22.02.10
Salinger não era mesmo desse mundo
O clichê manda dizer que 2010 só começa agora, primeira segunda-feira pós-Carnaval, e tanta gente dizendo isso só me reforça a impressão de que as pessoas vivem para trabalhar, e não o contrário.
E todos os dias molhando os pés na praia ou na piscina do prédio? Não contam como 2010? E todos os livros que li e todos os filmes que vi de 1º de janeiro até agora? Não valeram? Para mim valeram, contaram como eventos da minha vida, mais que qualquer reunião de negócios adiada, qualquer movimento de compra e venda postergado.
Daí uma vontade recorrente de ler os personagens de J.D. Salinger, e sua crença de que os valores tradicionais são infundados.
Coincidência dessas que fazem mentes mais crédulas correrem atrás de igrejas e mesas-brancas: três dias antes de Salinger morrer, eu comentava com amigos quão incrível me parecia o autor de O Apanhador no Campo de Centeio ainda estar vivo. O que o homem que criara um dos maiores clássicos da literatura, na primeira metade dos anos 50, deveria achar do mundo no século 21? Não me entrava na cabeça, Salinger usando a Internet ou presenteando parentes com iPods, iPhones, TVs de plasma... Para mim, é como imaginar Shakespeare ou Poe lendo e-books no metrô.
Seus contos sobre a família Glass e os reality-shows da Globo não poderiam ser manifestações culturais de um mesmo planeta.
Agora, ao morrer, Salinger reconstitui a ordem das coisas. Prova que não tem nada a ver com esse mundo – embora seus personagens tenham tanto.
* * *
Se você não leu, não viveu:
1 – O Apanhador no Campo de Centeio (romance)
2 – Um Dia Ideal para Os Peixes-Banana (conto de Nove Estórias)
3 – Para Cima Com a Viga, Moçada (longo conto, publicado junto com Seymour, Uma Introdução, mas essa parte do Seymour é palavrosa e recomendável apenas a quem precisa saber tudo sobre a família Glass)
4 – Para Esmé, Com Amor e Sordidez (conto de Nove Estórias)
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex