16.03.09
Paixão Antiga, da Carol
Poema botequeiro da Carolina Carvalho, moça que, apesar de entusiasta de pés-sujos e malfadados, é do ramo dos banquetes - prova de que os mais finos canapés podem conviver, na alma, com caldinhos de mocofava.
A Carol é poeta de verdade.
Paixão Antiga
Quando o último dos botecos cerrar suas portas para nunca mais
estarei lá,
agachada
mijando atrás de um poste entre as garras da noite,
as longas sombras que se estendem bivalentes.
O Apocalipse chegou, minha gente.
Logo não haverá balcão sebento em que escorar as dores,
nem salão tosco para a falta de decoro,
nem ninguém com cara de quem já viu tudo pra te olhar no olho.
O boteco,
botequinho orgulhoso, senhor de histórias e glórias,
casa de todos e de ninguém,
vai soçobrando aos poucos,
virando moda.
E a moda, minha gente, pede requintes, quitutes, banheiros de mármore de cima a baixo.
Eu te buscarei, derradeiro socorro de portas erguidas,
e a tua confusão que me acolhe,
as vozes e o cheiro da pinga que se evola,
a menina da escola comprando paçoca,
o homem sem perna, a potranca.
No boteco tudo cabe e nada destoa, vale briga, beijo e bofetada,
pode bermuda, chinelo e salto alto,
cabe a puta descansando e um petisco pra madame,
queijo, azeitona, salame,
tem cara de velho e cliente barbudo, tem gente que ri de tudo.
Boteco é onde o desprezível é importante,
o preço da gasolina, a saia da carolina, a casquinha do tremoço,
tudo vale um discurso, um aparte, lágrima inflamada e cerveja gelada,
é lugar de muita emoção.
Não é lugar pra ser visto, mas é o melhor pra se ver,
é onde passa toda a gente, comemorando ou descontente,
pra quem tem pro espetinho e pra quem deve pro gerente,
dinheiro da lisa não falta e tome mais uma rodada que depois Pinduca paga,
boteco é assim.
Quando sair na vejinha o boteco da minha esquina,
eu acho que morro um pouco.
Vão limpar as prateleiras, tirar o lápis da orelha e fazer um cardápio bacana,
o pé de cana que se abale pra outro lado,
boteco charmoso quer cliente descolado, dinheirudo e educado.
Quando o último dos sujinhos for texturizar as paredes,
eu vou é beber na praça, tomar vinho na garrafa, contar causo ao cobrador,
no barzinho caprichado, que saco, é que eu não vou.
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Beijo.
Parabéns
Marcola

Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.