27.02.09
Injustiças do Oscar 2009

Quem Quer Ser Um Milionário? levou tudo
De cara, achei um tremendo exagero, as oito premiações de Quem Quer Ser Um Milionário? nesta edição do Oscar. Principalmente levando em consideração o quanto o filme foi “inspirado” no brasileiro Cidade de Deus em quase tudo: a brutalidade na favela, a fotografia estourada, a edição frenética... E o filme de Meirelles (o melhor dele, o que não é tanto) saiu do Oscar de mãos abanando.
Mas aí você passa os olhos pelos outros indicados... e acha que os votantes da Academia não tinham muito o que inventar mesmo.
O Curioso Caso de Benjamin Button tinha muito mais cara de Oscar que o “Milionário” e seria até uma bela produção se terminasse antes da personagem de Cate Blachett cuidar de Benjamin criança. Sabíamos que o desenlace seria este desde a apresentação do enredo, e por isso mesmo não deveria ser mostrado.
Para piorar, há ainda aquele encerramento abaixo da crítica, que parece vídeo motivacional para equipes de vendas.
Dá para entender quem preferiu o "Milionário"...
Tudo isso eu digo porque ainda não tive a chance de ver Frost/ Nixon (que só estréia dia 6 de março), cujo tema me parece bem mais interessante que os dos outros concorrentes, além de ter atores mais sólidos do que Brad Pitt (se ganhasse de Sean Penn e Mickey Rourke, seria caso de interditar os votantes).
Falando nisso, a premiação dos atores foi dentro do previsível, apesar de eu ter outros preferidos em três das quatro categorias. Só assinaria embaixo do Oscar para Heath Ledger, que ganharia mesmo sem a comoção provocada pela morte precoce do ator. Seu Coringa é o melhor vilão que as HQs já deram ao cinema: um farrapo humano em cacos, vivendo um delírio de violência. Nada dos bufões de Jack Nicholson e Cesar Romero. O grande Michael Caine (que fez o mordomo Alfred no Cavaleiro das Trevas) disse que sentiu medo real ao testemunhar a primeira participação de Ledger nas filmagens.
Sean Penn merecia ser premiado como melhor ator? Claro que sim, é um ator excepcional e, em Milk, no papel do vereador e militante gay, quase nos fez esquecer que na vida real é um machão, daqueles que socam a esposa e chutam o cachorro (Madonna que o diga).
Mas esse Oscar tinha de ir para Mickey Rourke. Dizer o quanto sua interpretação em O Lutador é visceral seria cair no lugar-comum. Mas vale enfatizar a diferença entre um grande desempenho (o de Sean Penn) e um momento de iluminação (o de Rourke). Com qualquer outro ator, O Lutador seria um filme apenas mediano. Ao assumir a queda do astro de luta livre como sendo sua própria, Mickey Rourke dá ao filme uma dimensão que supera o que estava escrito no roteiro e o que o diretor previa para sua mis-en-scène. Talvez Rourke não faça mais nada no cinema, e é possível que não faça mesmo, mas já terá deixado uma das melhores atuações deste século.
Entre as atrizes, Kate Winslet venceu pelo “conjunto da obra”, pois esteve muito bem tanto em O Leitor como em Foi Apenas Um Sonho. Mas Kate vai sempre bem, é ótima atriz e deu seu recado em filmes apenas razoáveis. Quem realmente superou as expectativas foi Anne Hathaway, fantástica como a filha-problema de uma família disfuncional em O Casamento de Rachel. Deu a impressão de que, pela primeira vez, interpretou como adulta e soube explorar toda a instabilidade, os altos e baixos, a fraqueza e a amargura da ovelha negra da família. Deu nuances à sua personagem, sem cair na caricatura que o papel de garota-problema vive rendendo.
Essas mesmas nuances faltaram a Penélope Cruz, em seu papel de ex-esposa maluca em Vicky Cristina Barcelona, pelo qual ganhou o Oscar de coadjuvante. Na verdade, a comédia de Woody Allen nem exigia essa complexidade, e Penélope se sai bem, mas não tem nada de inesquecível (por Volver, ao contrário, merecia todas as reverências).
Marisa Tomei, em O Lutador, vai muito mais longe. Soube expressar, em registro econômico, toda a inadequação de uma stripper de quarenta anos. Fez o contraponto perfeito com o personagem de Mickey Rourke que, diferentemente dela, só não se sente estranho no ambiente que é seu ringue, mas também seu palco.
Ah, e eu sempre vou preferir Peter Gabriel a qualquer música aeróbica indiana (“Jai Ho”, Oscar de melhor canção também para Quem Quer Ser Um Milionário?).
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Espero que goste!
Abraços,
Eurico
beleza de texto.
Assiste neste final de semana, depois me conta o que vc achou...
Beijos!
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex