30.10.09
Multidão de aiatolás ameaça garota na Uniban, em São Bernardo
Li na Folha de hoje. A matéria se chama, muito apropriadamente, “Taleban na faculdade”. Mas a reportagem não era sobre uma instituição de ensino religioso do Afeganistão ou de qualquer outro país estacionado na selvageria da Idade Média. Era sobre fato ocorrido semana passada em uma universidade de São Bernardo. Aqui do ladinho, aqui no que deveria ser a região mais desenvolvida do País.
Diz a reportagem: “Cerca de 700 alunos da Uniban, Universidade Bandeirante de São Paulo, pararam as aulas do noturno para perseguir, xingar, tocar, fotografar, ameaçar de estupro, cuspir. Tudo isso contra uma aluna do primeiro ano do curso de turismo”.
O apedrejamento público teve o seguinte motivo: como iria para uma festa depois da aula, a aluna foi à faculdade usando um vestido excessivamente curto, que, combinado com seus olhos verdes, cabelos loiros, maquiagem e salto, resultava num mulherão para lá de provocante.
Como você reagiria se visse uma moça assim, vestida de femme fatale, caminhando pelo corredor da sua escola? Daria uma bela medida e tomaria um beliscão da namorada? Cutucaria o amigo e sussurraria alguma obscenidade, com um sorriso sacana? Pensaria que a roupa não estava de acordo com o ambiente e guardaria sua análise de moda para si?
Não foi o que fizeram centenas de aiatolás de 18 a 20 e poucos anos que estudam na Uniban. Os débeis mentais (rapazes e garotas) acuaram a menina numa classe, chamaram-na de puta, ameaçaram-na de estupro, tentaram usar o celular para tirar fotos por baixo do seu vestido... E não eram duas ou três pessoas, não eram nem dez ou quinze. Era uma multidão, o jornal falou em 700 alunos ameaçando e xingando a moça. Ela teve de deixar a faculdade escoltada pela Polícia Militar. Só não entendi, já que a polícia estava lá, por que nenhum dos ofensores e estupradores em potencial foi preso.
O que os alunos da Uniban tinham (têm) na cabeça? Como gente desse tipo arranja diploma em faculdade num país civilizado? Que status moral têm todos esses jovens para atirar pedras numa garota vestida de maneira sensual?
E se, em vez de uma aluna com um belo par de pernas, fosse mesmo uma prostituta, perdida naquele templo do saber? Aí estaria liberado o linchamento? O estupro? Que merda de futuros pais de família hipócritas, preconceituosos e socialmente retardados essa faculdade está abrigando?
Se a direção da Uniban quiser declarar ao País que considera uma aberração o que aconteceu em sua unidade de São Bernardo, deve concluir uma sindicância com a expulsão de todos os alunos envolvidos no episódio.
Se não o fizer, e acho que não o fará, deve transferir suas unidades para algum país do Oriente Médio, onde a ignorância e a brutalidade que saíram do armário em seus corredores, semana passada, são amiúde confundidas com retidão moral.
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Os alunos que não participaram do vandalismo – e que não concordam com ele – devem estar morrendo de vergonha de voltar para a classe. E se perguntando se não estão estudando no lugar errado.
26.10.09
Freqüentadores da Mostra de Cinema
No começo da década de 90, comecei a freqüentar a Mostra de São Paulo, e num dos primeiros filmes a encontrei na fila. Era amiga de uma amiga, tínhamos nos visto em uma ou outra festa, e aquela era a primeira vez que a encontrava no cinema. Cumprimentamo-nos, improvisamos comentários sobre esse ou aquele filme assistido, até que nos desembaraçamos com um suspiro de alívio. Umas quatro sessões depois, na mesma semana, revi-a na fila: meia três-quartos (era moda na época), óculos pretos, de armação grossa, camiseta de uma banda punk. Era alta, muito branca, bem nascida, estava na agenda de gente da TV e da moda. E, vim a descobrir depois, era assídua nas sessões mais badaladas da Mostra. Criava assunto conforme acumulava horas diante da tela.
Encontrei na mesma Mostra um ex-colega de cursinho, o único com quem eu dividia a intenção de cursar cinema na faculdade. Ele queria fazer filmes pela Embrafilme, eu queria filmar no exterior e achava a Embrafilme uma merda. Divergíamos em nossas ilusões, mas pós-adolescentes são receptivos e procuram coisas em comum; mesmo os estudantes de cinema demoram um tanto até acharem que a vida murcha quando as luzes se acendem.
O que tenho observado nesses anos de Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e confesso que há edições e que vou muito, outras a que vou pouco, é que, como grande evento cultural que é, o festival tem um quê de exposição do Rodin.
Explico para quem não é de São Paulo: Houve aqui, na pinacoteca desta cidade, uma exposição do artista com divulgação sem precedentes na mídia. Resultado: os gatos pingados que realmente apreciam arte, e escultura em particular, tiveram de enfrentar filas assustadoras, repletas de pessoas que mal haviam posto os pés num museu, e pouco suspeitavam de quem fosse Rodin. Mas a exposição era o “must” do momento, e ninguém queria ficar de fora.
Na Mostra de Cinema é a mesma coisa. A cada outubro, gente que vê um ou outro filme por mês, quando vê algum, entope os corredores e saguões de entrada para conferir um filme macedônio com legenda em espanhol. Não entendem patavina, falam mal no final, mas, assim que terminam o café na saída, já estão na correria para a próxima sessão que o jornal da manhã encheu de elogios. Gente de todo tipo, como a amiga da minha amiga, com a qual nunca cruzei no cinema, senão em sessões da Mostra.
Os motivos que a levam à maratona de filmes em tudo diferem dos de meu colega de cursinho. Este, embora também esteja em todas as Mostras, evita os filmes mais badalados, pois sabe que logo entrarão em cartaz. Seu impulso é mais o do explorador, que não pode deixar que uma pérola da Turquia seja descoberta antes por seus pares. Ambiciona um conhecimento enciclopédico a respeito do cinema, ainda que, dependendo do sujeito, não saiba muito bem o que fazer com a memória acumulada; assim como o colecionador, em dado momento da vida, não sabe bem por que tem tantos livros, recortes de jornal ou borboletas raras.
É comum que o cinéfilo bem treinado torça o nariz para a companhia da culturete, do casalzinho, do grupo de amigos falando alto na fila, combinando o restaurante para depois da preliminar no cinema. São os bárbaros invadindo seu pequeno feudo, querendo brincar com o seu brinquedo.
Mas o que não vê é que o cinema não tem dono; é feito para mim, para você, para encher a culturete de assunto na próxima festa, para que o casal se lembre do seu primeiro encontro, para que os amigos se dividam entre os que gostaram e os que dormiram durante o filme, enquanto formam grupos diferentes na separação entre os que vão de vinho e os que vão de cerveja. Se parte das pessoas vai à Mostra como quem vai a uma festa ou participa de uma gincana (vamos ver quem assiste a mais filmes de línguas diferentes!), é direito delas.
Desde que não coloquem o pé nas costas da minha poltrona, fico com a impressão sorridente de que é a magia do cinema atraindo as multidões, e que, se tantos se mobilizam, investem seus trocados, gastam horas no espelho porque há uma mostra de filmes diferentes na cidade, dá para ter esperança de que a estupidez, um dia, deixará de prevalecer.
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Artigo publicado na Revista Paisà, para a Mostra de 2006.
A ilustração é do PC.
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Mais um post que eu quis tirar do limbo dos textos esquecidos, agora por ocasião da Mostra.
07.10.09
Phoebe Caulfield no ônibus de Duke Ellington
A moça tinha tatuagens de estrela e um chapéu de cowboy, e tentava se equilibrar no ônibus em movimento enquanto segurava um sanduíche, um suco, uma blusa e puxava pela mão uma menininha loura, de seus quatro ou cinco anos e rabo-de-cavalo. Sentou-se no último assento do ônibus, um assento mais elevado, e mandou a menininha se sentar também. Ela, claro, não obedeceu, e a mãe nem reparou; estava com o suco e o sanduíche, e era atenção demais para ela. Faltava um fone de ouvido.
Lá pelas tantas, a menininha começou a fazer um meio giro num desses ferros em que a gente se segura no ônibus e gritou: “é um carrossel... é um carrossel...”. Ficou com aquilo por uns dez minutos, e eu levei um tempo para entender que o meio giro reproduzia o movimento que faria o corpo da menina reagindo ao rodar de um carrossel, com seus cavalinhos e tudo. Então a coisa fez sentido, olhei para ela e sorri.
Lembrei na hora de Phoebe Caulfield se esbaldando no carrossel, enquanto Holden tinha a derradeira crise de ansiedade em O Apanhador no Campo de Centeio, já no desenlace do livro. A menininha tinha os cabelos como eu imaginava os da Phoebe, e sua alegria era de contagiar defunto. Mesmo a mãe, em sua distração, parecia contente com a criança, embora às vezes soltasse um “senta, vai” sem muita convicção, sem despregar os olhos do que acontecia na rua.
Mas foi aí que percebi que uns tantos passageiros olhavam para trás, para a menininha, com a cara mais zangada do mundo. E resmungando! Era como se a brincadeira de uma garotinha loura num carrossel imaginário produzisse um barulho pior que o das sirenes de ambulâncias ao lado, e o dos motores de caminhões, e o dos outros ônibus, em suas fechadas, e o dos alarmes antifurto de motocicletas, e o das buzinas de outras motocicletas, irrompendo entre os carros e as passeatas de professores e de bancários, ou o ruído agudo de suas próprias cabeças amarguradas, sempre preocupadas, sempre negativas, sempre querendo o pior do outro, encolhidas em suas próprias misérias.
O motorista do meu ônibus da manhã é a cara do Duke Ellington, e tem uma sobriedade incrível, daquelas pessoas bem curtidas pelo tempo, dos negros cantores de blues, e imagino que não ficaria nem um pouco alterado se soubesse quem foi Duke Ellington e que é a cara do jazzista.
Se chego um pouco mais tarde, há um outro ônibus em que o cobrador tem uma simpatia de quem parece a mais bem disposta das pessoas. Não é açucarado nem excessivo; simplesmente está sempre com os olhos cheios de bom humor, e faz questão de deixar o café em cima de uma muretinha, enquanto o ônibus ainda não partiu, sempre que percebe que alguém está tendo problemas com o “bilhete único” na catraca. Outros não dão bola, descansam seus intervalos; ele prefere ajudar.
Por que há pessoas assim e pessoas que fazem caras feias para menininhas louras brincando de carrossel? Misturam-se no vai e vem do ônibus, de um modo que você nem se dá conta de que há umas e outras.
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Ah, comprei um carro, não agüentava mais gente ouvindo som alto no ônibus... de modo que quis recuperar esse post.
O blog é meu, ces't la vie.
O Diário Proibido, de Christian Molina
O melhor filme em cartaz é Deixa Ela Entrar.
O pior é O Diário Proibido.
Vi os dois, com uma semana de diferença, no Espaço Unibanco Augusta (agora tem também o da Pompéia). Impressiona que um lugar com o padrão do Unibanco gaste tela e horário com um softcore do nível desse O Diário... Faz Emmanuelle parecer filme do Buñuel.
Não pelo sexo exposto, que não me choco com isso, até me alegro – e suspeito de reprimidos escandalizados –, mas pelo conjunto desconjuntado: a pobreza das soluções do roteiro, as reviravoltas mal feitas, a montagem amadora e as interpretações desmedidas, fora de lugar.
O Espaço Unibanco já tirou o filme de cartaz, o que não é comum por lá. O normal é o filme sair da sala 1 para a 2 ou 3, pegar uma repescagem na 4 ou na 5, e nisso se vão umas três semanas, pelo menos. Devem ter ficado com vergonha ou ouvido muita reclamação de assíduos como eu.
A história da ninfomaníaca à procura do sentido da existência em O Diário Proibido parece uma trama da "Sala Especial", aquela sessão clássica da Record. Em comum, uma história mal contada, só para justificar bundas e peitos aqui e acolá. Mas, se minhas lembranças da infância não me puxam o tapete, qualquer pornochanchada com a Helena Ramos e o Nuno Leal Maia goleava essa podreira espanhola.
Eu disse lá em cima que é o pior filme em cartaz (e olha que esse Terror na Antártida deve ser um abacaxi sem tamanho). Mas, me corrijo: é o pior filme do ano. Pelo menos dos que eu vi, e não foram poucos.
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Sei que deveria conferir, para poder falar a respeito. Mas achei o primeiro Che, do Soderbergh, uma lenga-lenga tão anestesiante, que só vou ver esse Che 2 – A Guerrilha se ganhar muito bem para isso.
Está todo mundo dizendo que é pior que o primeiro. Então, imagine...



Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex