22.03.09

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Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos

vidas secas

O regionalismo dos anos 30 na literatura nacional é paixão confessa de Nelson Pereira dos Santos, artista que tanto reverenciou livros brasileiros, com resultados diversos. Em Vidas Secas, de 63, este amor à obra de Graciliano Ramos se revela por lentes neo-realistas, herdadas de Visconti e Rossellini, mas contaminadas pelo cinema de Jean Vigo e Renoir. Foi por admiração ao autor e ao livro, e não para subverter a essência da literatura, de nos deixar formar imagens de sugestões descritas, que Nelson construiu o plano inicial em que conhecemos a cadela Baleia, a consciência de um País de misérias nos arrabaldes dos carnavais. Foi por seu profundo humanismo, também expresso no belo Raízes do Brasil, sobre Sérgio Buarque de Holanda, que o diretor deu rosto e chão ao personagem Fabiano, o herói trágico de um agreste hostil em que a glória está em sobreviver.

Vidas Secas ora nos atira à cara a impotência dos excluídos e um sofrimento que não se admite, ora nos insinua a distante esperança de uma redenção. É uma temporada no inferno genial como a de Rimbaud, mas que nos leva para dentro daquela família de resistentes, para os grandes silêncios com que o personagem interpretado por Átila Iório se arrasta para a perda da dignidade. Nesta obra maior, a que tanto deveu o Cinema Novo, Nelson Pereira dos Santos ajusta a aridez das mortalhas filmadas à falta de respostas de Fabiano diante do fim das ilusões. Compõe, assim, um retrato esteticamente perfeito de tudo o que Graciliano nos fez imaginar com as palavras.

* * *

Texto meu publicado numa compilação de críticas dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, que resultou na matéria mais comentada da história da Revista Paisà, publicação impressa que virou site e que, infelizmente, agora fecha as portas de maneira oficial, por falta de patrocínio.

por Alexandre Carvalho dos Santos 1 comentário - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Carol

ah, que triste. Agora se juntarão às outras as Viúvas da Paisà.

PermalinkPermalink 23.03.09 @ 21:41



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Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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