27.02.09

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Injustiças do Oscar 2009

quem
Quem Quer Ser Um Milionário? levou tudo

De cara, achei um tremendo exagero, as oito premiações de Quem Quer Ser Um Milionário? nesta edição do Oscar. Principalmente levando em consideração o quanto o filme foi “inspirado” no brasileiro Cidade de Deus em quase tudo: a brutalidade na favela, a fotografia estourada, a edição frenética... E o filme de Meirelles (o melhor dele, o que não é tanto) saiu do Oscar de mãos abanando.

Mas aí você passa os olhos pelos outros indicados... e acha que os votantes da Academia não tinham muito o que inventar mesmo.

O Curioso Caso de Benjamin Button tinha muito mais cara de Oscar que o “Milionário” e seria até uma bela produção se terminasse antes da personagem de Cate Blachett cuidar de Benjamin criança. Sabíamos que o desenlace seria este desde a apresentação do enredo, e por isso mesmo não deveria ser mostrado.
Para piorar, há ainda aquele encerramento abaixo da crítica, que parece vídeo motivacional para equipes de vendas.
Dá para entender quem preferiu o "Milionário"...

Tudo isso eu digo porque ainda não tive a chance de ver Frost/ Nixon (que só estréia dia 6 de março), cujo tema me parece bem mais interessante que os dos outros concorrentes, além de ter atores mais sólidos do que Brad Pitt (se ganhasse de Sean Penn e Mickey Rourke, seria caso de interditar os votantes).

Falando nisso, a premiação dos atores foi dentro do previsível, apesar de eu ter outros preferidos em três das quatro categorias. Só assinaria embaixo do Oscar para Heath Ledger, que ganharia mesmo sem a comoção provocada pela morte precoce do ator. Seu Coringa é o melhor vilão que as HQs já deram ao cinema: um farrapo humano em cacos, vivendo um delírio de violência. Nada dos bufões de Jack Nicholson e Cesar Romero. O grande Michael Caine (que fez o mordomo Alfred no Cavaleiro das Trevas) disse que sentiu medo real ao testemunhar a primeira participação de Ledger nas filmagens.

Sean Penn merecia ser premiado como melhor ator? Claro que sim, é um ator excepcional e, em Milk, no papel do vereador e militante gay, quase nos fez esquecer que na vida real é um machão, daqueles que socam a esposa e chutam o cachorro (Madonna que o diga).
Mas esse Oscar tinha de ir para Mickey Rourke. Dizer o quanto sua interpretação em O Lutador é visceral seria cair no lugar-comum. Mas vale enfatizar a diferença entre um grande desempenho (o de Sean Penn) e um momento de iluminação (o de Rourke). Com qualquer outro ator, O Lutador seria um filme apenas mediano. Ao assumir a queda do astro de luta livre como sendo sua própria, Mickey Rourke dá ao filme uma dimensão que supera o que estava escrito no roteiro e o que o diretor previa para sua mis-en-scène. Talvez Rourke não faça mais nada no cinema, e é possível que não faça mesmo, mas já terá deixado uma das melhores atuações deste século.

Entre as atrizes, Kate Winslet venceu pelo “conjunto da obra”, pois esteve muito bem tanto em O Leitor como em Foi Apenas Um Sonho. Mas Kate vai sempre bem, é ótima atriz e deu seu recado em filmes apenas razoáveis. Quem realmente superou as expectativas foi Anne Hathaway, fantástica como a filha-problema de uma família disfuncional em O Casamento de Rachel. Deu a impressão de que, pela primeira vez, interpretou como adulta e soube explorar toda a instabilidade, os altos e baixos, a fraqueza e a amargura da ovelha negra da família. Deu nuances à sua personagem, sem cair na caricatura que o papel de garota-problema vive rendendo.

Essas mesmas nuances faltaram a Penélope Cruz, em seu papel de ex-esposa maluca em Vicky Cristina Barcelona, pelo qual ganhou o Oscar de coadjuvante. Na verdade, a comédia de Woody Allen nem exigia essa complexidade, e Penélope se sai bem, mas não tem nada de inesquecível (por Volver, ao contrário, merecia todas as reverências).
Marisa Tomei, em O Lutador, vai muito mais longe. Soube expressar, em registro econômico, toda a inadequação de uma stripper de quarenta anos. Fez o contraponto perfeito com o personagem de Mickey Rourke que, diferentemente dela, só não se sente estranho no ambiente que é seu ringue, mas também seu palco.

Ah, e eu sempre vou preferir Peter Gabriel a qualquer música aeróbica indiana (“Jai Ho”, Oscar de melhor canção também para Quem Quer Ser Um Milionário?).

por Alexandre Carvalho dos Santos 5 comentários - Permalink

21.02.09

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Entrevistas com Clarah Averbuck e Melanie Dimantas

Do nascimento de Camila
Nome Próprio, de Murilo Salles, parte do universo criado por Clarah Averbuck em seus livros e blogs, reinventado pelas mãos dos roteiristas

Por Alexandre Carvalho dos Santos

A escritora gaúcha Clarah Averbuck gosta de bares de rock, de Mick Jagger & Keith Richards, de Nina Simone, Tom Waits e, em momentos mais doces, do cool jazz de Chet Baker. A música é parte indissociável de seu cotidiano, trilha de seus melhores e piores momentos, a um ponto tal que ela assume a influência de letristas de canções em seus escritos, cada vez mais conhecidos.
Mas o que Clarah Averbuck escreve? Escreve reflexões sobre si e sobre bandas de rock, e sobre noites selvagens, e comportamentos e pensamentos à beira do abismo, em blogs que se tornaram referências de bons textos na Internet, marcados pela ironia da autora e a coragem de expor sua vida e seu ponto de vista num território aberto à interação e ao palpite alheio. Este mesmo universo é explorado por Clarah nos descaminhos dos personagens de seus livros, Máquina de Pinball (Conrad Editora) e Vida de Gato (Editora Planeta), obras que deram à luz a escritora Camila, interpretada por Leandra Leal no filme Nome Próprio, de Murilo Salles.

clarah
Clarah Averbuck

Mas, para quem se apressa em apontar as coincidências, a autora dos livros enfatiza que a Camila das telas não é Clarah Averbuck. Em primeiro lugar, porque é personagem de ficção, dos livros de Clarah – com um tanto de elementos autobiográficos, o que confunde tudo; depois, e mais importante, porque é personagem reinventada em um roteiro de filme, escrito por Melanie Dimantas, Elena Soarez e Murilo Salles.
“O roteiro tinha total liberdade em relação ao trabalho de Clarah, que não me serviu concretamente de referência dramatúrgica”, aponta a roteirista Melanie Dimantas, uma das mais atuantes no cinema brasileiro, com a bagagem de trabalhos como Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995), Copacabana (2001), O Outro Lado da Rua (2004) e Mulheres do Brasil (2006). “Digo que não me debruçava em seus textos para buscar soluções, mas tinha em mente sobre quem se falava e seu estilo. A Camila nasce em Clarah, expande-se e abarca Murilo, Elena e eu. Tínhamos um foco, coisas que o Murilo queria dizer, e daí injetamos sangue, carne em nosso Golem, que, aliás, para além da nossa pretensão criadora, pode ser a criação de outra pessoa, intrínseca à trama, como aponta o final do filme. O segredo é que Camila é o Murilo”, revela.
Além dos livros, os roteiristas se basearam nos blogs de Clarah Averbuck para a inserção de escritos da protagonista, que também tem um blog confessional e que vai direto ao ponto. Mas, às citações de Clarah, somaram seus próprios “posts”.
“O blog, em si, como linguagem, é eixo dramático no que tange à personagem e sua dimensão, será ela real ou será ela uma ficção mediada pela virtualidade das vidas jogadas neste éter, que é a Internet”, esclarece Melanie. “A partir desta idéia, Murilo pretendeu discutir aquilo que move o artista”.

nome próprio
Leandra Leal em Nome Próprio

Inspiração na literatura
Melanie Dimantas assume uma forte influência da literatura em seu trabalho de roteirista, e suas fontes parecem distantes da nova literatura brasileira da qual Clarah Averbuck é figura em evidência ao lado de outros nomes como Daniel Galera (Até O Dia em Que O Cão Morreu, livro adaptado por Beto Brant em Cão Sem Dono) e João Paulo Cuenca (Corpo Presente). “Sempre que vou começar um roteiro, prefiro ler a ver filmes sobre o gênero em minhas pesquisas. Sempre amei Tchekhov e, em cada trabalho, me lembro de uma frase, de uma observação ou mesmo de uma situação que ele sugere e que eu adoraria usar com a mesma precisão. Me parece impossível, mas serve como desafio”.
Também professora de argumento e roteiro, Melanie afirma que os bons roteiros devem ser invisíveis à experiência sensível do espectador de cinema; não podem ser notados fora do conjunto. “Seja comédia ou drama, gosto de ser levada, de comprar uma passagem e embarcar na narrativa. Quando soa um sinal de alerta, é porque ali apareceu a mão de quem escreve, e eu odeio isto. Mas redimo Nome Próprio desta visão mal humorada, porque nele essa aparição é proposital”, reflete.

Sem o sarcasmo da fonte
Diferentemente do que, às vezes, acontece em filmes baseados em obras de autores vivos, não há interferência de Clarah Averbuck no roteiro final de Nome Próprio. De modo que a autora se esforça em destacar a diferença entre o que se vê na tela e o que há em seus livros. E o tom da narrativa é a principal evidência desta diferença de caminhos. “Eu mexi em um tratamento do roteiro, mas nada do que eu fiz ficou”, explica Clarah. “O aspecto que eu teria feito questão de manter seria o senso de humor da personagem dos livros, um certo sarcasmo que foi esquecido no filme. Mentira, não foi esquecido: foi uma escolha do diretor, e o filme é dele, então é isso aí”.
Mas como absorver a separação de uma obra que é sua, cedê-la a outros autores e ver que, adaptada para uma nova linguagem, filtrada por outras formas de interpretar o mundo, ela já não é espelho de sua criação? Depois de um período de receio e ansiedade quanto às intervenções em sua obra, Clarah concluiu que só o desapego a salvaria da loucura. “Eu gosto bastante do filme, mas tento vê-lo como um filme, não uma adaptação da minha obra. Desapeguei mesmo, autor bom é autor morto. A minha obra são os livros; o que for feito sem a minha interferência é problema dos outros”.
Além dos muitos pontos positivos que enxerga na produção – “a atuação da Leandra é brilhante, a fotografia é sensacional” –, Clarah revela o que mais a incomoda: “Eu tenho algumas ressalvas, mas são todas da adaptação. Por exemplo, os textos que aparecem na tela são quase todos adaptações dos meus ou de outras pessoas. Quem vai ao cinema ver a adaptação da obra literária pensa que são da autora – o que seria mais lógico mesmo. Também senti falta da trilha sonora, pois os livros são permeados de referências musicais, quase marcação de trilha. Mas, como já disse, o filme é do Murilo, e eu não tenho controle sobre o que é feito”.
Versátil, Clarah considera com carinho a possibilidade de escrever roteiros para cinema. Já está em negociação para outra adaptação de trabalhos seus e avisa que, desta vez, quer fazer o roteiro. Assim poderá lidar diretamente com o quanto de fidelidade à obra original um roteiro cinematográfico pode, ou deve, ter. Um tipo de controle que sempre seduz um autor, com os riscos inerentes a todo processo de criação e adaptação.

* * *

Matéria publicada na segunda edição da revista Plano B.
ed_primavera

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17.02.09

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Mickey Rourke e a luta livre

rourke 2

Segundo Franklin Ruão, autor do artigo abaixo e colaborador bissexto deste blog, o filme O Lutador não trouxe de volta a luta livre, uma vez que ela não tinha ido para lugar nenhum. Nós é que não estávamos prestando a devida atenção.

Comentários sobre o texto também podem ser encaminhados diretamente para o Franklin: frank_ruao@yahoo.com.br

Boa leitura!

* * *

Para a maioria das pessoas no Brasil, falar em luta livre é citar o programa de televisão de 1967 “Telecatch”, que contava com figuras como Ted Boy Marino ou, mais recentemente, o trabalho realizado por Michel Serdan no programa “Gigantes do Ringue”.
Agora, com o filme O Lutador (The Wrestler), dirigido por Darren Aronofsky, e com Mickey Rourke no papel principal, provavelmente os cadernos culturais dos jornais e revistas devem voltar a falar do assunto.
Interessante notar que a luta livre sempre esteve presente ao vivo ou na televisão, mas é preciso que um filme seja aclamado internacionalmente para que a crítica dita especializada inicie seu ritual de prostração (aliás, posição em que adora ficar) e que anos de desrespeito e esquecimento pela luta livre sejam apagados.

Rourke - The Wrestler
Mickey Rourke detonado
em O Lutador

Acompanho a luta livre desde os anos 70, quando assistia na televisão ao programa “Astros do Ringue”. Na época, os principais lutadores eram Fantomas, King Kong, A Múmia, El Gato e outros. Me recordo que o programa era um sucesso, foi até lançado um álbum de figurinhas (ainda tenho um pacote original da época) e, durante as transmissões, era possível ver o ginásio lotado de fãs. Os apresentadores intercalavam a narração das lutas com pedidos insistentes para que as crianças não repetissem em casa a pancadaria que viam pela TV. Impossível esquecer a imagem de um homem que rondava o ringue carregando uma barra de gelo no ombro; logo ele seria batizado de “O homem da barra de gelo”, e um programa nunca estava completo se ele não fosse focalizado pelas câmeras.

Nos Estados Unidos, a luta livre também sofreu preconceitos e perseguições daqueles que não a aceitavam como um esporte. Aos poucos, ela foi derrotando seus detratores, e a ideia de encarar os lutadores como performers ganhou força, de modo que logo a luta livre profissional se transformaria em um dos maiores espetáculos da mídia, antecipando estratégias de marketing que só viriam a se tornar conhecidas muitas décadas depois.
Um dos responsáveis por essa popularização foi o lutador e campeão Terry “Hulk” Hogan, que pôde ser visto pela primeira vez pelo público leigo no filme Rocky III (1982), no papel de Thunder Lips.
Ainda nos Estados Unidos, a luta livre sempre contou com organizações distintas que reuniam seus próprios lutadores. Essas organizações tinham seus próprios programas e eram fortemente inspiradas nas histórias em quadrinhos (que também foram descobertas recentemente pela indústria do cinema), apresentando uma gama variada de lutadores, alguns como heróis, outros como vilões, vivendo aventuras cheias de drama, vinganças, alianças e até mesmo intercalando lutas com adversários de outras agremiações.
Por volta de 1985/86, o SBT começou a exibir o programa norte-americano “WCW” (World Championship Wrestling), aqui chamado de Campeonato Internacional de Luta Livre. Esse programa mostrou, pela primeira vez no Brasil, em cores e com uma dublagem bastante fiel ao original, o que havia de melhor sendo produzido em matéria de luta livre nos Estados Unidos. Essa fase hoje é considerada clássica e serviu de base para todo o filme O Lutador.
O programa tinha como ponto alto um quadro comandando pelo polêmico lutador “Rowdy” Roddy Piper (aqui: O Gaiteiro) que, junto com seu empresário “Ace” Cowboy Bob Orton (Guarda-Costas Ás), apresentava uma espécie de talk-show chamado “Pipers Pit” (“O Covil do Gaiteiro”), entrevistando apenas lutadores considerados vilões, ao mesmo tempo em que esculhambava todos os queridinhos do público. Era a luta livre fazendo sua auto-crítica. Não faltavam acusações racistas e politicamente incorretas e, no auge da Guerra Fria, os principais vilões eram o Iron Sheik (Sheik do Irã) e Nikolai Volkoff (Nicolai “O Russo”). Até mesmo os empresários faziam parte do show e não se envergonhavam em compactuar com o “eixo do mal” em busca de lucros, entre eles “Classy” Freddie Blassie (Freddie “O Elegante”) e Bobby “The Brain” Heenan (Bob “O Gênio”).

No auge da popularidade, Roddy Piper formou uma dupla com Paul “Mr. Wonderful” Orndorff (Senhor Maravilha) e Ace Cowboy para enfrentar Hulk Hogan, Mr.T (o vilão de Rocky III) e Jimmy “Superfly” Snuka, que foi vítima de uma agressão do Gaiteiro, que quebrou um coco na sua cabeça durante o programa de entrevistas.
Na fase preparatória da luta, um dos colunistas e apresentadores oficiais do programa, o hoje legendário “Mean” Gene Okerlund (repórter Mike), foi acompanhar o treinamento do Gaiteiro e sua equipe nos porões do Madison Square Garden, em Nova Iorque, e acabou sendo violentamente expulso e atirado para fora no meio da rua; um transeunte que tentou ajudá-lo foi covardemente espancado pelo bando de lutadores. O público nos Estados Unidos (e aqui no Brasil também) jamais havia visto coisa semelhante em um programa de luta livre.
No dia 31 de março de 1985, a tão aguardada luta foi realizada no Madison Square Garden, o público ao vivo e pela televisão assistiu, além das lutas, a apresentações de músicos como Liberace, e viu ainda a cantora pop Cyndi Lauper se envolver em um dos combates femininos, naquela que seria conhecida como a primeira parceria entre a luta livre profissional e o mundo das celebridades.
Essa luta depois viria a ser batizada como Wrestlemania I e desde então passou a ser um evento tão popular nos Estados Unidos quanto o Superbowl.

Empenho pessoal por amor à luta livre
Embora o SBT exibisse a série normal de lutas, esta não fazia parte do pacote e não foi exibida. Tempos depois, o programa foi tirado do ar e esquecido para sempre no arquivo de fitas da emissora. Nenhum veículo de comunicação comentou nada na época.
No dia 8 de dezembro de 1998, o senhor Silvio Santos se dirigia para o estúdio 03 do complexo Anhanguera, para gravar o programa “Tentação” número 217, que seria exibido no dia 17 de janeiro de 1999.
O primeiro vídeo de curiosidades abordava a eleição do ex-lutador Jesse “O Corpo” Ventura para governador do estado de Minnesota. Este vídeo só foi realizado porque eu me empenhei pessoalmente em falar sobre o assunto. Apesar da peçonhenta equipe que fazia parte do programa na época, chamamos o grupo de lutadores do Bob Junior, montamos um ringue e gravamos as cenas; contudo a matéria só estaria completa com as imagens de Jesse Ventura que não existiam em nenhum arquivo jornalístico da época. Determinado a conseguir as imagens, fui até o gigantesco arquivo e, de maneira instintiva, localizei a antiga fita de rolo que continha as imagens de Jesse Ventura sendo entrevistado pelo Gaiteiro.
Enquanto isso, a revista Veja, na sua edição de novembro de 1998, humilhava Jesse Ventura e, não satisfeita, tornou a desacatar o atleta em nova matéria da edição de 10 de maio de 2000.
Imagino que agora, com toda a atenção dada ao filme O Lutador, o tratamento para com a luta livre seja muito mais cordial, assim como em relação ao ator Mickey Rourke.

Os melhores filmes de Mickey Rourke, na minha opinião, são: Rumble Fish (O Selvagem da Motocicleta, 1983), Year of the Dragon (O Ano do Dragão, 1985) e Angel Heart (Coração Satânico, 1987).
Um homem tem de pagar suas contas, e Mickey Rourke infelizmente participou de muitos filmes execráveis, chegando ele próprio a iniciar uma carreira como lutador de boxe profissional. Entretanto, tudo isso será esquecido, e vão apenas lembrar que o filme O Lutador (ou seria a própria luta livre?) aparece e ressuscita Mickey Rourke diante do público.

A volta
Comovido pelo vídeo que eu produzi em 1998, Silvio Santos tornou a comprar programas de luta livre. No dia 29 de novembro de 2007, The Great Khali (o Grande Khali, um ex-policial indiano de mais de dois metros de altura), Batista “O Animal” e Melina (da nova geração de lutadoras chamadas de Divas que, além de lutar, costumam posar nuas para a revista Playboy) estiveram em um hotel de São Paulo para divulgar os programas RAW e Smackdown, que seriam exibidos.
Hoje, esses lutadores fazem parte da “WWE” (World Wrestling Entertainment), comandada por Vince Mcmahon, que concentra a luta livre nos Estados Unidos, formando um império de comunicação que vende todo tipo de produto licenciado com a imagem de seus lutadores. Os programas da WWE são exibidos em mais de 130 países, em 22 idiomas diferentes, para 47 milhões de pessoas. São 350 programas ao vivo e 75 internacionais, movimentando milhões de dólares.
Mesmo assim, no hotel, apenas eu e mais uns vinte adolescentes esperavam para recepcionar os astros atuais. Acredito que isso não tenha tirado o ânimo deles que, em seguida, partiram para uma apresentação exclusiva para as tropas norte-americanas no Iraque.
Dessa forma, espero ter deixado claro que a luta livre sobrevive muito bem apesar de seus detratores e regularmente empresta seus astros para o cinema: Jesse Ventura pode ser visto no filme Predador, por exemplo, sem falar no ator/lutador The Rocky. Se quiser ver o pessoal da antiga citado neste artigo, assista ao videoclipe “Goonies´r´Good Enough”, de Cyndi Lauper, para o filme Os Goonies. Lá estão O Gaiteiro, Freddi O Elegante, Sheik do Irã e Nicolai O Russo, sendo que no final ainda aparece o legendário Andre The Giant, além do Capitão Lou Albano, que já aparecia em “Girls Just Wanna Have Fun”, tema da lutadora Wendi Richter.
Atualmente, os amantes da luta e da pancadaria podem curtir os campeonatos de vale-tudo e MMA, lembrando que toda a linguagem visual usada nestes programas é inspirada diretamente na luta livre profissional e procura conferir para esses espetáculos a mesma popularidade experimentada pelo pessoal da WWE, incluindo merchandising e licenciamento de produtos.

jesse ventura
Jesse Ventura

Para os sensíveis mancebos e suas amiguinhas que acreditam que a luta livre não está relacionada com os méritos do filme O Lutador, e que, se fosse outro esporte, tudo daria no mesmo, lembro que, no dia 5 de abril de 2009, durante as comemorações da Wrestlemania XXV, Mickey Rourke deve se apresentar como Randy “The Ram” Robinson, consagrando definitivamente sua performance como lutador e como ator.
Pois é disso que trata a luta livre: uma performance ao vivo que mistura interpretação, coreografia, sonoplastia e artes marciais, tudo muito bem conduzido por um excelente roteiro, sem efeitos especiais e sem frescuras, para um público exigente e fiel.
A luta livre resgatou Mickey Rourke, ele não precisa mais do cinema porque a luta livre já ofereceu a ele a redenção que tanto buscava como homem, lutador e ator. E isso não me parece pouca coisa.

por Alexandre Carvalho dos Santos 6 comentários - Permalink

15.02.09

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Liga dos Blogues aponta melhores do cinema em 2008

A Liga dos Blogues Cinematográficos, da qual Na Minha Rolleiflex faz parte, divulgou ontem os vencedores do Alfred 2008, nosso Oscar blogueiro para os melhores do cinema entre as produções que entraram em cartaz no ano passado.

Para quem não conhece a premiação, o Alfred leva a coisa a sério mesmo, incluindo categorias como melhor ator coadjuvante, melhores efeitos especiais, melhor fotografia e até aponta qual o pior filme do ano (para minha surpresa, e contra meu voto, não foi nenhum com o Adam Sandler).

Vale a pena conferir: http://ligadosblogues.wordpress.com

Depois eu conto quais foram os meus votos.

por Alexandre Carvalho dos Santos Deixe seu comentário - Permalink

11.02.09

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O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro

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O lançamento em DVD da versão restaurada de O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro é a recompensa de um empenho impressionante, de que o filme é absolutamente merecedor. O material original havia se perdido num incêndio, e a solução encontrada foi montar um quebra-cabeça internacional, com as imagens de uma cópia francesa – o que explica as legendas em francês sempre que há música cantada – e o som de uma cópia localizada em Cuba. A maior parte do som, porque a reconstrução dos diálogos, por exemplo, contou com trechos obtidos de fontes diversas – até uma cópia pirata da Internet contribuiu para o resultado final.

A excelência do trabalho de restauração permite que as novas gerações de espectadores do cinema brasileiro tenham acesso a um filme de Glauber Rocha em toda a sua explosão de cores, justificando sua associação com o tropicalismo, a composição elaborada de seus quadros, a estridência e o silêncio confluindo tanto no que se ouve quanto no que se vê. E tudo isso com uma qualidade de imagem das mais atuais, como se o filme fosse produzido hoje. Feito hercúleo, detalhista e brilhante dos profissionais da Cinemateca Brasileira.

Mas o filme, nota-se, não é de hoje. O Dragão é do fim dos anos 60, um tempo em que “uma obra-prima surgia no cinema a cada três ou quatro dias”, na afirmação de Martin Scorcese, para quem o filme de Glauber conseguiu superar seus notáveis contemporâneos – a saber, o americano é um entusiasta ardoroso do cineasta baiano, exibe seus filmes para as equipes com que trabalha e chegou a gravar as músicas regionais de O Dragão para ouvir no rádio do carro.

O que impressionou Scorcese especialmente neste filme foi um cinema maior, ultramoderno e, ao mesmo tempo, baseado nos westerns tradicionais, expressionista e também simbólico, minucioso e operístico. Um cinema inigualável, embora tantos tenham querido fazer filmes do modo como Glauber fazia, sem seu talento delirante, jogando a peixeira nas mãos dos detratores do Cinema Novo.

A trama se encaixa no arquétipo de filme engajado segundo a fórmula glauberiana: a de um filme preocupado com as questões de seu tempo. Antonio das Mortes (Maurício do Valle), personagem egresso de Deus e O Diabo na Terra do Sol, segue sua promessa de não deixar nenhum cangaceiro vivo. Mas o encontro com uma menina-santa lhe abre os olhos, e ele se descobre instrumento dos poderosos contra o povo oprimido e injustiçado. E muda de lado, para azar de um latifundiário cego (Jofre Soares) e seus jagunços. Com Antonio, luta um professor embriagado (Othon Bastos), homem de idéias que, até então, nunca pegara em arma – perfil em que se reconhece o revolucionário poeta de Jardel Filho em Terra em Transe.

O fato de O Dragão ser um western estilizado, repleto de teatralidade nas situações, não esconde a mensagem política. Pelo contrário, ela fica ainda mais evidente. Mas é questionável se, saindo do cinema, alguém haveria de levantar bandeira contra a repressão e a injustiça social. O certo é que teria motivo bastante para falar em revolução estética.

dragão

O que primeiro se nota é que a fotografia de Affonso Beato trabalha aqui com os extremos da saturação de cores, provocando o contraste entre os brancos do agreste e o roxo gritante do vestido de Odete Lara – comentário visual do deslocamento de uma mulher atraente e bem cuidada entre os rústicos do sertão – e os vermelhos vivos que se espalham na tela, nas roupas de São Jorge, do latifundiário, nos corpos ensangüentados. A química entre a fotografia de Beato e a direção de arte de Hélio Eichbauer faz o pano de fundo expressionista para a composição barroca de Glauber Rocha, em que cada quadro explora o máximo de ornatos, trabalhando a perspectiva entre seus elementos, o equilíbrio – e o desequilíbrio – no movimento dos corpos, a sucessão entre as músicas de cantadores de feira e a modernidade da trilha vertiginosa e fragmentada. O plano-seqüência reproduz as possibilidades do teatro na criação de focos de atenção que não cabem no quadro – e nisto talvez se note uma influência de Glauber no cinema de Scorcese. A montagem alterna seqüências no limite da duração com cenas rápidas e sem linearidade.

Com este mosaico de ousadias, o diretor faz uma composição colidente e grandiosa, um cinema que ri alto como as peças de Zé Celso, um cinema imenso, poético e perigoso, que faz com que a linguagem cinematográfica, aqui grafada por um revolucionário de seu léxico, seja a própria mensagem que o gênio de Glauber achou por bem passar adiante.

* * *

Texto meu veiculado originalmente no site da Revista Paisà, no ano passado.

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Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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