11.02.09

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O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro

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O lançamento em DVD da versão restaurada de O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro é a recompensa de um empenho impressionante, de que o filme é absolutamente merecedor. O material original havia se perdido num incêndio, e a solução encontrada foi montar um quebra-cabeça internacional, com as imagens de uma cópia francesa – o que explica as legendas em francês sempre que há música cantada – e o som de uma cópia localizada em Cuba. A maior parte do som, porque a reconstrução dos diálogos, por exemplo, contou com trechos obtidos de fontes diversas – até uma cópia pirata da Internet contribuiu para o resultado final.

A excelência do trabalho de restauração permite que as novas gerações de espectadores do cinema brasileiro tenham acesso a um filme de Glauber Rocha em toda a sua explosão de cores, justificando sua associação com o tropicalismo, a composição elaborada de seus quadros, a estridência e o silêncio confluindo tanto no que se ouve quanto no que se vê. E tudo isso com uma qualidade de imagem das mais atuais, como se o filme fosse produzido hoje. Feito hercúleo, detalhista e brilhante dos profissionais da Cinemateca Brasileira.

Mas o filme, nota-se, não é de hoje. O Dragão é do fim dos anos 60, um tempo em que “uma obra-prima surgia no cinema a cada três ou quatro dias”, na afirmação de Martin Scorcese, para quem o filme de Glauber conseguiu superar seus notáveis contemporâneos – a saber, o americano é um entusiasta ardoroso do cineasta baiano, exibe seus filmes para as equipes com que trabalha e chegou a gravar as músicas regionais de O Dragão para ouvir no rádio do carro.

O que impressionou Scorcese especialmente neste filme foi um cinema maior, ultramoderno e, ao mesmo tempo, baseado nos westerns tradicionais, expressionista e também simbólico, minucioso e operístico. Um cinema inigualável, embora tantos tenham querido fazer filmes do modo como Glauber fazia, sem seu talento delirante, jogando a peixeira nas mãos dos detratores do Cinema Novo.

A trama se encaixa no arquétipo de filme engajado segundo a fórmula glauberiana: a de um filme preocupado com as questões de seu tempo. Antonio das Mortes (Maurício do Valle), personagem egresso de Deus e O Diabo na Terra do Sol, segue sua promessa de não deixar nenhum cangaceiro vivo. Mas o encontro com uma menina-santa lhe abre os olhos, e ele se descobre instrumento dos poderosos contra o povo oprimido e injustiçado. E muda de lado, para azar de um latifundiário cego (Jofre Soares) e seus jagunços. Com Antonio, luta um professor embriagado (Othon Bastos), homem de idéias que, até então, nunca pegara em arma – perfil em que se reconhece o revolucionário poeta de Jardel Filho em Terra em Transe.

O fato de O Dragão ser um western estilizado, repleto de teatralidade nas situações, não esconde a mensagem política. Pelo contrário, ela fica ainda mais evidente. Mas é questionável se, saindo do cinema, alguém haveria de levantar bandeira contra a repressão e a injustiça social. O certo é que teria motivo bastante para falar em revolução estética.

dragão

O que primeiro se nota é que a fotografia de Affonso Beato trabalha aqui com os extremos da saturação de cores, provocando o contraste entre os brancos do agreste e o roxo gritante do vestido de Odete Lara – comentário visual do deslocamento de uma mulher atraente e bem cuidada entre os rústicos do sertão – e os vermelhos vivos que se espalham na tela, nas roupas de São Jorge, do latifundiário, nos corpos ensangüentados. A química entre a fotografia de Beato e a direção de arte de Hélio Eichbauer faz o pano de fundo expressionista para a composição barroca de Glauber Rocha, em que cada quadro explora o máximo de ornatos, trabalhando a perspectiva entre seus elementos, o equilíbrio – e o desequilíbrio – no movimento dos corpos, a sucessão entre as músicas de cantadores de feira e a modernidade da trilha vertiginosa e fragmentada. O plano-seqüência reproduz as possibilidades do teatro na criação de focos de atenção que não cabem no quadro – e nisto talvez se note uma influência de Glauber no cinema de Scorcese. A montagem alterna seqüências no limite da duração com cenas rápidas e sem linearidade.

Com este mosaico de ousadias, o diretor faz uma composição colidente e grandiosa, um cinema que ri alto como as peças de Zé Celso, um cinema imenso, poético e perigoso, que faz com que a linguagem cinematográfica, aqui grafada por um revolucionário de seu léxico, seja a própria mensagem que o gênio de Glauber achou por bem passar adiante.

* * *

Texto meu veiculado originalmente no site da Revista Paisà, no ano passado.

por Alexandre Carvalho dos Santos 3 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: NÃO SOMOS APENAS ROSTINHOS BONITOS.... · http://rostinhosbonitos.blogspot.com

Essa imagem é realmente perturbadora!
Beijocas.

PermalinkPermalink 11.02.09 @ 10:45



Comentário de: Marcelim · http://caviardepiranha.zip.net/

É...

PermalinkPermalink 12.02.09 @ 02:49



Comentário de: Carol

eu quero um dragão da maldade que seja mudo.

PermalinkPermalink 12.02.09 @ 19:11



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Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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