30.04.09

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Filmes de música na Virada Cultural

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Filmes sobre música (a maioria é documentário) são as atrações da Cinemateca Brasileira nesta Virada Cultural, que vai do fim da tarde do sábado ao fim da tarde do domingo, 2 e 3 de maio. Tem filme que você acha em qualquer lugar, como o Vinícius, do Miguel Faria Jr., até outros mais interessantes, como Hype!, de Doug Pray, um documentário sobre o movimento grunge nos Estados Unidos, e A Festa Nunca Termina, de Michael Winterbottom, filmão sobre a Factory, a gravadora do Joy Division e do Happy Mondays, que deixa o Control no chinelo.

Ah, tudo de graça.

* * *

Confira a programação:

PROGRAMAÇÃO

02.05 | SÁBADO

SALA CINEMATECA BNDES

18h00 ROCK ESTRELA

20h00 MEMÓRIAS EM SUPER-8

22h00 FULL METAL VILLAGE


03.05 | DOMINGO

SALA CINEMATECA BNDES

00h00 A FESTA NUNCA TERMINA

02h15 HYPE!

04h00 STOP MAKING SENSE

05h45 VINiCIUS

08h00 MEMÓRIAS EM SUPER-8

10h00 FULL METAL VILLAGE

12h00 ROCK ESTRELA

14h00 VINiCIUS

16h15 STOP MAKING SENSE


FICHAS TÉCNICAS E SINOPSES

- A festa nunca termina (24 hour party people), de Michael Winterbottom
Inglaterra, 2002, 35mm, cor, 117’ | Legendas em português
Steve Coogan, Shirley Henderson, Sean Harris, Andy Serkis
Manchester, 1976. Inspirado pelo sucesso dos Sex Pistols, o apresentador de TV Tony Wilson resolve montar um selo musical chamado Factory e uma boate chamada Hacienda, tornando-se responsável por descobrir e revelar o talento musical de grupos como Joy Division, New Order e Happy Mondays. Descrevendo a herança musical de Manchester desde a década de 1970 até o início dos anos 90, bem como o surgimento do Joy Division e sua transformação no New Order, o filme ilustra a vibração que fez de Manchester o lugar onde todos gostariam de estar.
Classificação indicativa: 18 anos
dom 03 00h00

- Full metal village, de Sung-Hyung Cho
Alemanha, 2006, 35mm, cor, 90’ | Legendas em espanhol | Exibição em DVD
O céu sobre as vacas ao som de heavy metal alucinante de bandas como Cannibal Corpse, Grave Digger, Raise Hell, Death Angel e Sodom. Isto poderia ser um assunto abundante para um pequeno embate de culturas. Porém, na realidade, o encontro de agricultores do norte da Alemanha e fãs internacionais de hard rock por ocasião do maior festival mundial de heavy metal no vilarejo de Wacken, situado no estado de Schleswig-Holstein, é a coisa mais pacífica do mundo. Um documentário sobre heavy metal tão inusitado quanto divertido.
Classificação indicativa: 14 anos
sáb 02 22h00 | dom 03 10h00

- Hype!, de Doug Pray
EUA, 1996, 35mm, cor, 97’ | Legendas em português
Aclamado documentário sobre o grunge, movimento musical surgido na cidade americana de Seattle no início da década de 1990, responsável por revelar ao mundo nomes como Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden. As músicas desses grupos, moldadas para o underground local, acabaram virando hits planetários; as desleixadas camisas de flanela xadrez que compunham o visual dos músicos da região se tornaram a última moda. O filme narra este capítulo importante da música pop recente pelo ponto de vista de seus protagonistas e inclui performances raras de bandas como Mudhoney, The Posies, 7 Year Bitch, The Melvins e Supersuckers.
Classificação indicativa: 16 anos
dom 03 02h15

- Memórias em Super-8 (Super 8 stories), de Emir Kusturica
Alemanha/Itália/Iugoslávia, 2001, 35mm, cor/pb, 101’ | Legendas em português
Documentário do premiado cineasta – e guitarrista – iugoslavo Emir Kusturica sobre a turnê européia realizada em 2000 por sua banda, a No Smoking Orchestra. O grupo foi fundado em 1980 pelo cantor Nelle Karajilic e procurou, por meio de misturas com o rock’n’roll, o jazz e a música cigana, encontrar as raízes da música dos Bálcãs. Participação especial de Joe Strummer, lendário guitarrista da banda punk The Clash.
Classificação indicativa: 12 anos
sáb 02 20h00 | dom 03 08h00

- Rock estrela, de Lael Rodrigues
Rio de Janeiro, 1986, 35mm, cor, 90’
Diogo Vilela, Léo Jaime, Malu Mader, Andréa Beltrão
Estudante de música clássica chega de Buenos Aires e hospeda-se na casa do primo, líder de uma banda de rock. Enquanto amplia seus horizontes musicais e pessoais, ele tem de decidir entre ficar com sua namorada de infância, agora uma respeitada mulher de negócios, ou com uma jogadora de vôlei que acabou de conhecer. O filme conta com a participação das bandas nacionais Tokyo, Metrô, RPM, Os Melhores, Vírus e da banda argentina La Torre, além dos músicos Celso Blues Boy, Supla e Fito Páez.
Classificação indicativa: 14 anos
sáb 02 18h00 | dom 03 12h00

- Stop making sense, de Jonathan Demme
EUA, 1984, 35mm, cor, 88’ | Legendas em português
Em dezembro de 1983, o diretor Jonathan Demme (de O Silêncio dos Inocentes e Filadélfia) filmou três concertos da banda Talking Heads, realizados no Pantages Theater, em Hollywood. O resultado foi este documentário, exibido à época nos cinemas de todo o mundo, que apresenta, entremeadas a imagens de bastidores, versões ao vivo definitivas para clássicos da banda como “Psycho killer”, “Burning down the house” e “Once in a lifetime”.
Classificação indicativa: 12 anos
dom 03 04h00 | dom 03 16h15

- Vinicius, de Miguel Faria Jr.
Brasil/Espanha, 2005, 35mm, cor, 122’
A montagem de um pocket show em homenagem a Vinicius de Moraes é o ponto de partida para a reconstituição de sua trajetória. O documentário mostra a vida, a obra, a família, os amigos, e os amores deste autor de centenas de poesias e letras de música. A essência criativa do artista e filósofo do cotidiano e as transformações do Rio de Janeiro são vistas por meio de raras imagens de arquivo, entrevistas e interpretações de muitos de seus clássicos. Artistas como Zeca Pagodinho e Adriana Calcanhoto interpretam os grandes clássicos do autor, enquanto grandes nomes da mpb como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Toquinho contribuem com depoimentos.
Classificação indicativa: 10 anos
dom 03 05h45 | dom 03 14h00

por Alexandre Carvalho dos Santos 1 comentário - Permalink

22.04.09

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O golem do Bom Retiro, de Mario Teixeira

ogolemdobomretiro

Se ainda me lembro bem, e se ele me disse o que realmente se passou, meu amigo Mario Teixeira um dia colocou na cabeça que queria conhecer pessoalmente o escritor Marcos Rey. Descobriu o número do telefone, ligou e perguntou se podia, quem sabe, fazer uma visita. Sim, podia. O Mario foi e acabou ficando amigo do Marcos.

Mas por que, dentre todos os escritores brasileiros, meu amigo escolheu o Marcos Rey? Na época, estudávamos juntos na FAAP, e Rubem Fonseca era a sensação: havia acabado de lançar Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, sucesso absoluto nos cadernos culturais, e era o mestre de um brutalismo e uma concisão que nos punham de joelhos.
Mas então o Mario me respondeu que havia escritores que, por melhores artistas que fossem, não pareciam bons sujeitos para se tentar uma aproximação, conversar sobre um filme ou sobre o aumento do preço do pão francês. Já o Marcos Rey, para ele, devia render uma amizade ou um bom papo. Mario havia tirado esse palpite da maneira como o Marcos escrevia, e é claro que ele estava certo. Tanto que ficaram amigos até a morte do escritor, em 1999.

Depois descobri que a explicação do Mario para a escolha do Marcos Rey foi inspirada em uma passagem de O Apanhador no Campo de Centeio; os argumentos do Mario eram amiúde literários (Hemingway, Nabokov...), diferentemente da maioria do povo da faculdade, que citava bordões de novela ou de programas humorísticos (hoje, citam gente dos reality shows).

De qualquer forma, por algum tipo de influência ou porque já estivesse com a coisa na veia, o Mario acabou seguindo os passos do Marcos. Como ele, tornou-se escritor e também roteirista de TV; como ele, traduziu O Sítio do Pica-Pau Amarelo para as tardes da Globo e, como ele, agora se revela autor de obras infanto-juvenis que encantam qualquer adulto.

É o caso de seu segundo romance, O golem do Bom Retiro, uma publicação da Edições SM, lançada ano passado. A trama se desenrola em torno de um menino judeu de São Paulo e seus amigos que, apavorados com as ameaças de um grupo de skinheads, decidem criar um golem, uma criatura fantástica das lendas judaicas, muito forte, que serviria para proteger os judeus; humanoide de argila, sem alma, que no romance torna-se mais humano que o Frankenstein de Shelley.
Por meio de uma aventura sobrenatural, Mario traz para a realidade brasileira os mitos e os termos próprios do judaísmo, combinando ficção de primeira com uma aula de história e cultura, sem cair no didatismo ou nos clichês das lições de moral. “Este livro é verdadeiramente um triunfo”, aponta o escritor Moacyr Scliar na apresentação da obra. E ele entende do assunto. Os mocinhos do romance têm os defeitos e as ambiguidades de todas as crianças em fase de formação – caso de Nico, o menino de rua que usa o golem para roubar sorvete; seus vilões, assustadores e assustados, têm o benefício da dúvida – o aprendiz de skinhead é ignorante dos motivos da suposta supremacia ariana e se enrola com os porquês da violência do grupo.

Reunindo jovens heróis de origens diversas (judeus ortodoxos, a menina católica que briga como moleque, o garoto mulato que dorme na rua), Mario insere lições de tolerância e respeito sem descuidar do ritmo de sua aventura nem do bom humor, marca registrada do homem por trás do escritor: na assimilação do monstro pela família que o acolhe, uma mãe judia o coloca para espanar o pó da sala e polir as panelas.
Aos poucos, o golem se humaniza, mas sua humanidade tem uma pureza que não é deste mundo, o que o levará a questionar seu papel no teatro de que passa a fazer parte. Assim como as crianças, um dia, de um modo ou outro se perguntam o que estão fazendo nesse louco quintal.
Marcos Rey aprovaria.

* * *

Para quem não leu, Marcos Rey (1925–1999) escreveu Memórias de Um Gigolô (que teve versão para a TV com Lauro Corona e Bruna Lombardi nos papéis principais), Ópera de Sabão, Malditos Paulistas, Café na Cama, entre outros romances ambientados na cidade de São Paulo. De sua literatura infanto-juvenil, destacam-se clássicos como O Mistério do Cinco Estrelas, O Rapto do Garoto de Ouro, Um Cadáver Ouve Rádio... e por aí vai...

Ah, e também foi roteirista de muito filme da Boca do Lixo. Da literatura infantil às produções pornô-soft da Rua do Triunfo, o homem mandava bem em todas.

por Alexandre Carvalho dos Santos 3 comentários - Permalink

08.04.09

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Che, de Steven Soderbergh

che

Vi Che na sexta, Valsa com Bashir no sábado. E, de sexta até ontem, revi toda a trilogia O Poderoso Chefão, do Coppola.

Benicio Del Toro realmente impressiona na encarnação do líder guerrilheiro rei das camisetas. Também gostei da reconstituição de época: os camaradas de Che têm mesmo pinta de revolucionários cubanos, não ficou aquela coisa barbuda de butique, e o mesmo pode se dizer dos políticos americanos, quase saídos de um documentário. No entanto, o que mais me chamou a atenção no filme de Steven Soderbergh, infelizmente, foi o quanto ele demora a terminar, e isso nunca é um bom indício sobre a qualidade de uma produção. Por exemplo, anteontem revi O Poderoso Chefão II, que é muito mais longo, tem cerca de três horas e meia de filme, e não senti o tempo passar. Che, diferentemente, provoca bocejos que se repetem com intervalos cada vez mais curtos ao longo da projeção, além de desconforto com a poltrona e desvios de atenção (pensei muito no que iria jantar quando, enfim, o interminável terminasse).

E imagine que este filme é, na verdade, metade de um filme, pois se trata de um projeto de Soderbergh dividido em dois. Por isso, o final repentino e, talvez por isso, a falta de clímax. O herói, por enquanto, é mais Fidel que o médico Ernesto Guevara. Durante as cenas da conquista revolucionária, o Che do filme mais responde às circunstâncias do que as produz. Se não houvesse a lenda, dificilmente um adolescente simpatizante dos desafios à ordem estabelecida sairia do cinema pensando em comprar camiseta, boina, cueca ou caderno com o rosto da figura histórica.
Ainda que Soderbergh jogue do lado dos que só vêem virtudes na trajetória de Che, faltou o extraordinário que transforma líderes empenhados e carismáticos em fixações do imaginário coletivo.

Não sei ainda qual a previsão de estréia da segunda parte, mas sei que só vou assistir se for por obrigação profissional.

* * *

A revisão de O Poderoso Chefão reafirmou minhas impressões anteriores sobre a trilogia. O primeiro filme é uma obra-prima insuperável, cada cena é um trunfo artístico, cada enquadramento, uma peça para colocar na parede e embelezar a sala ou os corredores de um museu. Os diálogos têm lugar definitivo entre os melhores da história do cinema, os personagens são marcantes, a música é perfeita.
O segundo é um filmaço, uma continuação digna da obra-prima que o antecede, enquanto o terceiro é apenas um bom filme, irregular entre passagens geniais e outras que se esforçam visivelmente em justificar uma extensão do que já era perfeito.

al pacino

Além disso, o Al Pacino do último filme não é o mesmo dos dois primeiros, o que gera um problema de continuidade: por mais que uma pessoa mude com a idade, o chefão do terceiro não parece a versão envelhecida do personagem que vimos se transformar, de herói de guerra, em um padrinho de sangue frio. Sai o Michael Corleone seco e de poucas palavras, entra o Al Pacino idiossincrático que conhecemos de Perfume de Mulher e O Advogado do Diabo.

por Alexandre Carvalho dos Santos 2 comentários - Permalink

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