14.03.10
Os esquecidos do público
Questões que distanciam ótimos filmes brasileiros dos frequentadores de cinema
Como indicamos o filme errado para o Oscar e não conseguimos nada em Cannes, 2009 deve ser lembrado, no que diz respeito ao cinema nacional, como o ano em que a comédia brasileira teve seu momento blockbuster. Em um mês de exibição, Divã, de José Alvarenga Jr., foi visto por mais de 1 milhão de espectadores. Se Eu Fosse Você 2, de Daniel Filho, outra aposta certeira da GloboFilmes, já chegou à casa dos 6 milhões, tornando-se o filme nacional mais visto desde 1995. Em matéria da Folha de S. Paulo de 16 de maio, Paulo Sérgio Almeida, diretor da Filme B, empresa que monitora o mercado, constatou o porquê de tanto riso e tanta alegria: “O Brasil vive um de seus melhores momentos de público; 2009 é para passar de 100 milhões de espectadores e, só de cinema nacional, ultrapassar 15 milhões. A comédia responderá por 80% desse público”, previu.
Mas nem só de gargalhadas e atores de novela vive o cinema brasileiro. Do lado de fora da GloboFilmes, a situação é muito diferente. Produções de inegável qualidade seguem ignoradas pela mídia e pelo público, e com raros espaços nas salas de exibição. Muitas não ultrapassam a barreira da primeira semana em cartaz. Teve gente que notou.
A constatação de que tivemos, em 2008, um conjunto de filmes de qualidade que seria motivo de orgulho em qualquer cinematografia, mas que passou despercebido pelas salas, motivou o crítico Inácio Araujo, da Folha, a reunir nossos “esquecidos” em uma retrospectiva no CCBB. Na seleção, Falsa Loura, de Carlos Reichenbach, Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins, Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, Cleópatra, de Júlio Bressane, entre outros. “Tivemos realmente um bom ano, mas esse bom ano não se refletiu numa presença de espectadores”, analisa Araujo. “A grande decepção foi Encarnação do Demônio, que teve muitas cópias e marcou a volta do Zé do Caixão, que é um personagem mitológico. Esperava-se um sucesso, mas não aconteceu nada, pouca gente viu”.
Frustrante também foi o desempenho de bilheteria de Falsa Loura, o último filme de Carlos Reichenbach. “Foi um desastre. Não me deixaram chegar ao meu público-alvo, que é a mulher proletária retratada nos meus filmes”, aponta o diretor. “Quando foi lançado, disseram-me que finalmente se conseguia enxergar um filme popular com a minha direção. Mas eu pergunto: popular para quem? Em Garotas do ABC, já dava para perceber esse distanciamento. Garotas... tinha 400 figurantes de São Bernardo, mas nem esses figurantes conseguiram ver o filme, porque ele foi arrancado do shopping da cidade na primeira semana, para entrar um Homem Aranha da vida...”.
Da rua para dentro do shopping
Reichenbach lembra que há uma distinção importante entre o que é filme comercial (“a sucata da televisão”) e o que é filme popular. “O cinema popular deixou de existir em 1982. Até esse ano, um ingresso custava o mesmo que uma passagem de ônibus, e o grande público do cinema brasileiro vinha das classes C e D. Esse público foi alijado do cinema por várias razões. Até o começo dos anos 80, o cinema era um cinema de rua, e os grandes conglomerados de exibição pertenciam a famílias. Com exceção de Severiano Ribeiro, as famílias deixaram o mercado cinematográfico, que hoje é dominado pelas majors americanas. Com isso, o cinema foi para dentro do shopping center, um espaço burguês de classe média. E lá ele é visto apenas por um tipo de espectador privilegiado, que nunca gostou de cinema brasileiro e nunca vai gostar”, constata.
O crítico Sérgio Alpendre, redator dos sites Contracampo e Cineclick, também acredita que a migração para os shoppings não contribuiu em nada para manter um público que aprecie qualidade. “O público de hoje se tornou mais dispersivo, mal educado e impaciente, quase incapaz de se sentar numa poltrona sem um balde de pipoca no colo. O cinema, para esse público, é mais uma entre dezenas de opções para a diversão das horas livres; não é mais uma maneira de encontrar uma representação na tela, ou de entender o que se passa no mundo, conhecer outras épocas e culturas. O que se quer, na maioria das vezes, é a diversão acéfala. Daí o sucesso de inúmeros filmes que não exigem muito da capacidade de raciocínio do espectador”, afirma.
Ficou caro
Parece ser um consenso que a questão do preço do ingresso é determinante para o fracasso comercial de muitos filmes brasileiros. O preço alto faz com que, para muita gente, uma ida ao cinema seja um programa, no máximo, mensal. Uma pesquisa do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Rio de Janeiro, sobre hábitos de entretenimento, apontou que quase 30% dos frequentadores iriam mais ao cinema se o ingresso fosse mais barato. Estamos falando em 4 milhões de pessoas que considerariam assistir a mais filmes, absorvendo uma real cultura cinematográfica, caso o preço não estivesse nas alturas.
“Quando eu comecei a fumar escondido, lá pelos meus catorze, quinze anos, não tinha dinheiro e acabava comprando o cigarro mais barato que encontrava”, revela Carlos Reichenbach. “E foi na mesma época que descobri a cinefilia. Vivia frequentando sala que exibia dois, três filmes, e eu só tinha que deixar de comprar um maço de cigarros para conseguir ver os filmes. Um maço! Hoje, mesmo com todo o imposto que incide sobre o cigarro, são necessários uns cinco maços para representar o custo do ingresso de cinema”.
Entretanto, baratear o ingresso não é tão simples quanto pode parecer. É o que afirma o empresário Jean Thomas Bernardini, criador do complexo de salas Reserva Cultural, em São Paulo. “Claro que o ingresso barato facilita muito a ida ao cinema, principalmente no caso de filmes mais comerciais. No entanto, na atual conjuntura, baratear o ingresso está totalmente fora da realidade. Quem não tem verba de patrocínio ligada ao nome do cinema precisa viabilizar o pagamento dos compromissos somente com a renda da bilheteria”, argumenta.
O filme do mês
Sendo assim, muitos espectadores, que só têm dinheiro para escolher um único filme no mês, preferem investir nas grandes produções de Hollywood, que já contam com o aval da publicidade e de seu consequente boca-a-boca. A pesquisa do sindicato das distribuidoras concluiu que apenas 12% da população das capitais vai ao cinema mais do que uma vez por mês (52% nem frequenta), e que mais de 70% dos espectadores procuram assistir aos filmes mais comentados e que já são sucessos de bilheteria. Dificilmente um filme nacional que não conte com a verba publicitária de uma GloboFilmes consegue ser esse “filme do mês”.
“O sistema do blockbuster, que se instala a partir de Guerra nas Estrelas, dispõe de uma publicidade intensa, que vende Hollywood”, afirma Inácio Araujo. “E quando o filme tem todo esse espaço na mídia, ele é tão falado que acaba se tornando obrigatório. Assistindo a esse filme, o espectador vai participar de um processo social, vai estar por dentro do assunto do momento. O problema é que, quando um sistema desses impera, o aspecto crítico é rebaixado. Você pensa: o que vou fazer hoje? Vou ver um filme e depois vou jantar, não quero me aborrecer”.
Distribuição não é prioridade
Para piorar, é notória a diferença entre os sistemas de distribuição dos blockbusters americanos e da maioria dos filmes nacionais. “Não se tem um conceito de distribuição, falta um empenho e uma preocupação do Estado com isso”, identifica Inácio Araujo. “O Governo diz para o diretor, ‘você quer fazer um filme, então pega aqui 100 mil reais e se vira’. Aí o fulano chega ao fim da produção com a corda no pescoço, sem dinheiro e sem know-how para a distribuição. É claro que vai distribuir de qualquer jeito”.
Jean Thomas Bernardini acredita que o distribuidor deve escolher a dedo as salas mais viáveis para seu filme, pois cada sala tem um perfil de público. E ele fala com conhecimento de causa, já que concilia a direção da Reserva Cultural com a da Imovision, uma distribuidora de filmes com foco no cinema independente. “Também acho importante que o exibidor ajude a promover o filme que vai entrar, não se restringindo a anunciá-lo. Para que isso seja feito, é preciso que haja uma intensa parceria entre o distribuidor e o exibidor, o que ainda não acontece no Brasil”.
Pregar para uma igreja vazia
Enquanto as diversas questões relacionadas ao “esquecimento” de ótimos filmes brasileiros não são resolvidas, o que pode restar de estímulo aos diretores brasileiros? A expectativa de abraçar o cinema comercial? Não seria opção para Carlos Reichenbach: “Prefiro não fazer. Eu não escolhi esse meio de expressão para submeter a minha forma de ver o mundo a um conceito chapa-branca. Meu estímulo agora é fazer um filme para mim mesmo. Acho que o Estado tem que existir para dar sustentação a uma produção que enxergue o cinema como um fenômeno cultural, mesmo que não dê bilheteria. Nós somos as antenas e os olhos da nossa época. Eu continuo indo ao cinema com a expectativa de compreender o tempo em que estou vivendo”.
Inácio Araujo tem opinião semelhante e acredita ainda que o Estado precisa dar visibilidade a esse cinema, atingindo a população. “Vamos acabar com essa história de que a cultura é um penduricalho. Cultura é a nossa identidade, a possibilidade de escapar da violência. Deixar o cinema acessível é uma condição vital para que haja uma saúde nacional”, enfatiza.
Esse acesso também é a forma de acostumar o público a um cinema desvinculado dos padrões do filme comercial, que hoje comemora seus milhões de espectadores (com todo o mérito, diga-se). Criar uma cultura cinematográfica, por meio de uma rede de salas com preços populares, exibindo filmes que não sejam os onipresentes do grande circuito, seria um primeiro passo. E há outros, mas é preciso que o Estado queira, entendendo que a questão do cinema nacional não é só uma questão de mercado. Como bem destacou o crítico da Folha de S. Paulo, é uma questão de sobrevivência.
* * *
Matéria minha para a revista Plano B, que agora é Revista Beta.
Posts similares:
Por onde tenho andado esse tempo todo
Mostra de Cinema de Tiradentes - Cinema sem fronteiras
A voz da crítica independente
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários:
Por esses depoimentos vejo que os cineastas Brasileiros não estão nem ai pro publico e querem que o governo sustente as brincadeiras deles.
Brincadeira, porque um cineasta que quer fazer um filme só pra ele sem se preocupar com a bilheteria esta só beincando de fazer cinema.
A base do cinema é se comunicar com o publico.
Sem falar que são estelionatarios, porque o dinheiro do governo que eles querem quem paga é o povo com seus impostos, que deveriam ir pra saude e educação de verdade.
Voltarei sempre.
Este post tem 1 comentário aguardando aprovação...
Deixe seu comentário:


Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex