26.10.09
Freqüentadores da Mostra de Cinema
No começo da década de 90, comecei a freqüentar a Mostra de São Paulo, e num dos primeiros filmes a encontrei na fila. Era amiga de uma amiga, tínhamos nos visto em uma ou outra festa, e aquela era a primeira vez que a encontrava no cinema. Cumprimentamo-nos, improvisamos comentários sobre esse ou aquele filme assistido, até que nos desembaraçamos com um suspiro de alívio. Umas quatro sessões depois, na mesma semana, revi-a na fila: meia três-quartos (era moda na época), óculos pretos, de armação grossa, camiseta de uma banda punk. Era alta, muito branca, bem nascida, estava na agenda de gente da TV e da moda. E, vim a descobrir depois, era assídua nas sessões mais badaladas da Mostra. Criava assunto conforme acumulava horas diante da tela.
Encontrei na mesma Mostra um ex-colega de cursinho, o único com quem eu dividia a intenção de cursar cinema na faculdade. Ele queria fazer filmes pela Embrafilme, eu queria filmar no exterior e achava a Embrafilme uma merda. Divergíamos em nossas ilusões, mas pós-adolescentes são receptivos e procuram coisas em comum; mesmo os estudantes de cinema demoram um tanto até acharem que a vida murcha quando as luzes se acendem.
O que tenho observado nesses anos de Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e confesso que há edições e que vou muito, outras a que vou pouco, é que, como grande evento cultural que é, o festival tem um quê de exposição do Rodin.
Explico para quem não é de São Paulo: Houve aqui, na pinacoteca desta cidade, uma exposição do artista com divulgação sem precedentes na mídia. Resultado: os gatos pingados que realmente apreciam arte, e escultura em particular, tiveram de enfrentar filas assustadoras, repletas de pessoas que mal haviam posto os pés num museu, e pouco suspeitavam de quem fosse Rodin. Mas a exposição era o “must” do momento, e ninguém queria ficar de fora.
Na Mostra de Cinema é a mesma coisa. A cada outubro, gente que vê um ou outro filme por mês, quando vê algum, entope os corredores e saguões de entrada para conferir um filme macedônio com legenda em espanhol. Não entendem patavina, falam mal no final, mas, assim que terminam o café na saída, já estão na correria para a próxima sessão que o jornal da manhã encheu de elogios. Gente de todo tipo, como a amiga da minha amiga, com a qual nunca cruzei no cinema, senão em sessões da Mostra.
Os motivos que a levam à maratona de filmes em tudo diferem dos de meu colega de cursinho. Este, embora também esteja em todas as Mostras, evita os filmes mais badalados, pois sabe que logo entrarão em cartaz. Seu impulso é mais o do explorador, que não pode deixar que uma pérola da Turquia seja descoberta antes por seus pares. Ambiciona um conhecimento enciclopédico a respeito do cinema, ainda que, dependendo do sujeito, não saiba muito bem o que fazer com a memória acumulada; assim como o colecionador, em dado momento da vida, não sabe bem por que tem tantos livros, recortes de jornal ou borboletas raras.
É comum que o cinéfilo bem treinado torça o nariz para a companhia da culturete, do casalzinho, do grupo de amigos falando alto na fila, combinando o restaurante para depois da preliminar no cinema. São os bárbaros invadindo seu pequeno feudo, querendo brincar com o seu brinquedo.
Mas o que não vê é que o cinema não tem dono; é feito para mim, para você, para encher a culturete de assunto na próxima festa, para que o casal se lembre do seu primeiro encontro, para que os amigos se dividam entre os que gostaram e os que dormiram durante o filme, enquanto formam grupos diferentes na separação entre os que vão de vinho e os que vão de cerveja. Se parte das pessoas vai à Mostra como quem vai a uma festa ou participa de uma gincana (vamos ver quem assiste a mais filmes de línguas diferentes!), é direito delas.
Desde que não coloquem o pé nas costas da minha poltrona, fico com a impressão sorridente de que é a magia do cinema atraindo as multidões, e que, se tantos se mobilizam, investem seus trocados, gastam horas no espelho porque há uma mostra de filmes diferentes na cidade, dá para ter esperança de que a estupidez, um dia, deixará de prevalecer.
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Artigo publicado na Revista Paisà, para a Mostra de 2006.
A ilustração é do PC.
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Mais um post que eu quis tirar do limbo dos textos esquecidos, agora por ocasião da Mostra.

Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.