29.12.08

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Aniversário na Rua Aurora - um conto

para blog conto

Lavo as mãos, evito o espelho e abro a porta. Ainda está lá, meu canapé de rosbife, perfeição sobre pão preto com mostarda escura. Não há canapé como o do Léo, do Bar Léo, os habitués sabem, e eu também. Fico satisfeito de ainda estar ali, imaculado. Pensei nele enquanto lavava as mãos, quase com amor.
À mesa, Samuel e Mário desenterram Sylvinha Telles, Carlinhos Lyra e aquele pessoal do uísque. Eu gosto e até defendo os barquinhos da bossa, mas tenho meu canapé, meu chope, sei tudo sobre música popular e deixo que os amigos falem. Gosto de ouvi-los assim, animados. Não é sempre que estão assim.
Mas hoje é dia de Léo, e não vim ao léu, que não vim à toa, hoje é meu aniversário, e dois pratos de bateria, de pé ao lado da mesa, lembram que eu corria da Santa Efigênia para a Rua Aurora com o presente que me dei, coisa de três horas já. Vinha com os pratos nos braços, corria e o Samuel estava à porta. Um garçom amigo – estou virando habitué – perguntou se eu queria que guardassem. Não, eles ficam comigo, senão esqueço – eu me conheço. E hoje é meu aniversário, hoje eu não tenho medida.
Diante do meu copo pela metade, o garçom hesita, mas não muito; tem de decidir logo porque há dedos levantados de sede em todas as mesas e no balcão. Eu esvazio um para me virar com o outro. Um gole só e acendo um cigarro, rápido. Disfarço como se Marina estivesse aqui.
Hoje eu não sei de mim, hoje vou me perder pelo centro, achar um lugar para ver as moças, fazer charme e pagar suas contas. Aqui se bebe sem vergonha, ninguém se importa com a sujeira entre os dentes, com os jeans molhados da água que escorre dos copos; a porta do banheiro vive aberta.
Mas daqui vou me perder em outros bares, vou ver as meninas e achar namorada, que morar com a mãe já não vai dar pé. O Samuel mora, mas é até patologia. A minha quer ver serviço, quer ver namorada em casa, acreditar que faço minha vida e tenho meus filhos antes que o inferno me chame. Não é negócio para já, mas posso começar hoje, estou no décimo chope, hoje consigo namorada e emprego, os amigos chegaram cedo e faz calor de novo. Hoje não tenho medida.
Aqui não vejo cara feia quando peço chope, quando peço aos montes, e peço um aperitivo com nome russo e gosto de perfume. Peço e sorriem para mim, é meu aniversário!, e Marina não está aqui para me dizer que é muito, para me dizer o ponto, para me dar medida. Hoje não sabota todo o prazer do negócio.
O Mário me pede palavra, e eu não digo, porque não dou bola. Mas se me interessasse, diria: A plasticidade viva de uma obra pop... O fim da canção... Já não quero saber. Mas isso não falo, só penso, e o que digo é “minha mãe é que devia casar com a Marina, as megeras”. Os amigos se olham e se riem, e levantam um novo brinde: ao meu aniversário! Trinta e nove não são quarenta! Viva a Marina! Viva, que não está aqui para reprimir os brindes, fazer cara feia e pedir a conta, quando ninguém ainda quer a conta. “Marina agora é que vai ser feliz”, acho que penso a frase, mas digo, e os amigos já não riem, olham para os pratos de bateria e perguntam, Mário pergunta, se quero voltar a tocar. Eu quero, mas vai ficar para outro dia. Hoje vai longe, hoje eu quero um aperitivo russo, um canapé alemão e uma bunda carioca. Vamos ver as mulatas, alguém grita, eu grito, e o monte de bolachas de chope se desfaz.
Dois aperitivos – o garçom amigo explica que são alemães – e dois banheiros, então pedem a saideira. Eu recuso, Samuel recusa, recusamos a saída, mas o relógio diz que não, o gatuno. Os últimos goles, nos dizem, mas tudo se acelera tanto que a saída se impõe e a conta está paga antes que eu perceba. Ainda faz sol na rua, os carros desviam em caminhos cruzados, o garçom amigo me alcança, alertando para o copo de chope que ainda está comigo e para os pratos de bateria, que não estão. “Nem mais um canapé?”.
Os amigos me apontam o táxi, e eu faço que vou, mas não vou. Corro para o centro, para a vida, corro para o emprego novo e para as namoradas. Eles não acompanham, me querem ali, mas eu me quero onde nunca estive. Quero que não seja coisa só para hoje, esta felicidade, quero alcançar as ruas em que as coisas acontecem em São Paulo, alcançar as esquinas do meu falecido pai, fazer com que esta tarde vire noite antes que eu durma. Vou ligar para a Marina e lhe dizer as coisas mais bonitas, as coisas mais simples que ela nunca entendeu.

por Alexandre Carvalho dos Santos 4 comentários - Permalink


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Comentários:


Comentário de: Patricia Foresti

um pouco deprimida, sozinha em um quartinho em madrid tentando despedir esse ano que está acabando, lembrando melhores e piores momentos e começo a procurar algo sobre cinema brasileiro. caio no seu blog. me interesso, caio no post sobre aniversário no bar do léu. e ele me aclara uma coisa sobre a localizaçao: eu acho que está exatamente ali para que as pessoas que comemoram seu aniversário corram para as ruas.

PermalinkPermalink 30.12.08 @ 19:43



Comentário de: Marcos Falcon · http://blogdofalcon@blogspot.com

Alê legal você ter postado este conto. Reli e gostei mais que na primeira oportunidade.
Nos presenteie postando o mesmo no site www.saopaulominhacidade.com.br , pois ele tem tudo a ver com o perfil do site.
Grande abraço
Marcos

PermalinkPermalink 14.01.09 @ 23:10



Comentário de: cris · http://chrysalida.blogspot.com/

é isso mesmo. viva o leo, tá bom, viva a marina também, mas queria saber se o tiozinho que faz os canapés ainda é o "seo" luiz. (espero não estar enganada pq seria imperdoável!) demais o conto rapaz.
um abço

PermalinkPermalink 19.01.09 @ 01:10



Comentário de: Milher Grego · http://teorianaopratica.blogspot.com

Me lembra o Amanuense Belmiro. Cyro dos Anjos... para mim um dos melhores mineiros dos anos 30. Devia ler algumas páginas do diário dele...

PermalinkPermalink 19.01.09 @ 16:59



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Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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