17.12.09
Mostra de Cinema de Tiradentes - Cinema sem fronteiras
Da praça principal à estação ferroviária, do chão de pedra às igrejas barrocas, e diante da imponência da Serra de São José, tudo em Tiradentes é cenário de uma experiência estética sem igual. “Lá, tudo é cinematográfico”, confirma Raquel Hallak, a mulher à frente da Universo Produção, me explicando por que escolheu uma cidade sem salas de exibição para realizar uma mostra de cinema. E que mostra...
Dedicada unicamente ao cinema brasileiro contemporâneo, a Mostra de Tiradentes chega, em 2010, à sua 13ª edição, mantendo um nível de qualidade e interesse capaz de atrair muita gente das capitais para suas sessões.
“Nesta época em que festivais anódinos se multiplicam pelo Brasil graças à falta de critério da Petrobras e de outros investidores, a Mostra de Tiradentes permanece com um raro trabalho de curadoria, além de privilegiar o debate e um cinema menos comprometido com as tais leis de mercado, sempre invisíveis e enigmáticas”, afirma Sérgio Alpendre, crítico do Guia da Folha de S. Paulo, criador da revista de cinema Paisà e que não deixa de encarar as seis horas de estrada entre sua casa e a cidade mineira, sempre que é tempo de mostra. Ele diz que vale a pena. “Como existe uma escolha criteriosa na Mostra de Tiradentes, as chances de termos alguns filmes dignos de nota são maiores, ainda que o cinema brasileiro insista em demonstrar safras de gosto duvidoso. Apesar das dificuldades todas, é em Tiradentes que é possível tomarmos contato com um cinema mais interessado na estética do que no status, sendo um exemplo a ser seguido”, avalia.
Este trabalho de curadoria a que Sérgio se refere é realizado por uma comissão de seleção de filmes composta por quatro profissionais ligados ao cinema: Cássio Starling Carlos, crítico da Folha de S. Paulo, Cléber Eduardo e Eduardo Valente, cineastas e críticos da revista eletrônica Cinética, e Ana Siqueira, cineasta de Minas Gerais.
Logística diferenciada
Mas a seleção de bons filmes brasileiros contemporâneos está longe de ser o único desafio enfrentado pelos organizadores da mostra. “Para começar, a logística de se fazer uma mostra de cinema em Tiradentes é muito mais cara que a de qualquer festival feito numa capital”, afirma Raquel Hallak. “O que mais pesa para a produção é o fato de que, nesta mostra, tudo é construído, porque Tiradentes não tem sala de exibição. Então é preciso conseguir investimento também para criar essas salas temporárias, que chegam a receber 400 espectadores numa sessão”.
Raquel explica que, para a edição de 2010, que será realizada de 22 a 30 de janeiro, os convidados terão à disposição três telas de exibição, sendo uma bem na praça principal do centro histórico de Tiradentes. “Esta Mostra de Tiradentes é a prova de que é possível realizar um evento de cinema em qualquer lugar do País”, ressalta Raquel. “Desde que haja vontade política”.
Nascida em São João del-Rei, Raquel Hallak gosta de lembrar que é logo ali, do ladinho da cidade em que nasceu, que o público brasileiro tem, a cada edição, a primeira possibilidade de testemunhar o que será a produção de filmes nacionais ao longo do ano. Para a mostra de 2010, a expectativa da produtora é de que a seleção abranja cerca de cem filmes brasileiros. E a exibição – que é gratuita, vale frisar –, não é a única atração da mostra. De modo a estimular a discussão acerca do novíssimo cinema brasileiro, o evento inclui oficinas, seminários e debates. Há ainda lançamentos de livros e shows musicais vinculados ao festival.
Passado, presente e futuro
A Mostra de Tiradentes é um dos três vértices de um programa cinematográfico realizado pela empresa Universo Produção, chamado Cinema Sem Fronteiras. Somam-se a ela o CineOP e o CineBH.
Com proposta inédita no circuito dos festivais, o CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto – tem foco voltado para o patrimônio cinematográfico brasileiro. Ao estimular a preservação do nosso cinema, sua restauração, memória e identidade, esta mostra permite que a produção do passado dialogue com o cinema atual, descobrindo raízes e tendências. Esta mostra é realizada durante o mês de junho.
Já a CineBH é a mostra que, segundo Raquel, contextualiza o cinema no mercado a que pertence, permitindo a troca de ideias entre profissionais de diversos países, principalmente por meio de debates e, claro, exibições de filmes brasileiros e internacionais. Na última edição, realizada em outubro deste ano, os espectadores tiveram a chance de conferir 77 filmes, que atraíram mais de 15 mil pessoas.
Com este triângulo entre filmes brasileiros contemporâneos, filmes brasileiros do passado e o diálogo com o cinema internacional, o programa Cinema Sem Fronteiras produz eventos individuais, mas complementares, ao alcance do público de Minas Gerais e de todas as partes do Brasil em três épocas do ano.
Não perca
A programação completa com os filmes que serão exibidos na Mostra de Tiradentes estará disponível para consulta a partir do dia 13 de janeiro, no site www.mostratiradentes.com.br
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Matéria minha que será publicada ainda em dezembro na Revista VIVA de São João del-Rei
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex