30.01.09
Juventude, de Domingos Oliveira
Não consigo desgostar de um filme do Domingos Oliveira. Isso vem de quando assisti a Todas As Mulheres do Mundo pela primeira vez, aquela câmera apaixonada por Leila Diniz, aquele olhar romântico e leve, que rendeu tantas comparações com o Truffaut de Domicílio Conjugal. Paulo José faz um Antoine Doinel de um amor desesperado e cômico, que é por uma mulher, mas é também por todas; sua energia está concentrada em sua ideia de amar as mulheres, e não há nada de cafajeste nesse seu ideal. Pelo contrário, faz com que sofra o diabo com a possibilidade de perder Leila Diniz (e quem não sofreria?).
Quarenta anos depois, neste Juventude, a confusão sentimental persiste, ainda que, desta vez, não haja atrizes no filme (com a exceção de uma coadjuvante quase sem falas). O tema principal é o passar do tempo, discutido no encontro de três amigos na casa dos 60 para os 70 anos, mas toda reflexão vem acompanhada de um comentário sobre um amor, sobre a importância da mulher na vida de cada um dos personagens principais.
“O tempo passa como um rato na sala”, afirma o personagem de Aderbal Freire-Filho, o melhor do trio de atores, que ainda conta com Paulo José e o próprio Domingos Oliveira. E o apelo da questão do tempo e de como mudam nossos amores com os anos fortalece os diálogos afiados e bem humorados do diretor e roteirista; a maturidade não traz certezas, e isso é expresso de tal forma – em interpretações inspiradas – que deixamos passar a exibição digital, a estrutura irregular da composição, o baixo orçamento gritante e um ar geral de improviso.
Emociona com inteligência, e quase sempre é para isso que pagamos ingresso.
26.01.09
Titãs - A Vida Até Parece Uma Festa, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves
Como bom adolescente roqueiro dos anos 80, não resisto a um documentário sobre uma banda importante da época, ainda que já entre no cinema preparado para as obviedades. Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa não inova em nada o formato do documentário. Pelo contrário, está mais para uma montagem frenética de cenas de shows, entrevistas com os músicos da banda e imagens caseiras (toscas) feitas pelo vocalista e compositor Branco Mello, que também assina a direção do filme. Infelizmente, as imagens caseiras têm uma presença desproporcional à sua relevância, já que insistem no discurso sem sentido, ou nos moços correndo na praia ou enchendo a lata. Por isso, é um filme para fã-clube, para quem possa achar graça nos ídolos fazendo macaquices em quartos de hotel. Essas sequências, para mim, demoraram a passar.
Há uma certa ordem cronológica, interrompida aqui e ali, mas não se vê quase nada de depoimento atual, nada de uma contextualização dos Titãs no cenário do pop-rock brasileiro. Senti falta, por exemplo, de uma entrevista com Ciro Pessoa, um dos fundadores da banda, que puxou o carro assim que o conjunto começou a fazer sucesso de verdade. Talvez se apresentar no Raul Gil tenha sido um fardo demasiado para o futuro criador do Cabine C.
Os melhores momentos do filme:
- Branco, Tony Bellotto e Marcelo Fromer em época pré-Titãs, com um visual de hippie da Praça da República, apresentando um “rock ecológico” sob o nome de Trio Mamão e As Mamonetes.
- A cara de constrangido de Charles Gavin, tomando o maior esporro do produtor Liminha, por ter feito um solo de bateria numa gravação.
- Os Titãs tocando no especial do Roberto Carlos, com evidente prazer.
De resto, fica aquela relação entre o fã voyeur e o músico exibicionista, desnudando-se para ser amado por quem precisa de todas as imagens do objeto de sua obsessão. Ainda que pareçam tão óbvias no contexto da exibição.
Certas horas, isso é o que nos resta.
17.01.09
Matérias na Superinteressante e na Plano B
Muitos textos meus nas últimas edições da Superinteressante.
Em dezembro, a revista publicou duas edições e contou com três matérias minhas. Na primeira do mês, a que teve uma matéria sobre a Bíblia como destaque de capa, entrei com uma página (“Um dia qualquer no inferno”) sobre livros baseados em diários de mulheres que comeram o pão que o diabo amassou na 2ª Guerra Mundial. Na segunda de dezembro, uma edição “verde” da Superinteressante, repleta de matérias sobre meio ambiente, assinei um texto de sete páginas sobre como as cidades estão se preparando para lidar com as conseqüências do aquecimento global. A matéria se chama “Arquitetura da Destruição”.
Nessa mesma edição, dividi com o editor Alexandre Versignassi a autoria de um artigo para a seção "Essencial", sobre como o acúmulo de experiência pode não valer muita coisa para o seu desempenho em alguma função.
Já na edição de janeiro da Super, que está nas bancas com uma matéria sobre Che Guevara como destaque de capa, assinei sozinho outro artigo para a seção "Essencial", sobre como o baixinho sofre discriminação, ainda que inconsciente, na hora de concorrer a um emprego.
Apesar da variedade de temas, o cinema ainda é prioridade deste escriba. A Superinteressante sempre traz alguma resenha minha sobre um lançamento do mês (as últimas foram sobre Rebobine, Por Favor, Queime Antes de Ler e O Roqueiro), e a revista Plano B deste mês publicou uma entrevista minha com o diretor de fotografia Walter Carvalho, que assumiu a direção geral de Budapeste, baseado no romance do Chico Buarque.
O Walter é um sujeito de um papo tão bacana que não vejo a hora do filme dele chegar às telas.
E vamos que vamos.



Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.