08.03.09

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As reviravoltas de Dulce Veiga

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Carolina Dieckmann em Onde Andará Dulce Veiga?

Roteiro do último filme de Guilherme de Almeida Prado havia inspirado livro de Caio Fernando Abreu antes de ganhar novo tratamento para o cinema

Por Alexandre Carvalho dos Santos

Embora considere mais fácil desenvolver um roteiro original do que adaptar uma obra literária (já adaptou Cortázar em A Hora Mágica), o cineasta Guilherme de Almeida Prado procura em livros a faísca que dará início a uma idéia para um roteiro. Porque as boas idéias originais são mais difíceis de encontrar. “Truffaut disse que todas as estórias já foram contadas. Só nos resta contar com uma nova linguagem, de uma maneira fresca e atual”, afirma.
O roteiro para seu último filme, Onde Andará Dulce Veiga?, é de fato a adaptação de um livro. Mas, curiosamente, este livro nasceu de um roteiro de cinema. E este roteiro, o primeiro, havia sido a adaptação de uma crônica de jornal... Uma reviravolta que levou mais de vinte anos para chegar às telas, por caminhos tortos.
Crônica de Caio Fernando Abreu sobre uma atriz dos anos 50 e 60, “Onde Andará Lyris Castellani?” foi a faísca a atrair o interesse de Guilherme, que manteve uma amizade próxima com o autor até sua morte. Junto com Caio, desenvolveu o roteiro para o filme entre março e novembro de 1987, mas eram tempos difíceis para o cinema brasileiro, e o trabalho foi para a gaveta. Até que o escritor resolvesse transformá-lo em livro, um de seus maiores sucessos.
Já em 2002, com a seleção do antigo roteiro para um laboratório do Sundance Institute, o diretor ganhou motivação para voltar ao texto, agora com um novo tratamento, já com base no livro de Caio.
A nova versão respeita o espírito da obra literária, mas prioriza as idiossincrasias do diretor. “Sou muito mais fiel à linguagem cinematográfica e procuro não ficar intimidado pelo autor do livro. Não saberia adaptar um livro se não tivesse total liberdade para encontrar o filme que se esconde dentro da obra”, conclui.
A opção de Guilherme de Almeida Prado foi a de usar tudo o que era bom no livro e não estava na versão original. O roteiro passou a assumir o tom autobiográfico do livro, mas a principal mudança está no ponto de vista. “O roteiro original, escrito nos anos 80, era para um filme ‘dos’ anos 80, e agora passou a ser um filme ‘sobre’ os anos 80”.

Uma característica derivada do livro são as narrações em off, que não estavam no primeiro tratamento dado ao roteiro. Outras idéias exclusivas do novo texto vieram de tecnologias que não existiam nos anos 80, como as possibilidades de interação do espectador-leitor com todo tipo de informação. “Em Onde Andará Dulce Veiga?, eu procurei interligar idéias de uma forma aparentemente aleatória, como se navega na internet, onde um site se desdobra em outro, e é o interesse do espectador que dirige o raciocínio, completando e enriquecendo as idéias. Muitas vezes, o que o filme não mostra é mais importante do que o que está mostrando, porque o espectador completa a imagem de uma maneira muito mais rica. O filme poderia ser transformado num videogame, explorando todas as possibilidades de encontrar a Dulce Veiga”.
Guilherme relaciona esta faceta interativa de seu filme com a aceitação pelo público do século 21. “Não é à toa que os espectadores mais jovens parecem ter uma ligação muito mais visceral com o filme do que os que entram na sala de cinema esperando uma linguagem tradicional. A idéia de um filme que possa ser visto e revisto muitas vezes desafia os espectadores jovens, que estão acostumados com os videogames. Um game nunca é jogado da mesma forma, e Dulce Veiga pode ser visto de muitas maneiras”.
Este interesse de Guilherme de Almeida Prado por outras linguagens já o levara a escrever um roteiro para HQ, Samsara, que acabou influenciando até seu modo de fazer cinema. “Foi uma experiência muito rica, primeiro por poder escrever sem pensar em restrições de orçamento, o que, ao escrever um roteiro de filme, empobrece muito a imaginação. Mas, por outro lado, a obrigação que o Hector Gómez, o desenhista, me impôs de fazer cada página com um visual diferente acabou influenciando muito os roteiros de cinema que eu escrevi depois da graphic novel”.

Dos planos originais de Guilherme de Almeida Prado e Caio Fernando Abreu, o filme herdou a atriz Júlia Lemmertz, para quem Caio havia desenvolvido a personagem Patrícia. Mas Júlia acabou fazendo outro papel, o de Lídia. “Nunca penso em atores na elaboração dos roteiros. Primeiro porque acho que isso empobrece a criação do personagem e, no caso de não conseguirmos o ator, o personagem vai ficar para sempre órfão. No caso do Caio Fernando Abreu, era completamente diferente. O Caio só conseguia criar o personagem a partir de personagens reais de sua vivência e sempre gostava de sugerir o ator que tinha em mente para melhor interpretar aquele personagem real”.
Durante as filmagens, novas idéias fizeram com que alguns trechos do roteiro fossem suprimidos em prol da espontaneidade da direção. “Eliminei alguns diálogos na filmagem e cortei uma seqüência inteira na montagem, mas a maioria das mudanças em relação ao roteiro já estava na minha cabeça antes de começar a filmar. Como roteirista e diretor, eu gosto de deixar algumas idéias fora do roteiro para apresentá-las de uma maneira fresca para a equipe e o elenco durante a filmagem. Não gosto que pareça um trabalho burocrático de filmar um roteiro”.

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Maitê Proença

Embora se possa associar a personalidade dos filmes muito autorais de Guilherme de Almeida Prado com o fato de escrever seus próprios roteiros, o diretor confessa que gostaria de experimentar a criação em cima de roteiros de outros artistas. “Me considero um melhor diretor do que roteirista e acho que seria capaz de dirigir melhor um roteiro que eu não tivesse escrito. De uma forma mais objetiva e criativa. Foi a estrutura de produção deficiente do Brasil que me obrigou a escrever todos os roteiros que dirigi. Espero um dia ter oportunidade de dirigir um filme de um outro roteirista”.
Aos interessados e às boas idéias, originais ou adaptadas, a porta está aberta.

* * *

Matéria publicada no número zero da revista Plano B.

Onde Andará Dulce Veiga? tem lançamento em DVD neste mês. O filme está concorrendo ao V Prêmio Fiesp/ Sesi do Cinema Paulista.

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Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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