30.06.09

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Jean Charles, de Henrique Goldman

jean

Só fui assistir a Jean Charles porque me parecia a menos desinteressante entre as opções do Marabá. Chovia, fazia aquele frio no sábado... e o redivivo Marabá fica a coisa de três quarteirões do meu prédio. Melhor que ficar em casa no sabadão.

Mas o filme me surpreendeu. Gostei de uma série de escolhas do diretor Henrique Goldman, principalmente a de deixar a questão do assassinato-acidente-erro policial imperdoável para o final da trama. Assim, conseguiu direcionar o interesse para tudo o que é o seu filme, em vez de levar para a ficção uma investigação, uma polêmica e uma lamentação que teriam melhor lugar num documentário.
Sem a obrigatoriedade da discussão sobre a culpa da polícia inglesa, conseguimos perceber as virtudes do trabalho de Goldman:
1 – Consegue, até certo ponto, que Selton Mello incorpore o personagem, em vez de submeter Jean Charles à representação arquetípica de Selton Mello. O padrão que o ator tem incorporado se prova eficiente em comédias – Jerry Lewis é sempre Jerry Lewis, e a gente acha ótimo –, mas acaba comprometendo quando a finalidade extrapola o riso.
2 – Substitui a questão da culpa da polícia, já tão explorada na TV e nos jornais, por outro alicerce, que é a vida dos brasileiros que residem e trabalham ilegalmente na Inglaterra: seus dramas, medos, pequenas alegrias, a dificuldade com a língua...
3 – O personagem com o qual nos identificamos não é Jean Charles – embora este tenha mais tempo na tela –, mas sua prima (Vanessa Giácomo). Essa escolha é fundamental para a graça do filme, porque permite que, em vez de experimentar o clichê do “jeitinho brasileiro” que caracteriza Jean, o espectador compartilhe os sentimentos conflitantes do estrangeiro. Vemos, então, a repulsa inicial se transformar num amor escondido, a indignação e a aceitação se confundindo num retrato perfeito do que é a nossa ambigüidade e também do que é a nossa capacidade de mudar e de apre(e)nder.

Se tem uma opção do diretor que me incomodou, foi a insistência em nos lembrar, a toda hora, das circunstâncias que levaram ao assassinato do eletricista brasileiro. Acho que ficaria bem mais sutil sem tantas imagens de programas de TV (solução mais que desgastada) chamando a atenção para a paranóia diante da ameaça terrorista.
Desde o começo, o filme vai te avisando: eles estão suspeitando de qualquer um, vai sobrar para o Jean Charles... Não precisava.

* * *

A Trip está bem de colaboradores. Foi nessa publicação que eu tive um primeiro contato com os nomes de Henrique Goldman e Carlos Nader, que assinam colunas mensais na revista.
Nader dirigiu o belíssimo e poético documentário sobre Waly Salomão. E agora Goldman manda bem em um projeto cheio de armadilhas.

por Alexandre Carvalho dos Santos 1 comentário - Permalink

23.06.09

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Loki - Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle

arnaldo1

Era comecinho dos anos 90 quando tentei assistir ao filme Maldito Popular Brasileiro, de Patrícia Moran, que deve ter sido o primeiro documentário sobre a trajetória do Arnaldo Baptista. O filme seria exibido no Elétrico Cineclube, na Rua Augusta, onde vi filmes do Greenaway e do Lynch, mas a exibição foi cancelada na última hora. Se me lembro bem, foi uma proibição que partiu dos familiares do artista.
Sendo assim, eu não imaginava que existissem cenas filmadas de Arnaldo tocando com a Patrulha do Espaço ou um clipe de “Será Que Eu Vou Virar Bolor?” (continuo não sabendo se o filme de Moran tem isso).

O ótimo documentário Loki – Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle, soma essas surpresas à delicadeza com que trata seu personagem, o herói trágico que, antes da queda, nos forjou a melhor banda brasileira de rock de todos os tempos, uma das melhores do mundo, e ainda criou um álbum brilhante de dor-de-cotovelo depois de um rompimento amoroso - com a Rita Lee, para quem não sabe.

Sean Lennon, assim como muita gente, compara Arnaldo ao Syd Barrett, o que é válido se a gente pensar que os dois perderam o prumo de tanto que se entupiram de LSD. Ou que os dois foram líderes de bandas marcadas pela invenção (no caso do Pink Floyd, eu falo daquele começo com o Syd Barrett; depois tudo ficou chato e mastodôntico). Mas eu vejo o Arnaldo muito mais próximo do Brian Wilson, pelos arranjos imaginativos e a força das composições. No meu pódio musical, os Mutantes estão em segundo lugar, abaixo apenas dos Beatles. “She’s My Shoo-Shoo”, “Ando Meio Desligado”, “Virgínia” (em português), “Balada do Louco” são criações magistrais de uma banda que teve trajetória breve, para nosso prejuízo.

Mas você ainda não nasceu se nunca ouviu o primeiro disco-solo do Arnaldo Baptista. Lóki? marca um rompimento com o rock progressivo de O A e O Z, último disco (ele prefere LP) à frente dos Mutantes, para misturar MPB, bossa nova e rock num combinado personalíssimo e pungente, em que a maioria das canções chora a nostalgia de um amor (aquele) e de dias mais felizes.

O filme de Fontenelle dá a devida dimensão do trabalho desse moleque fantástico da Pompéia e de Juiz de Fora, que encantou gente do calibre de Caetano, Gil, Kurt Cobain, Sean Lennon (tá, mas é filho do homem) e Rogério Duprat.
Se tem o ponto da homenagem, o filme também não esconde nada debaixo do tapete. Antonio Peticov confessa que foi quem apresentou o LSD a Arnaldo, a atriz Martha Mellinger fala sobre o filho que tiveram juntos, há depoimentos sobre os comportamentos anormais de Arnaldo, e cenas até constrangedoras de sua volta ao palco, depois do coma que se seguiu a sua tentativa de suicídio. O filme evita, com razão, fofocas sobre o fim dos Mutantes, as infidelidades conjugais do artista e as trocas de casais envolvendo o trio principal dos Mutantes.

O que faltou? O que faltou mesmo foi Rita Lee falar, e a Rita não fala sobre Arnaldo. O que é perfeitamente compreensível. Ela tem seus motivos e não é obrigada a nada. Mas, sendo quem foi na vida do artista e para a banda que o projetou, essa falta é um buraco enorme no filme.
Também senti falta de um depoimento do Carlos Calado, autor da biografia da banda: A Divina Comédia dos Mutantes, livro obrigatório para quem quer se aprofundar em Arnaldo Baptista. Calado, que entende tudo de jazz e tem obras sólidas sobre música brasileira, ajuda a entender o que foi o petardo juvenil que embriagou a Tropicália, numa obra que completa este documentário como registro de um autêntico gênio da música jovem.

* * *

Difícil foi agüentar um imbecil bêbado, na sessão em que vi o filme, no Frei Caneca, querendo impressionar a namorada, comentando todas as passagens do documentário, cantando junto, ignorando a indignação de outros espectadores... Uma falta de educação que, em outro nível, não tem sido exclusividade de bêbados. O que acaba dando razão a quem não troca de jeito nenhum o DVD da sala de estar por uma sessão pública, com outras pessoas.

* * *

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Pensei em incluir aqui um ranking dos discos dos Mutantes, mas desisti. Acho que, com a formação clássica (Arnaldo, Rita e Sérgio), assim como acontece com meus discos dos Beatles, cada vez que ouço redescubro um “melhor disco do mundo”.

por Alexandre Carvalho dos Santos 2 comentários - Permalink

16.06.09

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Suje as mãos antes de ler

Resvalei nesse assunto, no último texto, mas já me demoro demais para falar sobre isso.
O negócio é que não engulo essa onda politicamente correta que se pretende defensora da saúde pública, da segurança e dos bons costumes. A propósito, eu não fumo, eu não tenho carro para dirigir depois de beber, não sou praticante de quase nada do que está sendo reprimido por essa onda de proibições.

Mas te digo que nunca fui tão solidário com os fumantes quanto agora. Tenho até ímpetos de aderir ao cigarro. Fumo um dentro de um show de rock, quero ver se alguém me pede para parar. Pensando bem, nem teria graça, porque em show de rock a fumaça não contestaria nada. Vou fumar dentro da igreja, do teatro, da escola das crianças. Arrancam-me o cigarro, dou cinco minutos e acendo outro. Meu pulmão será sacrificado, mas não serei conivente com essa higienização que é quase um delírio religioso. Agora vem me falar de “torcida única” no futebol. É para que tudo, definitivamente, perca a graça? Como se já não bastasse proibirem a cerveja dentro dos estádios...

Ah, mas as estatísticas provam que quem não bebe, não fuma, não come alimentos gordurosos e não faz sexo se envolve menos em briga de rua e em acidente de trânsito. Ótimo, é isso aí. E quem não sai de casa também. E quem não sai da cama também.

Como se todos tivéssemos de ser limpinhos, perfumados, sóbrios, sensatos, esbanjar saúde, comer alimentos funcionais, bater o cartão de ponto no escritório, na cama, na macarronada da sogra, no cinema do shopping de domingo à noite, nas filas dos motéis dos dias dos namorados...
Dizia o Selvagem, no Admirável Mundo Novo, do Huxley: Eu reivindico o direito de ser infeliz.

por Alexandre Carvalho dos Santos 4 comentários - Permalink

12.06.09

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A idéia de jerico da "torcida única"

Parece-me óbvia a escolha do lado certo na questão da "torcida única". Para quem não imagina do que estou falando, as violências recentes perpetuadas por idiotas de torcidas organizadas fizeram com que outros idiotas chegassem a esta conclusão: se, num jogo do Palmeiras contra o São Paulo, por exemplo, só permitirmos a entrada dos torcedores do Palmeiras, não haverá confronto entre torcidas e, portanto, não haverá violência nos estádios.

Sim, não haverá violência, nem graça em torcer. Nem estímulo para o time que jogará sem o apoio da sua torcida. Nem o que entendemos (ou entendíamos) por um jogo de futebol.

O problema são os bandidos? Só pode ser, porque, mesmo que meu time (que é o Palmeiras) perca de 9 x 0 para o Santos, o Corinthians ou o Asa de Arapiraca, eu jamais terei ímpetos de disparar um revólver contra um torcedor santista, corintiano ou arapiraquense (ou seja lá como se chamam os torcedores do Asa, time que deixou tristes lembranças ao meu Verdão). E bandido, que me lembre, é caso de polícia.

A violência, na maioria das vezes, se dá fora do estádio: nas redondezas, nas estações do metrô... A emboscada que matou o corintiano, dias atrás, foi na Marginal, longe do campo de jogo. Era caso de polícia.

Antes de proibir o torcedor de beber cerveja no estádio, de levar bandeiras, de usar a camisa do time do coração, de ir ao estádio em clássicos, as autoridades deveriam proibir a impunidade e a falta de educação.
A noção de que é punido se comete um crime, e punido de forma rigorosa, leva o vândalo mais descerebrado a hesitar diante da possibilidade de uma violência. E, de hesitação em hesitação, uma ponta de luz pode surgir nos recônditos de sua cabeça pouco estimulada, levando as sinapses à seguinte evidência: “não vale a pena”.

A idéia da “torcida única”, me parece, é de quem não acredita que possamos conviver de forma civilizada. É de quem desistiu do ser humano. E segue essa tendência perigosa de proibir tudo, de higienizar a sociedade, evitar que nossos instintos animais andem à solta. Querem levantar grades, evitar encontros, cheiros, beijos; abraços podem transmitir doenças ou estimular um confronto físico, uma luta. Logo não teremos capacidade de diferenciar um abraço de uma briga.

por Alexandre Carvalho dos Santos 1 comentário - Permalink

11.06.09

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Hecatombe coreana

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Parece piada de mau gosto. O mundo se livra de um abutre do calibre de George W. Bush, comemora a eleição de um democrata, culto, negro, sensato, humanista, para o posto de homem mais poderoso do mundo. E eis que Obama, dadas as circunstâncias, corre o risco de ser o primeiro presidente americano a apertar o botão vermelho da bomba nuclear, pós-Hiroshima.
Se chegarem à conclusão de que a Coréia do Norte já tem capacidade de atirar primeiro, não acho que os Estados Unidos esperarão pelo pior.

E é um dilema dos diabos. Cada vez mais, as nações tresloucadas terão acesso a armas de destruição em massa.
O que fazer, então? Matar todos os loucos antes que eles resolvam explodir o planeta? Ou, aí, os loucos seríamos nós?

Eu é que não queria ter de ir para cama pensando nisso.

por Alexandre Carvalho dos Santos 1 comentário - Permalink

10.06.09

Permalink Categorias: Cinema   Portuguese (BR)

Frenesi, de Alfred Hitchcock

frenesi 1

Revi Frenesi, segunda, no curso do Inácio Araujo. Acho que só tinha assistido ao filme no começo dos anos 90, em meus anos heróicos de cinéfilo. Agora foi como se assistisse pela primeira vez.
O filme é de 72, uma fase menos celebrada de Hitchcock, e não tem atores conhecidos, pelo menos não do público brasileiro. É a volta do diretor à Inglaterra, onde não filmava desde a década de 30. E é fantástico.

Um ex-combatente, agora desempregado, é acusado injustamente de matar a ex-mulher e a namorada, confundido com um “maníaco da gravata”, um assassino que estrangula as moças inglesas após estuprá-las.
Temas caros ao cinema de Hitchcock dão as caras aqui: o argumento do “homem errado”, tornado clássico pelo diretor; a combinação de sexo e religião, resultando em perversão; o humor negro, aqui muito mais em primeiro plano, como se Hitchcock se sentisse mais à vontade para partilhar o humor inglês entre os compatriotas.

É um suspense, envolvente como só os filmes de Hitchcock conseguem ser, mas também é engraçado à beça. O policial responsável pelas investigações é a encarnação desse humor típico, comentando as atrocidades do assassino com a fineza de quem divide um chá com o príncipe de Gales. Só parece realmente perturbado quando tem de enfrentar as invenções culinárias da esposa.

Curiosamente, sua mulher é a única que pensa de forma lógica para concluir que o acusado não pode ser o assassino: “Um crime passional depois de dez anos de casamento? Nós temos oito anos de casados, e eu não consigo te manter de olhos abertos na cama”. Todos os outros se baseiam nas aparências, e as aparências todas apontam para o acusado.
São as aparências de que o cinema de Hitchcock é feito. Que levam um homem a amar a imagem de uma mulher, mais que a mulher real (Um Corpo Que Cai), que jogam a culpa nas costas de um inocente (Ladrão de Casaca, O Homem Errado...), que criam o clima onírico que encanta o espectador em busca de fantasia de alto nível. Ainda que a base desse encanto inclua assassinatos, uma cidade dominada por pássaros, ladrões sofisticados, voyeurs...
É a certeza de que somos todos culpados por natureza.

por Alexandre Carvalho dos Santos 1 comentário - Permalink

09.06.09

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O Brasil na tela

Sempre tive a impressão de que o cinema brasileiro nos devia grandes temas da história recente do País, e também um registro artístico, cinematográfico, de nossos personagens: políticos, artistas, atletas, empresários. Nos Estados Unidos, um drama da dimensão da derrota no Maracanã, em 1950, seria motivo para dúzias de produções. Aqui, tivemos alguma coisa para Pelé (emocionante, mas presa à linguagem da TV), um filme de Pedro Joaquim de Andrade sobre Garrincha e uma homenagem ao divino Ademir da Guia, além de filmes dirigidos a torcidas específicas (Grêmio, Corinthians). Todos documentários.
Mas eis que o incentivo fiscal à produção cinematográfica tem diminuído essa carência. De uns tempos para cá, é raro um mês em que não tenhamos a estréia de um documentário nacional, sobre temas nacionais, e os personagens marcantes começaram a aparecer. Para ficar nos mais recentes: Paulo Vanzolini, Wilson Simonal, Titãs, José Lins do Rego, Vinícius, Glauber Rocha, Cartola, Noel Rosa (ficção), Cazuza (ficção), Olga (ficção, péssima), Velha Guarda da Portela... E logo teremos as estréias de documentários sobre o mutante Arnaldo Baptista (Lóki) e sobre Caetano Veloso (Coração Vagabundo). Em matéria de quantidade de filmes sobre personagens brasileiros, fizemos em cinco anos o que não fizemos em um século de cinema.

arnaldo
Arnaldo Baptista, em Lóki

Imagino o que poderia render, nas mãos de um bom diretor, a derrota da Seleção Brasileira de 82, de Zico, Sócrates, Júnior e Falcão; o dia em que os imbecis pensadores do esporte decretaram o fim do futebol-arte, e a glória das retrancas competitivas e sem graça.

por Alexandre Carvalho dos Santos 1 comentário - Permalink

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