06.03.10

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Johnny Alf (1929-2010), quando a Bossa Nova foi mais jazz

johnny alf 3

Quando assisti a meu primeiro show de Johnny Alf, coisa de poucos anos atrás, este compositor, cantor e pianista (não necessariamente nesta ordem) já estava bem debilitado. Precisou ser amparado para chegar ao piano. Mas, uma vez sentado ali, transformou-se. Nada mais o abatia, e ele fez um grande show de jazz, numa apresentação em que dividiu o palco com ninguém menos que João Donato. Que show! Lembrando que Donato está ainda tão em forma quanto sempre esteve; outra obra-prima dele pode explodir a qualquer momento.

Eu disse jazz, sim, porque, apesar de precursor da Bossa Nova, Alf sempre esteve muito mais ligado à música de Chet Baker que à de Paulinho da Viola – levando em consideração a máxima de que BN = jazz + samba. Mas, para não ser (e não sendo de fato) só mais um na corte de Miles Davis, Alf foi o primeiro a combinar com toque de gênio a cadência bonita do samba com os floreios e as inflexões do jazz. “Rapaz de Bem”, composição dele de 1953, é Johnny Alf cantando como Sarah Vaughan uma letra bem à Noel Rosa (“No meu preparo intelectual/ É o trabalho a pior moral/ Não sendo a minha apresentação/ O meu dinheiro só de arrumação/ .../ Se a luz do sol vem me trazer calor/ E a luz da lua vem trazer amor/ Tudo de graça a natureza dá/ Pra que que eu quero trabalhar?”).

E isso cinco anos antes da Bossa Nova oficial dar as caras, com Tom, João e Vinícius.

Ontem, em homenagem ao rapaz de bem, que morreu na quinta, aos 80, ouvi no carro o CD Johnny Alf da Coleção Folha – 50 Anos de Bossa Nova. Uma coletânea linda com um defeito quase insuportável: não tem “Eu e A Brisa”, um dos maiores clássicos do homenageado.
Cada vez que ouço suas gravações antigas, fica mais notória para mim a influência de Sarah Vaughan no jeito de cantar do músico carioca. E o balanço alegre de suas composições têm muito da música interpretada por Fred Astaire (não, não é viagem minha: o próprio Alf dizia que os filmes de Hollywood marcaram sua formação artística, mais até que a base erudita que tinha).

Já nas apresentações mais recentes, como a que fez para a “Sala dos Professores”, da Rádio Eldorado, o passar do tempo aparecia no seu canto (não no seu piano), e a sutileza do registro jazzístico de Vaughan ficava bem menos presente. O que não comprometia o impacto de sua performance, repleta de improviso e cada vez mais de volta à fonte do jazz. Se, aos 70 e tantos, Alf não era mais o inovador pré-diluviano, ainda podia brincar à vontade com o ritmo que ouvia nos discos e nos filmes que amava.

Perdemos um dos grandes, e a maioria acéfala entre nós nem soube que ele existia.

* * *

Belíssima introdução de Ruy Castro nas páginas que acompanham o CD da Folha:

“Como seria o universo a alguns minutos da sua própria criação, antes que os sóis explodissem, as estrelas congelassem e os oceanos elegessem os seus leitos? Eis uma pergunta difícil de responder – não há muitas fontes confiáveis. Bem mais fácil é saber como era a Bossa Nova, digamos, a quinze minutos de ser criada. Estava sendo fermentada ao teclado de um piano no pequeno bar do hotel Plaza, na avenida Princesa Isabel, no Rio, bem na fronteira entre o Leme e Copacabana.
O ano era 1954, entrando por 1955, e o jovem ao piano – Johnny Alf, 25 anos – representava aquilo que, no futuro, alguém chamaria de cult.”

por Alexandre Carvalho dos Santos 2 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Persiolino · http://1001covers.blogspot.com

Belo texto,
Infelizmente no nosso país, muitos acéfalos e sem memória irão esquecer Alf, não porque ele não tenha sido genail em sua composições, não por ele ter morrido quase só, não e não. Mas porque não valorizamos os artistas deste país. Valorizamos a fama imediata, fútil e sem valor dos BBBs da vida...
É uma pena!

PermalinkPermalink 06.03.10 @ 13:19



Comentário de: maria · http://ocaminhodafloresta.blogspot.com

Meu nome è Maria, sou italiana morando no Brasil. Com meu blog http://ocaminhodafloresta.blogspot.com/
estou tentando de entender os simbolos e as tendencias do Brasil atual.Seu blog me està ajudando muito. Obrigada!
Maria

PermalinkPermalink 07.03.10 @ 18:22



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Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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