17.04.08

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Vento Forte para um Papagaio Subir, de José Celso Martinez Corrêa

Entrar no Oficina é como entrar numa igreja. Ali se comunga de um teatro interativo, vivo, apaixonado e vibrante, em que os participantes, atores, diretores, dramaturgos e platéia, se entregam a uma iluminação poética. Esta entrega, esta visão, pode durar, para nós, as tantas horas que dura um espetáculo. Ou a vida inteira. É o que pretende Zé Celso com seu teatro orgiástico, de celebração da existência e do prazer, esta palavra mal vista em tempos conservadores: que ninguém saia de sua igreja sem uma pulga atrás da orelha. Uma voz interna que nos alerte de que podemos ser, somos, muito mais.

É dessa libertação que trata a primeira peça de sua dramaturgia, Vento Forte para um Papagaio Subir, novamente em cartaz no Oficina (até dia 27 de abril). Trata da ascensão de um personagem às alturas dos iluminados, dos que vivem a poesia em seu dia-a-dia, virando as costas às convenções engravatadas que a vida lhes reserva. É o próprio Zé Celso, de partida de sua Araraquara, antes de renascer como poeta com Vento Forte...

O que a obra tem de autobiográfica ganha uma representação magnífica, com as intervenções de Zé Celso durante a peça, quando se espelha com Lucas Weglinski, ator que interpreta João Ignácio Carvalho, o alter ego do dramaturgo. Ana Guilhermina, no papel da namorada de João Ignácio, ora se dirige a Weglinski, ora diretamente a Zé Celso, seu duplo, rompendo a separação entre realidade e representação.

O público é convidado a nascer de novo, junto com João Ignácio, mas a interação é sempre gentil e tranqüila, até delicada, para alívio dos que temem perder a roupa em uma peça mais dionisíaca da companhia Uzyna Uzona. A certa altura, os espectadores-atores são chamados a caminhar pela área em que o espetáculo se dá (não há palco, mas uma rua entre as arquibancadas do Oficina) e ler em voz alta Oswald de Andrade, poemas. A imagem de atores e platéia se esbarrando, de um lado a outro, enquanto lêem em voz alta, remete à terra dos homens-livros, de Farenheit 451, de Truffaut, onde os rebeldes decoram livros inteiros para preservar a literatura, proibida por lei no futuro em que se passa a história. Era a passagem mais emocionante do filme, e o impacto se repete na celebração de Zé Celso.

Vento Forte para um Papagaio Subir não é uma peça arrebatadora como a montagem que vi de Hamlet no Oficina, começo dos anos 90, com Leona Cavalli de Ofélia, Alexandre Borges como o rei assassino, Júlia Lemmertz como a rainha Gertrudes, e Marcelo Drummond no papel título (Zé Celso era o fantasma do pai de Hamlet). Mas é uma obra que extrai sua beleza da sensível relação do dramaturgo com seus personagens, vistos carinhosamente pela objetiva da memória, e da amizade e amor entre eles. E entre os atores do Oficina e seu público.
Perto da grandiosidade de espetáculos como Os Sertões, Vento Forte... é uma peça de câmara. Mas o vendaval provocado pela mente libertária de Zé Celso está todo lá; basta abrir a caixinha de música.

* * *

O governador de São Paulo, José Serra, foi o primeiro ator a interpretar João Ignácio. A peça foi escrita por Zé Celso em 1958, e sua montagem atual celebra os 50 anos do Teatro Oficina.

por Alexandre Carvalho dos Santos 1 comentário - Permalink

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