07.10.09

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Phoebe Caulfield no ônibus de Duke Ellington

duke

A moça tinha tatuagens de estrela e um chapéu de cowboy, e tentava se equilibrar no ônibus em movimento enquanto segurava um sanduíche, um suco, uma blusa e puxava pela mão uma menininha loura, de seus quatro ou cinco anos e rabo-de-cavalo. Sentou-se no último assento do ônibus, um assento mais elevado, e mandou a menininha se sentar também. Ela, claro, não obedeceu, e a mãe nem reparou; estava com o suco e o sanduíche, e era atenção demais para ela. Faltava um fone de ouvido.
Lá pelas tantas, a menininha começou a fazer um meio giro num desses ferros em que a gente se segura no ônibus e gritou: “é um carrossel... é um carrossel...”. Ficou com aquilo por uns dez minutos, e eu levei um tempo para entender que o meio giro reproduzia o movimento que faria o corpo da menina reagindo ao rodar de um carrossel, com seus cavalinhos e tudo. Então a coisa fez sentido, olhei para ela e sorri.
Lembrei na hora de Phoebe Caulfield se esbaldando no carrossel, enquanto Holden tinha a derradeira crise de ansiedade em O Apanhador no Campo de Centeio, já no desenlace do livro. A menininha tinha os cabelos como eu imaginava os da Phoebe, e sua alegria era de contagiar defunto. Mesmo a mãe, em sua distração, parecia contente com a criança, embora às vezes soltasse um “senta, vai” sem muita convicção, sem despregar os olhos do que acontecia na rua.

Mas foi aí que percebi que uns tantos passageiros olhavam para trás, para a menininha, com a cara mais zangada do mundo. E resmungando! Era como se a brincadeira de uma garotinha loura num carrossel imaginário produzisse um barulho pior que o das sirenes de ambulâncias ao lado, e o dos motores de caminhões, e o dos outros ônibus, em suas fechadas, e o dos alarmes antifurto de motocicletas, e o das buzinas de outras motocicletas, irrompendo entre os carros e as passeatas de professores e de bancários, ou o ruído agudo de suas próprias cabeças amarguradas, sempre preocupadas, sempre negativas, sempre querendo o pior do outro, encolhidas em suas próprias misérias.

O motorista do meu ônibus da manhã é a cara do Duke Ellington, e tem uma sobriedade incrível, daquelas pessoas bem curtidas pelo tempo, dos negros cantores de blues, e imagino que não ficaria nem um pouco alterado se soubesse quem foi Duke Ellington e que é a cara do jazzista.
Se chego um pouco mais tarde, há um outro ônibus em que o cobrador tem uma simpatia de quem parece a mais bem disposta das pessoas. Não é açucarado nem excessivo; simplesmente está sempre com os olhos cheios de bom humor, e faz questão de deixar o café em cima de uma muretinha, enquanto o ônibus ainda não partiu, sempre que percebe que alguém está tendo problemas com o “bilhete único” na catraca. Outros não dão bola, descansam seus intervalos; ele prefere ajudar.

Por que há pessoas assim e pessoas que fazem caras feias para menininhas louras brincando de carrossel? Misturam-se no vai e vem do ônibus, de um modo que você nem se dá conta de que há umas e outras.

* * *

Ah, comprei um carro, não agüentava mais gente ouvindo som alto no ônibus... de modo que quis recuperar esse post.

O blog é meu, ces't la vie.

por Alexandre Carvalho dos Santos 1 comentário - Permalink
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O Diário Proibido, de Christian Molina

belen-fabra

O melhor filme em cartaz é Deixa Ela Entrar.
O pior é O Diário Proibido.

Vi os dois, com uma semana de diferença, no Espaço Unibanco Augusta (agora tem também o da Pompéia). Impressiona que um lugar com o padrão do Unibanco gaste tela e horário com um softcore do nível desse O Diário... Faz Emmanuelle parecer filme do Buñuel.

Não pelo sexo exposto, que não me choco com isso, até me alegro – e suspeito de reprimidos escandalizados –, mas pelo conjunto desconjuntado: a pobreza das soluções do roteiro, as reviravoltas mal feitas, a montagem amadora e as interpretações desmedidas, fora de lugar.

O Espaço Unibanco já tirou o filme de cartaz, o que não é comum por lá. O normal é o filme sair da sala 1 para a 2 ou 3, pegar uma repescagem na 4 ou na 5, e nisso se vão umas três semanas, pelo menos. Devem ter ficado com vergonha ou ouvido muita reclamação de assíduos como eu.

A história da ninfomaníaca à procura do sentido da existência em O Diário Proibido parece uma trama da "Sala Especial", aquela sessão clássica da Record. Em comum, uma história mal contada, só para justificar bundas e peitos aqui e acolá. Mas, se minhas lembranças da infância não me puxam o tapete, qualquer pornochanchada com a Helena Ramos e o Nuno Leal Maia goleava essa podreira espanhola.

Eu disse lá em cima que é o pior filme em cartaz (e olha que esse Terror na Antártida deve ser um abacaxi sem tamanho). Mas, me corrijo: é o pior filme do ano. Pelo menos dos que eu vi, e não foram poucos.

* * *

Sei que deveria conferir, para poder falar a respeito. Mas achei o primeiro Che, do Soderbergh, uma lenga-lenga tão anestesiante, que só vou ver esse Che 2 – A Guerrilha se ganhar muito bem para isso.
Está todo mundo dizendo que é pior que o primeiro. Então, imagine...

por Alexandre Carvalho dos Santos 4 comentários - Permalink

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