11.11.10
Filmes da Mostra
Começo dos anos 90, a Cinemateca ficava na Fradique Coutinho, que já virou Sala UOL e hoje é Cine Sabesp ou coisa que o valha. Meus heroicos tempos de cinéfilo, na faculdade. Desde então, não via tantos filmes numa Mostra de Cinema de São Paulo, como pude agora. Graças às férias do batente. Ainda que esta Mostra me parecesse menos interessante, no conjunto de filmes, que as de anos anteriores.
Mas não sei ainda se essa conclusão vem do fato de que, antes, eu queria ver os filmes e não podia. Agora que pude, não achei muita graça na maioria deles.
O que eu quis ver este ano, mas não consegui: o da Sofia Coppola e o Mistérios de Lisboa. Nem tentei o Woody Allen, porque estreia agora, no final de novembro. Mas fui atrás de alguns lançamentos próximos, já que, provavelmente, escreverei sobre eles em minha seção de cinema na Revista Criativa.
Do que mais gostei:
Turnê, do Mathieu Amalric
Além de ser, possivelmente, o melhor ator do cinema francês, Amalric dirige com segurança e ousadia. Ele ainda interpreta o empresário de uma companhia de neoburlesco (já ouviu falar da Dita Von Teese? É aquilo mesmo: um striptease artístico). Seu personagem é um sujeito com pinta de malandro, mas um malandro romântico, da Lapa carioca, meio fracassado, meio galante, meio megalomaníaco, meio apaixonado por suas dançarinas. E elas formam um espetáculo à parte. Tanto pelas performances quanto por um glamour “baixa gastronomia” arrebatador, de quem não tira os cílios postiços nem para tomar banho de banheira (muito menos para isso). Vi semelhanças entre essas moças e as musas improváveis das letras do Aldir Blanc.
Aprendiz de Alfaiate, do Louis Garrel
No Guia da Mostra, da Folha de S. Paulo, havia um quadro com as apostas de bons filmes, feitas por gente do ramo. O crítico Inácio Araujo indicou, entre outros, o média-metragem desse ator-fetiche do cinema francês, com a seguinte justificativa: “é um Garrel”, fazendo referência ao pai de Louis, o diretor Philippe Garrel, do fantástico Amantes Constantes. Fui na aposta do Inácio e não me arrependi. Tem influência do pai dele, no preto & branco e nos enquadramentos, mas há muito de Truffaut, no conteúdo que fala de mal-entendidos do amor. Acho que foi o que eu mais gostei na Mostra. Se há um problema a apontar é que tanta influência – boa, diga-se – acaba sobressaindo sobre o que poderia ser um estilo próprio e novo. Mas mais vale um talento herdado que uma novidade porca.
Amores Imaginários, de Xavier Dolan
Surpresa boa, vinda do Canadá. Tão kitsch quanto indie, com ótima combinação entre trilha sonora (com um pé no brega), elenco e montagem. É como se Almodóvar encontrasse Honoré (Garrel faz uma ponta, aumentando a semelhança), com um humor todo próprio. Outro filme sobre os desencontros do amor – aqui, um triângulo bissexual –, mas sem nada de dramático. Trabalho de um jovem diretor que vale a pena acompanhar.
Decepções:
Abel, de Diego Luna
Não sei como tanta gente gostou desse embuste.
A Suprema Felicidade, de Arnaldo Jabor
Será que é porque eu esperava muito? Me pareceu forçado, sem nada de espontaneidade. Há certa poesia aqui e ali, em personagens que, na concepção, são melhores do que o que vemos na tela, como a stripper virgem. Numa peça de Nelson Rodrigues ficaria melhor.
No filme, tudo é falso. A magnífica interpretação do Marco Nanini quase é comprometida por uma cena final constrangedora, em que ele dança, embriagado, sobreposto a uma imagem de cartão postal do Rio de Janeiro. A cena funcionaria num DVD que vendesse pacote turístico para gringo. Fellini na intenção, Guilherme de Almeida Prado no resultado.
Posts similares:
Primeiro dia na Mostra de Cinema de São Paulo
canções de amor
mostra sp 2010: roteiro de estreias
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários:
Deixe seu comentário:



Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex