12.03.11
O orgulho de Lowell - crítica do filme O Vencedor
O argumento, você já conhece. Filmes sobre boxe formam um gênero próprio no cinema, quase sempre centralizando a trama em um pobre coitado que, apesar de todas as adversidades e de ninguém dar nada por ele, vale-se de uma superação obstinada para chegar ao topo.
Se você analisar apenas por esse lado, O Vencedor não é lá muito diferente de Rocky, Um Lutador, Touro Indomável e Marcado pela Sarjeta – sem querer compará-lo à grandeza dessas obras. Mas, se o argumento não foge aos clichês, o filme de David O. Russell não se restringe a eles. Até porque, no fim das contas, o boxe é o que menos importa aqui.
Baseado numa história real, O Vencedor trata do drama de uma família disfuncional ao extremo, de afetos tortos, conflituosos, em que o personagem principal, o lutador Micky Ward (Mark Wahlberg), parece (ou deveria) ser o centro das atenções. É treinado por seu irmão mais velho, um ex-boxeador, agenciado pela própria mãe e acompanhado de perto pelas irmãs, um bando de louras barraqueiras que reprovam a nova namorada do rapaz (Amy Adams, ótima, fazendo o contraponto positivo à família).
Mas Micky vai lutar o filme inteiro para ser protagonista da própria vida, já que sua mãe e seu irmão querem os papeis principais desse enredo – por uma questão de hierarquia dos mais velhos, talvez, ou por causa do amor cego da mãe pelo primogênito.
E este irmão mais velho é que rendeu ao ator Christian Bale seu primeiro Oscar. Dicky, o personagem, é um anti-herói que trocou os ringues pelo vício em crack. O que só não fez com que caísse em desgraça com a família: para os Ward, Dicky ainda é o “orgulho de Lowell”, o boxeador que, uma vez, teria derrubado o campeão Sugar Ray Leonard – segundo a lenda que corre na cidade. O termo é ambíguo, irônico e ao mesmo tempo correto, porque, se Dicky não tem nada que inspire orgulho... ele é a cara de Lowell. A cidade natal do escritor Jack Kerouac, no estado de Massachusetts, hoje é berço de desempregados e gente de pouca esperança, que se vira como pode – o próprio Micky, além de pugilista, é pavimentador de rua.

Christian Bale, irreconhecível
Bale triunfa ao expressar toda a complexidade desse personagem de várias camadas. Seu Dicky é um pateta drogado, brincalhão e amoroso, um fracasso ambulante que vai minando as possibilidades do irmão – a quem ama de verdade – sem perceber. Mas é também um enigma. Há naquela figura triste um ex-boxeador de verdade, alguém que já obedeceu à disciplina do esporte e que, bem ou mal, chegou a enfrentar um campeão no ringue. A dúvida, que paira até sua saída da prisão, depois de uma tentativa mal-sucedida de extorsão, é se o crack teria conseguido destruir tudo o que resta do homem por trás do flagelo viciado que surge na tela.
Sua família aposta que não. É como se a carreira do irmão mais novo fosse apenas um passatempo até a improvável volta de Dicky aos ringues. Melissa Leo (de Rio Congelado) está perfeita como a matriarca perua e vagaba, mas superprotetora, que tem dificuldade em esconder a predileção pelo mais velho, fechando os olhos para os seus dramas – e até compactuando com eles.
Diferentemente do que manda o clichê do gênero, o clímax do filme não está na vitória redentora de Micky no ringue – embora O Vencedor não escape do seu “final Karatê Kid”. A reviravolta acontece quando a cidade e a família assistem, entre constrangidas e horrorizadas, a um documentário da HBO sobre a vida de Dicky, expondo seu vício em drogas e o farrapo humano em que o orgulho de Lowell se transformou. É quando o presente se impõe ao passado, e o coadjuvante de luxo, que até então se equilibrava entre a lenda e a anedota, se transforma em herói trágico.
* * *
O Vencedor (The Fighter)
Direção: David O. Russell
Com: Mark Wahlberg (Micky Ward), Christian Bale (Dicky Eklund), Melissa Leo (Alice Ward) e Amy Adams (Charlene Fleming)
Avaliação: BOM
* * *
Crítica publicada originalmente na Revista Beta: www.revistabeta.com.br
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex