03.04.10
Os Famosos e Os Duendes da Morte, de Esmir Filho
A elaboração do roteiro do primeiro longa-metragem de Esmir Filho teve um prólogo. Antes que os parágrafos do livro que lhe serviria de inspiração chegassem aos olhos do diretor – até então mais conhecido pela autoria do curta Tapa na Pantera, um hit da Internet –, foi o primeiro livro de Ismael Caneppele, Música para Quando As Luzes se Apagam, que acendeu em Esmir a vontade de compartilhar uma criação. O cineasta pediu para ler mais dos escritos de Ismael. O escritor, porém, ainda não tinha um segundo livro pronto, mas lhe ofereceu um manuscrito: era a gênese do que viria a ser Os Famosos e Os Duendes da Morte, que conquistou o Troféu Redentor, como melhor longa de ficção do Festival do Rio deste ano.
O entusiasmo de Esmir com a obra de Ismael foi tanto que o diretor convidou o escritor para, juntos, construírem o roteiro. De modo que o livro, ainda em fase de gestação, foi influenciado pelo próprio desenvolvimento do filme. Nasceram ao mesmo tempo um filme de um livro e um livro de um filme. Os dois marcados pela narrativa, senão autobiográfica, muito pessoal de Ismael Caneppele.
O escritor realmente viveu na pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul em que se passa o filme. Morava próximo à ponte dos suicidas, que é quase um personagem de Os Famosos.... Só foi embora aos 18 anos, para encarar, então como ator, a densidade hermética do teatro de Gerald Thomas. A experiência não passaria em branco.
Os Famosos... é arrebatado pela vivência de Ismael, mas não só. O filme é a ponte, a tradução estética de como Esmir Filho absorveu aquele universo, de um frescor juvenil somado a uma melancolia do isolamento, ou de quem procura se encontrar. Uma visão em que o onírico se destaca sobre referências contemporâneas e muito reais.
Partindo do que havia no manuscrito, Esmir Filho decidiu aprofundar-se na experiência pessoal do escritor e, dali, elaborar um produto novo, mas fiel à sua inspiração. “Não foi simples, fazer este roteiro”, assegura Esmir. “Trabalhamos nele durante nove meses depois que o argumento ficou pronto. Houve um mergulho da minha parte numa experiência muito visceral, fisicamente até”. Este mergulho fez com que o diretor morasse um tempo na cidade que seria sua locação, interessado em conhecer seus personagens, seu palavreado, seus costumes. Foi assim também que Esmir encontrou seu elenco.
“Eu estava interessado em adolescentes da região, mas queria jovens com experiência de Internet, de fotolog, de youtube... Descobri que, mesmo distante das capitais, esta geração tem muito o que dizer por meio da Internet, e também por meio do meu filme”, aponta o diretor.
Fusão de linguagens
Além de aproveitar os jovens como atores, o cineasta importou para seu filme o talento da moçada da região, tornando o lugar praticamente co-autor de seu longa-metragem. Os vídeos de Internet assistidos pelo protagonista no filme realmente foram feitos pela atriz que aparece neles, Tuane Eggers. E a ótima trilha sonora, um folk-rock com influências dos anos 80, é de outro artista local, Nelo Johann. O próprio autor do livro-base faz um dos personagens principais da trama, o misterioso Julian, que mexe com a cabeça do garoto interpretado por Henrique Larré. “Em vez de falar que estou lançando um filme, prefiro dizer que faço parte de um movimento, uma ação conjunta que está vindo a público de uma vez só”, afirma Esmir Filho. “É o livro, o filme, a música, os vídeos... uma série de talentos reunidos que eu tive a sorte de condensar no meu trabalho, mas que também merecem reconhecimento individualmente”.
O real e o virtual
A Internet é o espelho de Alice em que Esmir Filho quis se aventurar. Seu personagem, Mr. Tambourine Man, o garoto que vive entre lembranças e o desejo de partir, só consegue realizar o sonho de sair da cidadezinha de forma virtual, pela rede de computadores. É lá que assiste aos vídeos da irmã de seu amigo, uma de suas obsessões, e é lá também que expõe suas dúvidas existenciais para um interlocutor misterioso. “Aquele cara que se corresponde com o garoto sou eu mesmo”, revela Esmir. “É a minha forma de romper a barreira que separa o diretor do seu filme, e vivê-lo, de modo a questionar o que é real e o que é virtual. Para esta juventude ligada em Internet, muitas vezes, aquele ambiente do computador é que é a essência da realidade. É onde a pessoa encontra suas amizades, seus amores, sua cultura, expõe seus trabalhos. Para o personagem do Mr. Tambourine Man, é ali que ele se sente real e confortável. Fora dali, ele sofre com um deslocamento e uma insegurança muito grandes. Isso é uma coisa fascinante e ao mesmo tempo perigosa, porque na Internet você pode ser quem você quiser. Você se apresenta da forma como você quiser. Mas quando sai dali, o que sobra? Quem é você realmente?”.
Para quem fala a mesma língua
Contando com apoio da Warner e reconhecido em festivais, Esmir Filho crê que Os Famosos e Os Duendes da Morte terá boa distribuição no País, apesar de saber que não se trata de uma produção para todos os públicos. “Eu assisto a muitos filmes, e um erro que eu percebo em algumas produções nacionais é querer agradar a todo mundo. Isso é muito difícil e acaba comprometendo a qualidade do seu trabalho. É claro que eu quero muito que meu filme seja visto pelo maior número possível de pessoas; eu fiz este filme porque eu tenho um desejo de comunicar, mas eu sei qual é o meu nicho. É um filme capaz de tocar a sensibilidade de um determinado público, que tem uma experiência estética e de vida semelhante à minha. Gente com quem eu me sentaria à mesa e bateria um papo por horas. É para essas pessoas, e para mim, que eu fiz este filme, e é importante que elas tenham a possibilidade de ver”.
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Matéria minha publicada na Revista Beta.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex