir os compactos dos jogos do seu time. E na hora que você quiser.
Mas o melhor de tudo é a seção Recordar é viver. Nela, o site reproduz vídeos de fatos do esporte acontecidos no dia da visita, mas há muitos anos. Dia desses, assisti aos melhores momentos de um jogo da Seleção Brasileira em 1981, sob o comando de mestre Telê Santana, nos preparativos para a inesquecível Copa de 82. Brasil 6 a 0 no Equador, com dois gols de Reinaldo (lembra? atacante do Atlético, elegante e implacável ao mesmo tempo), dois de Sócrates, um de Éder e um de Zico. Imagens oníricas daquele time que não era um bando de superatletas milionários e desentrosados, mas uma orquestra de muitos maestros (o galinho, o doutor, Falcão, Júnior...) e outros bambas. Como disse bem meu sogro, gente do “Brasil que ganhava de goleada”. E dava show.
Hoje, tempos tão mais tristes, juntamos Robinho, Fenômeno, Kaká, Ronaldinho Gaúcho, os melhores do mundo, e passamos sufoco para ganhar dos pernas-de-pau da Irlanda e de outros países que não nasceram para isso.
Outro dia, outra pérola: um magrelo Romário dando entrevista no dia de sua estréia como titular pelo Vasco, imagem de um tempo em que The Cure e Smiths lotavam as danceterias de darks e neo-românticos.
Quer mais? Como os arquivos são do Globo Esporte, cada reportagem vem apresentada por um Léo Batista ou um Fernando Vanucci de uma época diferente. E dá-lhe camisa de gola dos anos 70, estampas black-power e demais excessos tão incomuns nos programas esportivos dos dias de hoje. Léo era mais discreto, mas o Vanucci... Parecia figurante da novela Dancing Days.
Ah, ia esquecendo. Um dos vídeos a que assisti mostrava uma entrevista com Casagrande após um empate do alvi-negro, na época da Democracia Corintiana. Ele estava fumando no vestiário enquanto falava com o repórter. Quando a gente vê isso hoje em dia?
* * *
Para os palmeirenses, recomendo o “Blog do torcedor”, na página do time, no site do Globo Esporte. Textos muito bons do publicitário Roberto Galluzzi Jr., combinando na medida certa o entusiasmo com o time com uma visão lúcida do que vê em campo.
E ele está jurando que 2008 é nosso ano.
14.09.07
Ronaldo Fenômeno em Os Simpsons
Estou rindo até agora com este trecho de Os Simpsons com a participação do Ronaldo Fenômeno. Para ver, clique aqui. Infelizmente, por enquanto, só em inglês.
A atuação de Homer, como juiz, parece a de muitos árbitros nacionais. Mas ele supera os concorrentes pela imprevisibilidade. Pelo menos, até agora, ainda não vi nenhum imitando o Zidane (veja no desenho).
Reforça a impressão geral de que há episódios de Os Simpsons melhores que o longa-metragem que está em cartaz. Mas, repetindo o clichê dos comentários sobre os últimos Woody Allen, um Simpsons mediano ainda é melhor que 90% das comédias recentes. Eu gostei. Três estrelas, de um total de cinco (classificação da Revista Paisà).
Não esqueça de ver o desenho com o Ronaldo.
04.09.07
Bar não é sala de TV
Epidemia que sempre avança, a galope de sorrisos anestesiados que sempre aceitam, a TV chegou ao último recôndito da reflexão: o botequim.
Sorrateiros, os aparelhos foram se instalando no alto das paredes de azulejos brancos com a fingida inocência de quem não é dali, e só quer, no máximo, transmitir as frustrações de um ou outro clássico (não, cinéfilos, nada de filmes de Hitchcock, que nunca frustram, e sim partidas de futebol entre rivais tradicionais; ainda que, na prática recente, pouco ou nada tenham do ideal canônico que caracteriza o adjetivo).
Hoje, as TVs têm presença certa nos mais variados tipos de bar, atrapalhando, com sua hipnose emburrecedora, conversas, paqueras, primeiros beijos, planos de conquistar o mundo. E assim naufragam idéias para novos livros, filmes, discos, peças, partidos políticos, posições sexuais, e o cálculo mental de quantos chopes passaram pela mesa.
Dá um desgosto, deparar com TV em bar. Irritam, os monossílabos de quem me olha por cima do ombro, mais interessado no movimento labial do Tony Ramos ou da Camila Pitanga. Sim, imagino que seja complicado desviar a atenção do movimento de lábios da Camila Pitanga, mas há o sofá de casa para a novela; o bar é platéia de outros dramas e comédias.
Bares paulistanos que mimetizam os botecos tradicionais do Rio dão preferência à programação esportiva em suas TVs sem som. E se é mais fácil entender o porquê de transmitirem os jogos do campeonato brasileiro, para mim é de um absurdo risível (e veja que tenho o desgraçado vício do torcedor) que tais bares deixem os monitores apresentando os programas de debate esportivo. Como a TV permanece muda, o debate não existe, só a imagem de comentaristas excessivamente exaltados, defendendo este ou aquele esquema de jogo, ou tentando azucrinar um técnico derrotado no fim de semana.
O que esta pantomima contribui para o charme do bar? Não conheço ninguém que escolha o lugar onde vai beber de acordo com o comentarista esportivo a gesticular. Se este critério vingasse, eu haveria de escolher os que transmitem o programa do “imparcial” Roberto Avallone, com seus trejeitos de Chaplin imitando Hitler em O Grande Ditador.
Há outros bares, mais “culturais”, que apresentam DVDs de shows de música. Mas a pantomima se repete, pois o som quase nunca é o das cenas que se alternam na TV. E é de endoidecer, pois vemos Mick Jagger se contorcendo num palco enquanto ouvimos o último hit aeróbico da Ivete Sangalo. O contrário seria menos desagradável.
Escrevendo um artigo sobre os melhores botecos “escondidinhos” de São Paulo, destaquei três que, além de serem os melhores na minha opinião, coincidentemente não ligam TVs em todo canto: Bar Léo, Bar do Luiz Nozoie e Rancho Nordestino. Este último tem uma TV, sim, mas que só liga em final de copa ou luta do Popó. Todas as noites restantes são dedicadas tão-somente a seus caldinhos de fava, seus jabás em pedaço e ao bate-papo descompromissado, o passar descuidado das horas. Sem o grande irmão a observar seu público cativo.

Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.