11.06.09
Hecatombe coreana
Parece piada de mau gosto. O mundo se livra de um abutre do calibre de George W. Bush, comemora a eleição de um democrata, culto, negro, sensato, humanista, para o posto de homem mais poderoso do mundo. E eis que Obama, dadas as circunstâncias, corre o risco de ser o primeiro presidente americano a apertar o botão vermelho da bomba nuclear, pós-Hiroshima.
Se chegarem à conclusão de que a Coréia do Norte já tem capacidade de atirar primeiro, não acho que os Estados Unidos esperarão pelo pior.
E é um dilema dos diabos. Cada vez mais, as nações tresloucadas terão acesso a armas de destruição em massa.
O que fazer, então? Matar todos os loucos antes que eles resolvam explodir o planeta? Ou, aí, os loucos seríamos nós?
Eu é que não queria ter de ir para cama pensando nisso.
16.01.08
Motociclista é o novo fumante
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, anunciou que, a partir do dia 11 de fevereiro, as motocicletas serão proibidas de circular nas vias expressas das Marginais do Tietê e do Pinheiros. A medida visa à redução de acidentes envolvendo motos nas Marginais: em 2006, foram 740 acidentes, dos quais dois terços aconteceram nas expressas (os dados de 2007 ainda não foram divulgados).
É claro que os motociclistas, especialmente os motoboys, não gostaram nada da decisão. As associações dos profissionais prometem reclamar, paralisar avenidas, a Paulista que se cuide. Como também não estão nada satisfeitos com a ameaça de proibição da simpática garupa: um projeto de lei do vereador Jooji Hato, do PMDB, sugere a proibição do transporte de passageiros nas garupas das motos. Kassab já disse que é a favor do projeto, que ainda vai passar por votação na Câmara.
Proibir a garupa? Esses vereadores não têm mais nada para fazer? Calma... o projeto se baseia na constatação de que muitos dos assaltos realizados no trânsito paulistano são feitos por duplas em motos: enquanto um dirige, o outro aponta a arma e nos leva os caraminguás. Sérgio Cabral, no Rio, defende a mesma coisa.
Quer mais? O Contran (Conselho Nacional de Trânsito) agora obriga o uso de capacetes com certificação do Inmetro. Ou seja, quem tem capacete sem o selo precisa colocar a mão no bolso.
Especialistas de trânsito e de legislação se dividem na defesa e no ataque a essas medidas, apontando ineficiência aqui, incompatibilidade com a Constituição ali, salvação da pátria acolá... O fato é que, pelo menos em São Paulo, cada vez mais o motociclista é visto com antipatia, tanto pelos motoristas de carros quanto pelas autoridades de trânsito. Os assaltantes vêm de moto; os motoboys nos chutam o retrovisor e nos entopem os ouvidos com suas buzinas, avisando ou ameaçando da passagem em alta velocidade pelos estreitos espaços entre as filas de carros; os acidentes envolvendo motoboys se multiplicam pelas vias paulistanas. Andar de moto começa a pegar tão mal quanto acender um cigarro no restaurante.
E o que o motociclista que respeita o trânsito, não assalta nem se arrisca, tem a ver com isto? Paga injustamente pelo mau comportamento dos outros, é claro.
Mas não pode alegar jamais que motocicleta seja um meio de transporte seguro. Enquanto os motoristas de carros são obrigados a usar cinto de segurança, o que segura as pessoas sobre os bancos das motos? A fé em Deus e na própria perícia, se tanto. Basta a encostadinha de um carro para que o motociclista seja atirado para longe, na direção de fraturas múltiplas ou do pior. Jô Soares, depois de seguidas quedas que lhe quebraram os dois braços (e olhe que ele caiu com a moto parada), desistiu das motocas para sempre com a seguinte conclusão: “Moto só tem duas rodas; é feita para cair”.
Alguém sem cinto dentro do carro está muito mais seguro do que estaria sobre uma motocicleta, pois o carro tem uma célula de sobrevivência no espaço destinado a motorista e passageiros, protegida por uma carroceria com tecnologia de deformação programada, que visa a reduzir tanto quanto possível a transmissão da energia do impacto de uma batida aos ocupantes do veículo. Num raciocínio lógico, se o tráfego de motos é permitido, o cinto no carro não deveria ser obrigatório.
Décadas atrás, a motocicleta era um símbolo de liberdade e inconformismo com os padrões estabelecidos. É provável que ainda hoje ela tenha este significado para muitos dos que compram suas motos pensando na viagem para o interior no fim de semana, a sensação do vento desimpedido por um pára-brisa. Mas a verdade é que, no violentíssimo trânsito dos nossos dias, tais sentimentos não tornam a moto um meio de transporte menos inseguro. Para o próprio motociclista e para os outros.
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Quer mais informações sobre acidentes com motocicletas? O Cesvi Brasil (Centro de Experimentação e Segurança Viária) apresenta em seu site um estudo europeu que investigou 921 acidentes com motos. Clique aqui e conheça as conclusões do trabalho. A página também traz dicas de segurança e boa convivência entre motos e carros no trânsito.
21.07.07
Um avião cai a cada dois dias, e ninguém dá bola
Acompanho a Folha de S. Paulo diariamente. Hoje é sábado, o acidente com o avião da TAM aconteceu na terça, e pela quarta vez consecutiva o jornal deu a manchete principal da primeira página para assuntos relacionados à tragédia. Sim, uma grande tragédia. Morreram cerca de 200 pessoas. Um avião fez um rasante sobre uma das avenidas mais movimentadas do País, em horário de rush, e acertou um prédio em que eu ou você poderíamos estar trabalhando, fechando nossas gavetas, dando um último olhar ao relógio, já pensando no trânsito antes de ir para casa. A empatia com as vítimas e a proximidade do acidente, que não aconteceu na Ásia, mas com nossos vizinhos, aumentam o espanto, o ultraje, a sensação de que aqueles corpos carbonizados poderiam ser o meu e o seu.
Um acidente dessas proporções com um avião não acontece todo dia. Tem uma qualidade cinematográfica. E o que não vemos, o horror dos mutilamentos e queimaduras no interior da aeronave, estimula a imaginação e o voyeurismo de cada leitor, de cada espectador, fazendo com que as primeiras páginas busquem o faturamento de que os jornais tanto correm atrás.
Aí, no miolo da publicação, sabemos da história do homem que deixou de embarcar no malfadado vôo por um capricho do acaso. “Nasci de novo”, ele comemora, com a fugaz intenção de ser um marido, um amigo e um pai melhor. Sabemos da história de famílias inteiras que terminaram quando o piloto precisou arremeter. Sabemos daquela personalidade da política ou do futebol que estava no avião, certa de um destino glorioso. Seria um filme de Robert Altman, com trajetórias paralelas que participam inconscientemente de uma imagem maior, como as peças de um mosaico dramático.
Morreram 200 pessoas. Quantas histórias, esta reportagem pode render... Ficamos então com a tragédia cinematográfica na cabeça, nos jornais, nas TVs, nas conversas de bar, na firma, pois um avião não cai todo dia. Claro, é o acidente do ano. Providências deveriam ter sido tomadas, houve negligência, incompetência, os interesses comerciais estiveram à frente da segurança da população, alguém precisa ir para a cadeia, o presidente tem que ser deposto, afinal caiu um avião. Os editoriais terão assuntos para semanas. Um acidente desses não acontece todo dia.
Sabe o que acontece todo dia? Acidente de carro. Mas, a não ser que envolva o jogador Edmundo, um artista da Malhação ou mate uma cantora decadente, a tragédia, aqui, não rende uma primeira página. Pois é um evento isolado. Aderbal Mantovani, gerente de uma agência de turismo, é vítima de acidente fatal na Dutra. No máximo, uma nota no caderno de cotidiano.
Mas o fato de ser apenas a morte isolada de um desconhecido não explica sozinho o desinteresse dos jornais, dos blogs, do horário nobre da Globo. O balançar de ombros também vem do fato de que tal acidente é, ao contrário da tragédia aérea, cotidiano. Porque morre gente todo dia em acidentes automobilísticos. “Ah, mas no acidente da TAM morreram 200 pessoas”, revolta-se o leitor dessas mal traçadas, que sabe de cor o nome de cada passageiro envolvido. Sim, meu caro, mas, nas ruas e rodovias nacionais, cai um avião da TAM a cada dois dias. Morrem 35 mil brasileiros, todos os anos, em acidentes automobilísticos. E não estão nesta conta, digna dos horrores da guerra, os sobreviventes: os mutilados, os paralíticos, os traumatizados. E não estão nesta conta os prejuízos individuais e coletivos provocados por tais acidentes. E não está nesta conta o drama de famílias inteiras que terminam porque algum bêbado quis arriscar na mudança do amarelo para o vermelho. A conta não lembra a criança que escapou de morrer com os pais porque insistiu em dormir na casa dos primos, e assim nasceu de novo, órfão.
A conta não deve dar a entender o tamanho da tragédia, pois o presidente Lula conhece esses números, a diretoria do Denatran os conhece de cabeça. As montadoras têm acesso a eles, mas insistem em sua publicidade com ênfase na esportividade do modelo. Que até o mau entendedor traduz para “com meu carro, você corre mais do que com o do concorrente”.
Conheço pessoalmente o coordenador do Prêmio Volvo de Segurança no Trânsito, um profissional extraordinário chamado J. Pedro Corrêa, que dedica parte significativa da sua vida a chamar a atenção das autoridades para a tragédia dos acidentes automobilísticos. Que nem sempre são cinematográficos, que raramente ganham destaque nos jornais, que não depõem presidentes. Recentemente, J. Pedro escreveu um artigo emocionante para uma revista da qual sou editor, desabafando a frustração com o descaso crônico de quem precisaria tomar medidas. Um trecho: “De vez em quando, ao analisar o quadro complicado do nosso trânsito, me pergunto se temos soluções para ele. Sempre temos. Ora, se sabemos o que fazer, porque não fazemos? É daí que vem a suspeita de que talvez não nos convenha."
Negligência, incompetência, interesses econômicos à frente da segurança da população... É, mas deixemos para lá. O avião dá mais ibope.

Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.