21.02.09
Entrevistas com Clarah Averbuck e Melanie Dimantas
Do nascimento de Camila
Nome Próprio, de Murilo Salles, parte do universo criado por Clarah Averbuck em seus livros e blogs, reinventado pelas mãos dos roteiristas
Por Alexandre Carvalho dos Santos
A escritora gaúcha Clarah Averbuck gosta de bares de rock, de Mick Jagger & Keith Richards, de Nina Simone, Tom Waits e, em momentos mais doces, do cool jazz de Chet Baker. A música é parte indissociável de seu cotidiano, trilha de seus melhores e piores momentos, a um ponto tal que ela assume a influência de letristas de canções em seus escritos, cada vez mais conhecidos.
Mas o que Clarah Averbuck escreve? Escreve reflexões sobre si e sobre bandas de rock, e sobre noites selvagens, e comportamentos e pensamentos à beira do abismo, em blogs que se tornaram referências de bons textos na Internet, marcados pela ironia da autora e a coragem de expor sua vida e seu ponto de vista num território aberto à interação e ao palpite alheio. Este mesmo universo é explorado por Clarah nos descaminhos dos personagens de seus livros, Máquina de Pinball (Conrad Editora) e Vida de Gato (Editora Planeta), obras que deram à luz a escritora Camila, interpretada por Leandra Leal no filme Nome Próprio, de Murilo Salles.
Mas, para quem se apressa em apontar as coincidências, a autora dos livros enfatiza que a Camila das telas não é Clarah Averbuck. Em primeiro lugar, porque é personagem de ficção, dos livros de Clarah – com um tanto de elementos autobiográficos, o que confunde tudo; depois, e mais importante, porque é personagem reinventada em um roteiro de filme, escrito por Melanie Dimantas, Elena Soarez e Murilo Salles.
“O roteiro tinha total liberdade em relação ao trabalho de Clarah, que não me serviu concretamente de referência dramatúrgica”, aponta a roteirista Melanie Dimantas, uma das mais atuantes no cinema brasileiro, com a bagagem de trabalhos como Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995), Copacabana (2001), O Outro Lado da Rua (2004) e Mulheres do Brasil (2006). “Digo que não me debruçava em seus textos para buscar soluções, mas tinha em mente sobre quem se falava e seu estilo. A Camila nasce em Clarah, expande-se e abarca Murilo, Elena e eu. Tínhamos um foco, coisas que o Murilo queria dizer, e daí injetamos sangue, carne em nosso Golem, que, aliás, para além da nossa pretensão criadora, pode ser a criação de outra pessoa, intrínseca à trama, como aponta o final do filme. O segredo é que Camila é o Murilo”, revela.
Além dos livros, os roteiristas se basearam nos blogs de Clarah Averbuck para a inserção de escritos da protagonista, que também tem um blog confessional e que vai direto ao ponto. Mas, às citações de Clarah, somaram seus próprios “posts”.
“O blog, em si, como linguagem, é eixo dramático no que tange à personagem e sua dimensão, será ela real ou será ela uma ficção mediada pela virtualidade das vidas jogadas neste éter, que é a Internet”, esclarece Melanie. “A partir desta idéia, Murilo pretendeu discutir aquilo que move o artista”.
Inspiração na literatura
Melanie Dimantas assume uma forte influência da literatura em seu trabalho de roteirista, e suas fontes parecem distantes da nova literatura brasileira da qual Clarah Averbuck é figura em evidência ao lado de outros nomes como Daniel Galera (Até O Dia em Que O Cão Morreu, livro adaptado por Beto Brant em Cão Sem Dono) e João Paulo Cuenca (Corpo Presente). “Sempre que vou começar um roteiro, prefiro ler a ver filmes sobre o gênero em minhas pesquisas. Sempre amei Tchekhov e, em cada trabalho, me lembro de uma frase, de uma observação ou mesmo de uma situação que ele sugere e que eu adoraria usar com a mesma precisão. Me parece impossível, mas serve como desafio”.
Também professora de argumento e roteiro, Melanie afirma que os bons roteiros devem ser invisíveis à experiência sensível do espectador de cinema; não podem ser notados fora do conjunto. “Seja comédia ou drama, gosto de ser levada, de comprar uma passagem e embarcar na narrativa. Quando soa um sinal de alerta, é porque ali apareceu a mão de quem escreve, e eu odeio isto. Mas redimo Nome Próprio desta visão mal humorada, porque nele essa aparição é proposital”, reflete.
Sem o sarcasmo da fonte
Diferentemente do que, às vezes, acontece em filmes baseados em obras de autores vivos, não há interferência de Clarah Averbuck no roteiro final de Nome Próprio. De modo que a autora se esforça em destacar a diferença entre o que se vê na tela e o que há em seus livros. E o tom da narrativa é a principal evidência desta diferença de caminhos. “Eu mexi em um tratamento do roteiro, mas nada do que eu fiz ficou”, explica Clarah. “O aspecto que eu teria feito questão de manter seria o senso de humor da personagem dos livros, um certo sarcasmo que foi esquecido no filme. Mentira, não foi esquecido: foi uma escolha do diretor, e o filme é dele, então é isso aí”.
Mas como absorver a separação de uma obra que é sua, cedê-la a outros autores e ver que, adaptada para uma nova linguagem, filtrada por outras formas de interpretar o mundo, ela já não é espelho de sua criação? Depois de um período de receio e ansiedade quanto às intervenções em sua obra, Clarah concluiu que só o desapego a salvaria da loucura. “Eu gosto bastante do filme, mas tento vê-lo como um filme, não uma adaptação da minha obra. Desapeguei mesmo, autor bom é autor morto. A minha obra são os livros; o que for feito sem a minha interferência é problema dos outros”.
Além dos muitos pontos positivos que enxerga na produção – “a atuação da Leandra é brilhante, a fotografia é sensacional” –, Clarah revela o que mais a incomoda: “Eu tenho algumas ressalvas, mas são todas da adaptação. Por exemplo, os textos que aparecem na tela são quase todos adaptações dos meus ou de outras pessoas. Quem vai ao cinema ver a adaptação da obra literária pensa que são da autora – o que seria mais lógico mesmo. Também senti falta da trilha sonora, pois os livros são permeados de referências musicais, quase marcação de trilha. Mas, como já disse, o filme é do Murilo, e eu não tenho controle sobre o que é feito”.
Versátil, Clarah considera com carinho a possibilidade de escrever roteiros para cinema. Já está em negociação para outra adaptação de trabalhos seus e avisa que, desta vez, quer fazer o roteiro. Assim poderá lidar diretamente com o quanto de fidelidade à obra original um roteiro cinematográfico pode, ou deve, ter. Um tipo de controle que sempre seduz um autor, com os riscos inerentes a todo processo de criação e adaptação.
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex