13.08.09
Seu Tatu contra os livros
Diariamente. Uma hora de almoço, metade do tempo para colocar a leitura em dia. Me sirvo no pote de plástico, jogo um pouco de conversa fora e fujo da vista para abrir um livro ou jornal. Era assim sempre, diariamente, até que ele me descobriu.
É palmeirense, o jardineiro. Seu Tatu. O Pet chama de Seu Luís, os outros todos chamam de Seu Tatu. E há outros palmeirenses na firma: o Pet, o Rosário, o Menezes, o Edílson, o chefe... Mas o Tatu cismou foi comigo.
“Heeeein...”, é o jeito que ele anuncia a proximidade. No começo, eu pensava: será que ele não está vendo o livro no colo, meus olhos indo da direita para a esquerda, a mão no queixo? Hoje eu já sei, toda essa comunicação não-verbal não comunica nada para o Tatu. Eu posso estar com a Bíblia de Gutenberg na mão, ele tem assuntos mais sagrados, e que não podem esperar: “Então, o Vágner Love vem ou não vem?”.
A desgraça é que a falta de educação, no caso, não é a que apontamos em quem sopra o cigarro na nossa cara ou coloca o pé nas costas da poltrona do cinema. Sua carência é literal, e ele não se orgulha dela ou de incomodar os outros – como quem ouve música alta no ônibus. Sua intromissão, seguida da insistência, é tão inocente e tão amiga que eu, depois de uns tantos resmungos sem levantar os olhos, fecho o livro e respondo, sorrindo, sorrindo de verdade: “Bem que podia vir, mas acho que não vem”.
* * *
Alemanha Ano Zero, segunda-feira, no curso do Inácio. Engraçado como o neo-realismo reúne cinemas tão diferentes, embora os temas sejam próximos. De Sica quer fazer chorar, Rossellini quer que você decida o que vai sentir, Visconti é sempre majestoso, operístico.
Difícil, então, falar num estilo neo-realista. Melhor dizer que houve um momento neo-realista. Quando os acontecimentos – a Europa devastada pela 2ª Guerra – precisavam ser contados, sem fantasia.
* * *
Seu Tatu é crente. Mas um tipo de crente que não fala de Jesus – sua religião é o Palmeiras. O pessoal da oficina me disse que virou crente para parar de beber. Que, em Pernambuco, voltava das canas empurrado num desses carrinhos de pedreiro - roncando.
Hoje cuida das flores da firma. E do Vágner Love, do Marcos, do Diego Souza, do Muricy... De um modo compartilhado que me obriga a descuidar do Machado, do Graciliano, do Kerouac...
Nas nossas prosas, vale mais ser um Obina que um Dom Casmurro.
Glossário para quem ignora as leis do impedimento:
- Vágner Love – atacante que começou no Palmeiras, hoje joga na Rússia - talvez volte, talvez não. Eu duvido.
- Marcos – melhor goleiro da história do futebol brasileiro.
- Diego Souza – meia-atacante do Palmeiras.
- Muricy – técnico do Palmeiras, ex-técnico do São Paulo; há quem diga que segue os passos do Bernardinho no vôlei, por ter trocado o time feminino pelo masculino.
- Obina – folclórico atacante do Palmeiras, cara gente boa, mais simpático que eficiente.
* * *
Kerouac – estou com Visões de Cody, novinho, esperando por mim. Mas vou emendar um livro para trabalho em outro. Pelo menos, o segundo é sobre cinema. Cody vai ter de esperar. O Leite Derramado do Chico também.
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Comentários:
post do avesso.
de de sica a seu luís.
o apreço não tem preço.
com muito love,
young é diferente de lennon.
Abraço
Marcola
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex