29.05.09

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Justine, da Cia. dos Satyros

Assisti às duas peças da Cia. dos Satyros que me faltavam para completar a trilogia dedicada ao Marquês de Sade. Há coisa de dois anos, tinha visto A Filosofia na Alcova. Desta vez, assisti, num intervalo de três dias, a Justine e Os 120 Dias de Sodoma.
Embora as três sejam dirigidas por Rodolfo Garcia Vasquez e tratem de temas quase idênticos – libertinos desvirtuando moças e rapazes de almas e corpos puros – há diferenças entre as encenações. Justine é, de longe, a melhor entre as peças. A criatividade da montagem consegue imprimir um tom de comédia a uma trama que, por si, é trágica.
Justine é a estudante que perde tudo e é abandonada à própria sorte, sofrendo o diabo nas mãos de pervertidos, mentirosos, ladrões, padres libertinos e quem mais cruzasse seu caminho. A pureza da personagem resiste a todas as corrupções (físicas e morais), apenas para que uma outra violência a assalte, expondo o que pode haver de patético em alguém que insiste na virtude em um mundo corrompido.
A montagem dos Satyros não poupa a personagem do aspecto cômico de sua ingenuidade; ao contrário, enfatiza sua graça com uma combinação de linguagens, introduzindo seqüências inspiradas no cinema mudo e no expressionismo alemão. É cruel, mas é ótima.

Diferentemente do que acontece nas outras encenações da trilogia, Justine não se limita à tentativa de chocar o espectador com o que já está no âmago do próprio enredo: a perversão sexual, a nudez dos atores, os diálogos profanos. Justine usa o texto do Marquês de Sade como plataforma de um teatro que dialoga com a mímica, o cinema e o pastelão. Envolve o espectador pela própria força da encenação. Não precisa, para se impor, do choque que as idéias de Sade possam provocar na platéia.

Não duvido que as outras peças dos Satyros tenham sucesso nesta linha de “vamos chocar as pessoas com a nossa devassidão”. O espectador médio se choca com beijo gay em novela, com nudez frontal da cintura para baixo e com qualquer cena que escancare um sexo diferente do papai-e-mamãe-antes-de-dormir. Para quem não se choca, a insistência de Os 120 Dias de Sodoma com as curras e orgias dos libertinos, sem que a montagem traga nada de novo ao texto, não entusiasma. Junto com A Filosofia na Alcova, perece um trabalho ainda verde do diretor perto das soluções imaginativas de Justine.

* * *

Falando nisso, alguém ficou chocado com as cenas de sexo em Desejo e Perigo, do Ang Lee? Só se tiver alguma fobia da coisa...

por Alexandre Carvalho dos Santos 2 comentários - Permalink

22.05.09

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Falando o húngaro de Chico Buarque

budapeste

Walter Carvalho explica o complexo e delicioso trabalho de adaptar o romance Budapeste para o cinema

Por Alexandre Carvalho dos Santos

Imagine a responsabilidade: é sua primeira direção solo de um longa de ficção e lhe vem às mãos a adaptação de um romance, um romance de Chico Buarque, talvez o seu melhor, obra descrita por Caetano Veloso como “um labirinto de espelhos que afinal se resolve, não na trama, mas nas palavras, como os poemas”. Com a missão, aceita por Walter Carvalho, vem a inegável expectativa ligada a tudo o que o escritor, cantor e compositor Francisco Buarque de Hollanda produz.
“O Chico deu sugestões sobre a adaptação de Budapeste, conversamos bastante, ele é generoso e elegante, muito perspicaz”, avalia Walter. “Não impôs nada, mas fez observações que me levaram a pensar. Contou que estava atravessando uma rua, e alguém perguntou: ‘está à toa na vida?’. Achei isso fascinante e transformei numa cena do filme, fruto de uma conversa com ele”.

Walter Carvalho não está à toa na vida. Nem é por acaso que tenha se tornado um dos mais prestigiados diretores de fotografia do cinema brasileiro, parceiro de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Walter Salles. As fotografias de Lavoura Arcaica, Terra Estrangeira, Central do Brasil, Notícias de Uma Guerra Particular, Madame Satã e Carandiru têm sua assinatura, para ficar em uns poucos exemplos. Agora experimenta a direção de um filme de ficção, repetindo a possibilidade artística que já havia abraçado em Cazuza – O Tempo Não Pára, quando foi co-diretor ao lado de Sandra Werneck. Dessa vez dirige sozinho, mas “só” é palavra que não se encaixa bem no trabalho em equipe que desenvolve ao lado de tantos talentos. “Todos na equipe me conhecem, já vivemos juntos muitas situações de trabalho. Eu lia uma frase do livro e todos conversávamos sobre ela. O conceito vem depois do conhecimento e, quando você menos espera, ele está ali na sua frente”.

Na equipe, está ainda seu filho, o também fotógrafo de cinema Lula Carvalho, que, de menino a zanzar nos sets em que o pai trabalhava, passou a profissional de primeira grandeza, da fotografia premiada de Tropa de Elite e A Festa da Menina Morta. E como foi, para o pai, ter o filho ao lado, e desenvolvendo um processo que é tão íntimo de Walter? “Foi muito natural, conversamos bastante, mas a conversa nunca era sobre a questão específica da fotografia, mas sobre tudo o que não é fotografia no filme. Foi assim que Lula chegou a ela, e o mesmo se deu no figurino, no som e nas outras atividades ligadas à produção. Você tem de fugir da questão de como você quer, para então mergulhar na idéia que está se formando na sua cabeça. O bacana é descobrir num colaborador, e isso se deu com meu filho, o que está dentro dele e de mim também. O que caracteriza uma equipe não é um aglomerado de pessoas, mas a descoberta da subjetividade do outro, que é por onde me descubro e como se dá a criação em equipe. Acho que a singularidade de Budapeste, o filme, advém da sua pluralidade”.

Processo vivo de composição
A Rita Buzzar, coube o roteiro e a complexa tarefa de transformar as imagens que se formam na imaginação de cada leitor num encadeamento de representações prontas, definidas. Mas o roteiro, em Budapeste, é parte de um processo vivo de composição, repensado e recriado no dia-a-dia das filmagens, da montagem e da finalização. É o processo interativo e muito particular do diretor Walter Carvalho, que o explica: “Depois de todas as conversas, quando a gente parou para ver os copiões, eu passei a perceber o filme com cabeça, tronco e membros. A fisionomia do filme vai impregnando os trabalhos do dia seguinte. A gente pensa numa maneira de fazer e quando fazer, tira a idéia da teoria e ela volta para você, para o que ainda vai realizar, de modo que passa a descobrir coisas que estão dentro de você. É de fundamental importância que você esteja atento a isso, para que perceba a relação entre o concluído e o que está por vir, e transmita essa fluidez para as outras pessoas, e elas comecem a se dar. É como acontece no meu trabalho de fotógrafo de outros filmes, e quero que aconteça também com quem filma comigo”.

O personagem e seu duplo
O desafio da adaptação de Budapeste, de estar à altura das expectativas, passa pela complexidade de recriar em imagens um contexto baseado, sobretudo, na palavra, no idioma e na tradução. Seu personagem, José Costa, é o ghost writer que desenvolve um fetiche pela língua da Hungria, e então se divide em dois: entre Rio de Janeiro e Budapeste, entre Vanda e Kriska. Diz José Costa sobre o húngaro, a única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita: “Palavra? Sem a mínima noção do aspecto, da estrutura, do corpo mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio a faca”.

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Como conduzir esse universo de reflexão para a mise-en-scène? Como representar a idiossincrasia de um personagem ambíguo e múltiplo, como o de Budapeste? É o que revela seu diretor: “Um dos pontos mais importantes da abordagem que fizemos é a questão do duplo: dois personagens em um só, com duas mulheres, dois filhos, duas cidades, dois países, dois idiomas. Busquei, por oposição, qual a afinidade do personagem com essas cidades; ele ser o mesmo, sendo outro. Não foi uma tradução da palavra pela imagem, mas o ‘transcinema’. Esse foi o exercício que fizemos com o livro do Chico”.

Um olho no livro, outro no quadro
Sentir-se desafiado por uma obra faz parte da própria formação de Walter Carvalho, artista que é também fotógrafo de still e artista plástico – “a fotografia é profissão, mas a pintura é só para mim”, avisa. Suas referências não se restringem ao trabalho de outros fotógrafos, e as primeiras influências lembradas por Walter são as da literatura. “Graciliano, José Lins, Machado, João Cabral foram pessoas que chamaram minha atenção para a vida. Meu primeiro livro foi de José Lins do Rego, e me marcaram muito também Caetano e Bob Dylan, assim como o mundo pictórico dos pré-renascentistas. Minha referência de imagem passa pela questão da perspectiva, pela questão pictórica, e, claro, passa pelos grandes fotógrafos, Robert Frank, Josef Koudelka... Gostaria de ser um deles”.

Crítico da banalização
Do cinema atual, Walter identifica muita coisa boa, mas lamenta um descaso com a força que as imagens sempre deveriam ter. “Há uma grande inflação de imagem no mundo contemporâneo, imagens despotencializadas te bombardeiam a todo instante; as imagens fabricadas dos outdoors. O cinema quer atingir o público a todo custo, quando é o público que deveria atingi-lo, descobri-lo, investigar sua alma. O único jeito de escapar da banalização é ler, estudar, observar, voltar a Cézanne, a Matisse, a Van Gogh, ou você corre o risco de virar um pastiche”.

Nos filmes em que o nome de Walter Carvalho se destaca na produção, as imagens, diferentemente, nunca são baratas, e é para o bem de um cinema em nova ascensão que o público brasileiro deverá assistir a outras obras dirigidas por ele, sempre com o mesmo amor intenso que dedica a tudo o que faz. “Pretendo e vou dirigir outros filmes, mas não posso parar de fotografar, sou um diretor de fotografia que dirige filmes. Os amigos podem me procurar para a fotografia, que estou disponível. Você não pode fazer o que querem que você faça; você tem de fazer o que você sente. Ou você fica louco”.

* * *

Matéria publicada na revista Plano B.

por Alexandre Carvalho dos Santos 3 comentários - Permalink

18.05.09

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Da fé, ou da falta dela

Beleza de texto, o do Luiz Felipe Pondé, na Ilustrada de hoje. Sobre a fé, ou a falta de fé, dele e dos outros. Um tema que sempre chama a minha atenção; para mim, é fascinante a forma como as pessoas dedicam tantas reflexões e submetem seus juízos e comportamentos às interpretações de narrativas antiqüíssimas, de tempos em que um relâmpago era temido como expressão de ira divina.
Mas o texto do Pondé não é o de um ateu militante, mas o de um observador, principalmente de si próprio.

Diz coisas como isto aqui:

“Às vezes, para mim, um sorriso de uma mulher bonita numa manhã qualquer determina minha aceitação do mundo, enquanto que uma alma azeda me torna um cético contumaz. Minhas ideias são como que escravas de um gesto doce ou de um corpo belo.
Por temperamento sou um descrente, por sorte não sou um niilista: o mundo sempre me salva de mim mesmo. A fé (em qualquer coisa) não é uma experiência comum em minha vida. Muitas pessoas julgam a vida impossível sem a fé. Acho que elas se enganam: a coragem e a gratidão são muito mais importantes do que a fé.“

E isto:

“A beleza que nos cabe, penso, é a que caminha sobre ossos.”

Eu já fui um militante do ateísmo, quando tinha mais ímpeto e menos miolo. Hoje me emociono com a fé dos outros – desde que não sirva de amparo à estupidez. Não é possível assistir à fé ressuscitando os mortos em A Palavra, do Carl Dreyer, e não ser tomado pela emoção. Ainda que o Camus de O Estrangeiro fale mais à minha percepção das coisas e da natureza dos homens.

por Alexandre Carvalho dos Santos 2 comentários - Permalink

13.05.09

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Mademoiselle Nouvelle Vague

Está começando hoje, na Cinemateca, uma mostra imperdível de cinema francês com filmes associados à Nouvelle Vague. A estreia é de gala, com Truffaut (Os Incompreendidos, da minha lista de 10 filmes de todos os tempos) e Godard (Acossado, da lista de muita gente que entende do assunto).

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Jean Seberg, em Acossado

Não precisa correr, porque a mostra é longa, vai até o começo de agosto. Neste primeiro mês, o foco está nos primeiros filmes de diretores importantes (além dos dois citados, Chabrol, Malle, Resnais, Rohmer...) e nas influências desses diretores, com filmes de Renoir e Vigo.
Tudo a módicos 8 reais, a inteira. Se as cópias estiverem em bom estado, vai ser um negócio da China.

Confira a programação de maio no site da Cinemateca.

por Alexandre Carvalho dos Santos 2 comentários - Permalink

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