03.12.08

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Pan-Cinema Permanente, de Carlos Nader

Pan-Cinema-Permanente1

O Brasil está bem de documentários. Pan-Cinema Permanente não se deixa seduzir pela facilidade que seria, simplesmente, deixar que o poeta, letrista e doido de pedra Waly Salomão arrebatasse a platéia. Tão carregado da poesia de seu personagem delirante, o próprio filme é um poema. A composição, de versos livres, alterna entre o lirismo e o bom humor, transformando em linguagem cinematográfica o que é a própria persona de seu retratado.

O lirismo:
A câmera de Carlos Nader acompanha em quadro fechado, sem cortes, passos sobre a calçada, de cima para baixo; e o asfalto, visto de perto, parece mais um céu estrelado de cidade de interior. Enquanto você ouve os versos de Waly:

Não suba o sapateiro além da sandália
- legisla a máxima latina.
Então que o sapateiro desça até a sola
Quando a sola se torna uma tela
Onde se exibe e se cola
A vida do asfalto embaixo
e em volta.

O bom humor:
Viajando numa Kombi para o norte do Brasil, Waly dispara a falar, com a teatralidade que era tão sua, sobre como o Brasil conquistaria o mundo se Deus não tivesse levado com Ele, há tanto tempo já, a figura singular do Barão de Rio Branco.
E não pára mais, com uma seriedade marota, matando de rir uma mulher que viajava ao lado e não entendia nada.
É quando o diretor intervém, sobrepondo ao som direto e à fala de Waly, um comentário qualquer em off. O que torna muito mais engraçado ver que Waly tira da carteira uma nota de dez reais, porque o espectador entende, sem ouvir sua voz, que ele discorre sobre a ausência do barão nas cédulas do nosso dinheiro (pois o Barão do Rio do Branco já foi nota de mil).

* * *

Saí tão encantado com o filme que fiz o que deveria ter feito há muito tempo: corri para a primeira loja de discos e comprei Real Grandeza, de 2005, o CD de Jards Macalé só com parcerias com Waly Salomão. Tem “Vapor Barato”, “Mal Secreto”, “Anjo Exterminado”, “Dona de Castelo”...

Como a preguiça adia nossas alegrias...

por Alexandre Carvalho dos Santos 1 comentário - Permalink


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Comentários:


Comentário de: carolina

Acabei de chegar da exibição desse filme que me deixou tão feliz, mas tão feliz!
Pena que o final se prolongou numa explicação sem razão.
Fiquei torcendo para que o filme não explicitasse a morte real.
Adorei seu texto, Alexandre.
Obrigada pelo post.

PermalinkPermalink 05.12.08 @ 21:12



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Na Minha Rolleiflex

Alexandre Carvalho dos Santos Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável. No Twitter: @AlexRolleiflex

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