23.06.09

Permalink Categorias: Cinema, Música   Portuguese (BR)

Loki - Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle

arnaldo1

Era comecinho dos anos 90 quando tentei assistir ao filme Maldito Popular Brasileiro, de Patrícia Moran, que deve ter sido o primeiro documentário sobre a trajetória do Arnaldo Baptista. O filme seria exibido no Elétrico Cineclube, na Rua Augusta, onde vi filmes do Greenaway e do Lynch, mas a exibição foi cancelada na última hora. Se me lembro bem, foi uma proibição que partiu dos familiares do artista.
Sendo assim, eu não imaginava que existissem cenas filmadas de Arnaldo tocando com a Patrulha do Espaço ou um clipe de “Será Que Eu Vou Virar Bolor?” (continuo não sabendo se o filme de Moran tem isso).

O ótimo documentário Loki – Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle, soma essas surpresas à delicadeza com que trata seu personagem, o herói trágico que, antes da queda, nos forjou a melhor banda brasileira de rock de todos os tempos, uma das melhores do mundo, e ainda criou um álbum brilhante de dor-de-cotovelo depois de um rompimento amoroso - com a Rita Lee, para quem não sabe.

Sean Lennon, assim como muita gente, compara Arnaldo ao Syd Barrett, o que é válido se a gente pensar que os dois perderam o prumo de tanto que se entupiram de LSD. Ou que os dois foram líderes de bandas marcadas pela invenção (no caso do Pink Floyd, eu falo daquele começo com o Syd Barrett; depois tudo ficou chato e mastodôntico). Mas eu vejo o Arnaldo muito mais próximo do Brian Wilson, pelos arranjos imaginativos e a força das composições. No meu pódio musical, os Mutantes estão em segundo lugar, abaixo apenas dos Beatles. “She’s My Shoo-Shoo”, “Ando Meio Desligado”, “Virgínia” (em português), “Balada do Louco” são criações magistrais de uma banda que teve trajetória breve, para nosso prejuízo.

Mas você ainda não nasceu se nunca ouviu o primeiro disco-solo do Arnaldo Baptista. Lóki? marca um rompimento com o rock progressivo de O A e O Z, último disco (ele prefere LP) à frente dos Mutantes, para misturar MPB, bossa nova e rock num combinado personalíssimo e pungente, em que a maioria das canções chora a nostalgia de um amor (aquele) e de dias mais felizes.

O filme de Fontenelle dá a devida dimensão do trabalho desse moleque fantástico da Pompéia e de Juiz de Fora, que encantou gente do calibre de Caetano, Gil, Kurt Cobain, Sean Lennon (tá, mas é filho do homem) e Rogério Duprat.
Se tem o ponto da homenagem, o filme também não esconde nada debaixo do tapete. Antonio Peticov confessa que foi quem apresentou o LSD a Arnaldo, a atriz Martha Mellinger fala sobre o filho que tiveram juntos, há depoimentos sobre os comportamentos anormais de Arnaldo, e cenas até constrangedoras de sua volta ao palco, depois do coma que se seguiu a sua tentativa de suicídio. O filme evita, com razão, fofocas sobre o fim dos Mutantes, as infidelidades conjugais do artista e as trocas de casais envolvendo o trio principal dos Mutantes.

O que faltou? O que faltou mesmo foi Rita Lee falar, e a Rita não fala sobre Arnaldo. O que é perfeitamente compreensível. Ela tem seus motivos e não é obrigada a nada. Mas, sendo quem foi na vida do artista e para a banda que o projetou, essa falta é um buraco enorme no filme.
Também senti falta de um depoimento do Carlos Calado, autor da biografia da banda: A Divina Comédia dos Mutantes, livro obrigatório para quem quer se aprofundar em Arnaldo Baptista. Calado, que entende tudo de jazz e tem obras sólidas sobre música brasileira, ajuda a entender o que foi o petardo juvenil que embriagou a Tropicália, numa obra que completa este documentário como registro de um autêntico gênio da música jovem.

* * *

Difícil foi agüentar um imbecil bêbado, na sessão em que vi o filme, no Frei Caneca, querendo impressionar a namorada, comentando todas as passagens do documentário, cantando junto, ignorando a indignação de outros espectadores... Uma falta de educação que, em outro nível, não tem sido exclusividade de bêbados. O que acaba dando razão a quem não troca de jeito nenhum o DVD da sala de estar por uma sessão pública, com outras pessoas.

* * *

mutantes 1

Pensei em incluir aqui um ranking dos discos dos Mutantes, mas desisti. Acho que, com a formação clássica (Arnaldo, Rita e Sérgio), assim como acontece com meus discos dos Beatles, cada vez que ouço redescubro um “melhor disco do mundo”.

por Alexandre Carvalho dos Santos 7 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Daison

Muito engraçado seu comentário sobre o bêbado... Aqui em POA a sessão foi atrapalhada por duas velhinhas que exageraram no perfume, que caíram não sei como na exibição!
Tavam toda hora comentando "ah que drogado", "deve tomar todas hoje" etc.
Sobre o Maldito Pouplar, fale comigo. Apesar de não ter aquelas cenas espetaculares que você citou...

PermalinkPermalink 23.06.09 @ 17:08



Comentário de: João

Legal sua crítica. Eu não esperava ver a Rita nem no Loki nem em nenhum documentário sobre O cara. A lacuna desta ausência é certa. Faz falta é certo mas devia ter o Serginho melhor utilizado sem a máscara que ele usa. E o outro irmão dos Batista que fazia inclusive os instrumentos e pedais deles: o Cláudio César. Ele está no Lóki?
Não gostei do título do documentário pois é dito que o LP ganhou este apelido por causa da gravadora. Pelo menos o Calado diz isso no livro dele. Que aliás poderia ter sido escrito num tempo mais demorado, para poder caprichar mais, ter entrevistado o Serginho por exemplo que me disse quando me encontrei com ele numa loja de guitarras em São Paulo que não havia sido procurado pelo Calado.
Outra do Calado: ele diz no livro entre outros palpites que o Lóki teria sido influenciado pelo som do Elton John. Acho que só ele ouviu isso no disco. Elton John... Francamente.
Quando ao documentário que você teve a sessão cancelada tenho ele aqui. Fale comigo e combinamos. Abs. Parabéns pela coluna.

PermalinkPermalink 23.07.09 @ 17:29



Comentário de: rafa

faltou também o cláudio, irmão mais velho do arnaldo e do s''ergio. parece que nao quis participar.

PermalinkPermalink 21.01.10 @ 19:58



Comentário de: Paulo Costa

gostaria de assistir esse documetário na integra,alguem pode me ajudar?? aguardo,obrigado...

PermalinkPermalink 10.04.10 @ 21:22



Comentário de: Alexandre Carvalho dos Santos Email · http://www.interney.net/blogs/rolleiflex/

Oi, Paulo.

Você é de São Paulo? Porque passou ontem na TV Cultura.

E já está nas locadoras também. Em São Paulo, com certeza você acha na 2001.

Um abraço.

PermalinkPermalink 10.04.10 @ 21:59



Comentário de: zhungarian


Faltou o Cláudio "Régulus".

A Rita envelheceu mais que todos eles. Uma pena. Gosto das músicas dela, mas enxergo nela uma couraça intransponível na ironia que costuma destilar toda vez que fala dos Mutantes.

O filme é importante, pois mostra quem era a alma dos Mutantes.

PermalinkPermalink 27.11.10 @ 16:08



Comentário de: deborah dornellas

Filme emocionante. Pra ver muitas vezes!

PermalinkPermalink 29.12.10 @ 12:35



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Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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