24.11.10
No show de Paul McCartney
Meu pai teve uma frustração na vida (deve ter tido outras, mas esta é batata): não assistiu a nenhuma das apresentações de Frank Sinatra no Brasil, uma no Maracanã, outra mais perto de nós, no hotel Maksoud Plaza. Faltou dinheiro, pique, não sei bem... Então, quando descobri que Paul McCartney (o meu Sinatra) faria shows no País, prometi a mim mesmo que esta frustração eu não teria no baú.
Ainda que o sistema de venda pela Internet dificultasse tudo ao máximo, consegui ingressos para o segundo show do beatle. Numa segunda-feira, que não parece ser a circunstância ideal para um show de rock. Mas, para ver o Paul, qualquer dia seria perfeito.
Mesmo o mais imperfeito dos dias. Chovia em São Paulo. E até quem não é daqui conhece de fama como fica o trânsito quando se junta pista molhada e hora do rush. Com mais de 60 mil pessoas indo na mesma direção, então...
Mas cheguei, aos trancos e barrancos, com a paciência por um fio, mas cedo o bastante para tomar horas de chuva antes que a banda dissesse olá. A cerveja era Antarctica (que só tomo em último caso), chovia no meu copo, a capa de chuva comprada na banca grudava nos braços e no pescoço, o caminho para o banheiro exigia empurrões, pisões e mil desculpas (as mulheres ainda enfrentavam fila).
Mas aconteceu. Com pouco mais de dez minutos de atraso (pontualidade britânica, se comparada aos shows de Marisa Monte, para ficar só em um exemplo nacional), começava a primeira felicidade verdadeira do dia: Paul entra no palco e começa com uma canção diferente da abertura da noite anterior: “Magical Mystery Tour”. Delírio, comoção, lágrimas, impulso de pular, cantar, ver mais de perto, e ainda a precoce vontade de que aquele show não terminasse nunca.
O Rica, à minha esquerda, passa grande parte do show visivelmente emocionado. Me abraça a todo momento e silenciosamente agradece pelas aulas de Beatles que recebeu de mim, ainda criança. A Ju, à direita, parece mais empolgada que eu, se isso é possível; canta, pula, filma e fotografa, tudo ao mesmo tempo. Penso que tenho sorte demais por ter os dois comigo ali, e na minha vida sempre.

Já molhados,
horas antes do show começar
“Here Today”, inspirada em Lennon, e “Something”, de George e para ele, emocionam até estátua. Ainda mais com as sequências de fotos de Harrison com Paul, exibidas nos telões.
O que me faz pensar na diferença de postura entre Lennon e McCartney. Muitas vezes, o primeiro fez referências a George como um artista medíocre, que não teria o mesmo reconhecimento sem os líderes da banda. McCartney, por sua vez, quando George morreu de câncer, em 2001, declarou emocionado numa entrevista: “Morreu meu irmão caçula.”
Também me custa imaginar Lennon fazendo uma homenagem a Paul em seus shows. Na “Up and Coming Tour”, Macca entoa “Give Peace a Chance” no meio de “A Day in The Life” (seria um dos melhores momentos do show sem essa emenda, que me remete à Yoko de pijama e sem tomar banho numa cama em Amsterdã).
Difícil apontar outros destaques em meio a um set list no qual, para mim, quase todas as canções são obras-primas. Senti falta de mais músicas dos seus álbuns recentes, como o fantástico Memory Almost Full. Mas que hit ele tiraria do repertório? “Let It Be”? Alguém chamaria a polícia e pediria o dinheiro de volta.
Aliás, me impressionou o quanto canções que já ouvi milhões de vezes ainda puderam me emocionar no show. Como “Yesterday”. Vieram-me à mente as cenas de Paul aos vinte e poucos anos, sozinho no palco com um violão, com um olhar ingênuo na direção do público inglês; sua canção de amor, tão singela e simples quanto cativante. A letra é o lamento de uma pessoa mais velha que aqueles vinte e poucos anos deixariam adivinhar. Alguém que já viveu a despreocupação da juventude para encarar os fatos da maturidade, mais especificamente do amor maduro. Ver Paul aos 68, voltando a um tema quase naïf, já um hino, deu uma gostosa sensação de permanência – e ao mesmo tempo de renovação –, coisa que se sente tanto no show do seu beatle preferido quanto no primeiro aniversário de um filho (no meu caso, de uma sobrinha querida).
Mas qualquer reflexão agridoce deu lugar à quase histeria que me acometeu na sequência apoteótica do final do show. Eu pagaria os 700 reais da pista vip só para ver os dois bis. O primeiro: “Day Tripper” (uma das melhores performances da banda), “Lady Madonna” e “Get Back”. O segundo começou com a já citada “Yesterday”. Precisa dizer mais? Precisa.
A segunda música do segundo bis (tudo programado, mas não menos impactante) foi a canção mais pesada da carreira dos Beatles: “Helter Skelter”, do Álbum Branco, uma de minhas preferidas e que é considerada precursora do heavy metal. Nesta hora, bati cabeça como se num show do Sepultura. Mas, no lugar dos irmãos Cavalera, havia um senhor de quase 70 anos, jogando a voz em tons que a maioria da molecada tem dificuldade de atingir. Em seguida, a despedida, numa sequência de “Sgt. Pepper’s” (“We’re Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band/ We hope you have enjoyed the show...”) e “The End”, a última música do ultimo disco dos Beatles (“And in the end/ The love you take/ Is equal to the love… you make”).
Na saída, um cenário de Rua 25 de Março em véspera de véspera de Natal. Milhares de pessoas caminhando à procura de uma condução. Ou nem isso, porque a condução, se ali houvesse, não sairia do lugar. Caminhamos uma hora e meia, com fome, cansaço muscular (de tantos pulos durante o show), vontade de ir ao banheiro, até chegar a um trecho do Morumbi em que fosse possível um automóvel se deslocar. Os táxis cobravam, no mínimo, 80 reais para andar um quarteirão que fosse. Foi difícil achar um honesto que cobrasse pelo taxímetro.
Jurei a mim mesmo que, outro show em estádio superlotado, só se o Paul voltasse. Mas nada – nem a ingresso.com, nem a chuva, nem a cerveja ruim, nem os taxistas espertalhões – conseguiu tirar de mim a alegria de pensar que, ainda que eu não escreva um livro, tenha um filho ou plante uma árvore, a morte já não me pega desprevenido.
* * *
Apesar da comparação desfavorável a John Lennon que fiz no texto acima, acho-o um gênio da música pop, e que era melhor que Paul na primeira fase dos Beatles. Seria incomparável, não fosse o outro sobrenome que assinava suas canções.
* * *
Perfeito, o comentário do crítico André Barcinski, em seu blog da Folha: “Achei um crime Macca juntar ‘A Day in The Life’ com ‘Give Peace a Chance’. É como tomar uma taça de Veuve Cliquot seguida de um shot de álcool Zulu.”
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Comentários:
Não é difícil gostar do que é bom, meu amigo Alexandre, então fica muito mais fácil gostar daquilo que alem de bom é único.
Parabéns pelo texto
Marcos Falcon
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex