13.11.09
Na Superinteressante, na Beta, no bar
Não falei nada disso nos últimos tempos, mas meus textos continuam pipocando por aí. Na Superinteressante de outubro, uma matéria grande sobre Eduardo Saverin, o brasileiro que ajudou a criar o Facebook (mas que não levou a fama). Na Super de novembro, esta que está nas bancas, um artigo sobre como o esporte pode deformar o caráter, em vez do que se pensa normalmente a respeito.
E a revista Plano B virou Revista Beta. Também cresceu de tamanho, não só no número de páginas, mas no próprio formato da publicação.
A presente edição (dá para comprar na livraria do Espaço Unibanco) tem uma entrevista minha com Sérgio Rezende, o diretor de Salve Geral, a indicação brasileira para o Oscar.
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Mudando de assunto, eis que a Uniban expulsou a menina do vestido curto, depois se arrependeu e cancelou a expulsão (alguém do marketing deve ter voltado das férias e apontado o absurdo da decisão anterior).
E os dois juízes dos últimos dois jogos do Palmeiras foram afastados do Campeonato Brasileiro por erros que seriam mais bem descritos como estrepolias.
E eu estava no bem-bom de um bar aprazível da Pompéia, degustando cervejas especiais, com a brisa no rosto, quando as luzes foram apagadas. E para achar o banheiro depois?
Um país que é um circo...
30.10.09
Multidão de aiatolás ameaça garota na Uniban, em São Bernardo
Li na Folha de hoje. A matéria se chama, muito apropriadamente, “Taleban na faculdade”. Mas a reportagem não era sobre uma instituição de ensino religioso do Afeganistão ou de qualquer outro país estacionado na selvageria da Idade Média. Era sobre fato ocorrido semana passada em uma universidade de São Bernardo. Aqui do ladinho, aqui no que deveria ser a região mais desenvolvida do País.
Diz a reportagem: “Cerca de 700 alunos da Uniban, Universidade Bandeirante de São Paulo, pararam as aulas do noturno para perseguir, xingar, tocar, fotografar, ameaçar de estupro, cuspir. Tudo isso contra uma aluna do primeiro ano do curso de turismo”.
O apedrejamento público teve o seguinte motivo: como iria para uma festa depois da aula, a aluna foi à faculdade usando um vestido excessivamente curto, que, combinado com seus olhos verdes, cabelos loiros, maquiagem e salto, resultava num mulherão para lá de provocante.
Como você reagiria se visse uma moça assim, vestida de femme fatale, caminhando pelo corredor da sua escola? Daria uma bela medida e tomaria um beliscão da namorada? Cutucaria o amigo e sussurraria alguma obscenidade, com um sorriso sacana? Pensaria que a roupa não estava de acordo com o ambiente e guardaria sua análise de moda para si?
Não foi o que fizeram centenas de aiatolás de 18 a 20 e poucos anos que estudam na Uniban. Os débeis mentais (rapazes e garotas) acuaram a menina numa classe, chamaram-na de puta, ameaçaram-na de estupro, tentaram usar o celular para tirar fotos por baixo do seu vestido... E não eram duas ou três pessoas, não eram nem dez ou quinze. Era uma multidão, o jornal falou em 700 alunos ameaçando e xingando a moça. Ela teve de deixar a faculdade escoltada pela Polícia Militar. Só não entendi, já que a polícia estava lá, por que nenhum dos ofensores e estupradores em potencial foi preso.
O que os alunos da Uniban tinham (têm) na cabeça? Como gente desse tipo arranja diploma em faculdade num país civilizado? Que status moral têm todos esses jovens para atirar pedras numa garota vestida de maneira sensual?
E se, em vez de uma aluna com um belo par de pernas, fosse mesmo uma prostituta, perdida naquele templo do saber? Aí estaria liberado o linchamento? O estupro? Que merda de futuros pais de família hipócritas, preconceituosos e socialmente retardados essa faculdade está abrigando?
Se a direção da Uniban quiser declarar ao País que considera uma aberração o que aconteceu em sua unidade de São Bernardo, deve concluir uma sindicância com a expulsão de todos os alunos envolvidos no episódio.
Se não o fizer, e acho que não o fará, deve transferir suas unidades para algum país do Oriente Médio, onde a ignorância e a brutalidade que saíram do armário em seus corredores, semana passada, são amiúde confundidas com retidão moral.
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Os alunos que não participaram do vandalismo – e que não concordam com ele – devem estar morrendo de vergonha de voltar para a classe. E se perguntando se não estão estudando no lugar errado.
07.10.09
Phoebe Caulfield no ônibus de Duke Ellington
A moça tinha tatuagens de estrela e um chapéu de cowboy, e tentava se equilibrar no ônibus em movimento enquanto segurava um sanduíche, um suco, uma blusa e puxava pela mão uma menininha loura, de seus quatro ou cinco anos e rabo-de-cavalo. Sentou-se no último assento do ônibus, um assento mais elevado, e mandou a menininha se sentar também. Ela, claro, não obedeceu, e a mãe nem reparou; estava com o suco e o sanduíche, e era atenção demais para ela. Faltava um fone de ouvido.
Lá pelas tantas, a menininha começou a fazer um meio giro num desses ferros em que a gente se segura no ônibus e gritou: “é um carrossel... é um carrossel...”. Ficou com aquilo por uns dez minutos, e eu levei um tempo para entender que o meio giro reproduzia o movimento que faria o corpo da menina reagindo ao rodar de um carrossel, com seus cavalinhos e tudo. Então a coisa fez sentido, olhei para ela e sorri.
Lembrei na hora de Phoebe Caulfield se esbaldando no carrossel, enquanto Holden tinha a derradeira crise de ansiedade em O Apanhador no Campo de Centeio, já no desenlace do livro. A menininha tinha os cabelos como eu imaginava os da Phoebe, e sua alegria era de contagiar defunto. Mesmo a mãe, em sua distração, parecia contente com a criança, embora às vezes soltasse um “senta, vai” sem muita convicção, sem despregar os olhos do que acontecia na rua.
Mas foi aí que percebi que uns tantos passageiros olhavam para trás, para a menininha, com a cara mais zangada do mundo. E resmungando! Era como se a brincadeira de uma garotinha loura num carrossel imaginário produzisse um barulho pior que o das sirenes de ambulâncias ao lado, e o dos motores de caminhões, e o dos outros ônibus, em suas fechadas, e o dos alarmes antifurto de motocicletas, e o das buzinas de outras motocicletas, irrompendo entre os carros e as passeatas de professores e de bancários, ou o ruído agudo de suas próprias cabeças amarguradas, sempre preocupadas, sempre negativas, sempre querendo o pior do outro, encolhidas em suas próprias misérias.
O motorista do meu ônibus da manhã é a cara do Duke Ellington, e tem uma sobriedade incrível, daquelas pessoas bem curtidas pelo tempo, dos negros cantores de blues, e imagino que não ficaria nem um pouco alterado se soubesse quem foi Duke Ellington e que é a cara do jazzista.
Se chego um pouco mais tarde, há um outro ônibus em que o cobrador tem uma simpatia de quem parece a mais bem disposta das pessoas. Não é açucarado nem excessivo; simplesmente está sempre com os olhos cheios de bom humor, e faz questão de deixar o café em cima de uma muretinha, enquanto o ônibus ainda não partiu, sempre que percebe que alguém está tendo problemas com o “bilhete único” na catraca. Outros não dão bola, descansam seus intervalos; ele prefere ajudar.
Por que há pessoas assim e pessoas que fazem caras feias para menininhas louras brincando de carrossel? Misturam-se no vai e vem do ônibus, de um modo que você nem se dá conta de que há umas e outras.
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Ah, comprei um carro, não agüentava mais gente ouvindo som alto no ônibus... de modo que quis recuperar esse post.
O blog é meu, ces't la vie.
13.08.09
Seu Tatu contra os livros
Diariamente. Uma hora de almoço, metade do tempo para colocar a leitura em dia. Me sirvo no pote de plástico, jogo um pouco de conversa fora e fujo da vista para abrir um livro ou jornal. Era assim sempre, diariamente, até que ele me descobriu.
É palmeirense, o jardineiro. Seu Tatu. O Pet chama de Seu Luís, os outros todos chamam de Seu Tatu. E há outros palmeirenses na firma: o Pet, o Rosário, o Menezes, o Edílson, o chefe... Mas o Tatu cismou foi comigo.
“Heeeein...”, é o jeito que ele anuncia a proximidade. No começo, eu pensava: será que ele não está vendo o livro no colo, meus olhos indo da direita para a esquerda, a mão no queixo? Hoje eu já sei, toda essa comunicação não-verbal não comunica nada para o Tatu. Eu posso estar com a Bíblia de Gutenberg na mão, ele tem assuntos mais sagrados, e que não podem esperar: “Então, o Vágner Love vem ou não vem?”.
A desgraça é que a falta de educação, no caso, não é a que apontamos em quem sopra o cigarro na nossa cara ou coloca o pé nas costas da poltrona do cinema. Sua carência é literal, e ele não se orgulha dela ou de incomodar os outros – como quem ouve música alta no ônibus. Sua intromissão, seguida da insistência, é tão inocente e tão amiga que eu, depois de uns tantos resmungos sem levantar os olhos, fecho o livro e respondo, sorrindo, sorrindo de verdade: “Bem que podia vir, mas acho que não vem”.
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Alemanha Ano Zero, segunda-feira, no curso do Inácio. Engraçado como o neo-realismo reúne cinemas tão diferentes, embora os temas sejam próximos. De Sica quer fazer chorar, Rossellini quer que você decida o que vai sentir, Visconti é sempre majestoso, operístico.
Difícil, então, falar num estilo neo-realista. Melhor dizer que houve um momento neo-realista. Quando os acontecimentos – a Europa devastada pela 2ª Guerra – precisavam ser contados, sem fantasia.
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Seu Tatu é crente. Mas um tipo de crente que não fala de Jesus – sua religião é o Palmeiras. O pessoal da oficina me disse que virou crente para parar de beber. Que, em Pernambuco, voltava das canas empurrado num desses carrinhos de pedreiro - roncando.
Hoje cuida das flores da firma. E do Vágner Love, do Marcos, do Diego Souza, do Muricy... De um modo compartilhado que me obriga a descuidar do Machado, do Graciliano, do Kerouac...
Nas nossas prosas, vale mais ser um Obina que um Dom Casmurro.
Glossário para quem ignora as leis do impedimento:
- Vágner Love – atacante que começou no Palmeiras, hoje joga na Rússia - talvez volte, talvez não. Eu duvido.
- Marcos – melhor goleiro da história do futebol brasileiro.
- Diego Souza – meia-atacante do Palmeiras.
- Muricy – técnico do Palmeiras, ex-técnico do São Paulo; há quem diga que segue os passos do Bernardinho no vôlei, por ter trocado o time feminino pelo masculino.
- Obina – folclórico atacante do Palmeiras, cara gente boa, mais simpático que eficiente.
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Kerouac – estou com Visões de Cody, novinho, esperando por mim. Mas vou emendar um livro para trabalho em outro. Pelo menos, o segundo é sobre cinema. Cody vai ter de esperar. O Leite Derramado do Chico também.
11.08.09
As freiras feias sem Deus
Mais uma vez, o colunista da Folha, Luiz Felipe Condé, dá um show de argumento bem construído e lucidez. Desta vez, num assunto que tem me deixado alerta, para não dizer puto: a ampla aceitação de um fascismo puritano cada vez mais presente, sob o argumento de que nos protege os pulmões, a vida no trânsito, e nos preserva a pureza imaculada.
Foi na coluna “As freiras feias sem Deus”, da última sexta-feira, sobre o início da proibição ao fumo em tudo quanto é lugar.
Só uma amostra:
“A associação do discurso científico ao constrangimento do comportamento moral, via máquina repressiva do Estado, é típica do fascismo. Se comer carne aumentar os custos do Ministério da Saúde, fecharemos as churrascarias? Crianças diagnosticadas cegas ainda no útero significariam uma economia significativa para a sociedade. Vamos abortá-las sistematicamente? O eugenista, o adorador da vida cientificamente perfeita, não se acha autoritário, mas, sim, redentor da espécie humana.
(...)
O que essas freiras feias sem Deus não entendem é que o que humaniza o ser humano é um equilíbrio sutil entre vícios e virtudes. E, quando estamos diante de neopuritanos, de santos sem Deus, os vícios é que nos salvam. Não quero viver num mundo sem vícios. E quero vivê-lo tomando vinho, vendo o rosto de uma mulher linda e bêbada em meio à fumaça num bistrô.”
O texto completo está aqui para assinantes do UOL e da Folha.
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Uma surpresa, o novo filme de Heitor Dhalia, À Deriva. Tem um pouco do cinema francês, dos pré-adolescentes de Truffaut, um tanto de Lucrecia Martel, um cinema do clima e do não dito, da construção e da morte dos relacionamentos.
Um belo filme. Não parece coisa do mesmo diretor de O Cheiro do Ralo (não sou dos que detestam o filme, mas a evolução para À Deriva é gritante).
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Marcelo Tas, no Irritando Fernanda Young: “O Maluf é bobinho perto do Sarney. O homem está há 50 anos no poder”.
Essa proteção do governo ao Sarney, o dar de ombros às revelações diárias de falcatruas, é para morrer de vergonha de ser brasileiro. Dá razão aos que falam “brasileiro isso..., brasileiro aquilo...” na terceira pessoa, como se não tivessem nada a ver com o encardido.





Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.