23.10.08
Da Mostra: Palermo Shooting, de Wim Wenders
Fiquei imaginando o que andava na cabeça de Wim Wenders ao criar um filme tão vulnerável a murros e pontapés. Uma mistura tão desastrada de referências (Asas do Desejo, O Céu de Lisboa, O Sétimo Selo, Blow-Up...) envolvida numa concepção em que a filosofia e a poesia entram sem saber a que vieram. É como se o diretor, após se apaixonar pela América das vastidões e dos fetiches, quisesse rever o Wenders, o jovem Wim Wenders dos anos 70 e 80, agora como farsa.
É verdade que a fluidez do pensamento em seus filmes fica muito melhor em alemão, e os efeitos especiais que simbolizam os sonhos, em seus melhores momentos, remetem às trucagens do início do cinema, quando eram mais criativas que a automação de hoje. Mas a impressão, no fim, é de que o diretor foi infeliz na idéia e displicente na execução.
Palermo Shooting me agradava até metade de seu enredo. A reflexão sobre como sentimos a passagem do tempo de forma diferente é um tema que sempre me seduziu, e o estilo despudoradamente ostensivo de Wenders, seu diálogo entre o erótico e o vulgar, tão claro na personagem de Milla Jovovich, grávida ainda por cima, tem seus atrativos. E então vem a pureza de Flavia (Giovanna Mezzogiorno) com os cabelos soltos, depois presos, desenhando e recuperando imagens artísticas dentre a beleza rústica de Palermo, e eu diria sem vergonha que, se o filme terminasse antes da flechada certeira de Dennis Hopper, resultaria numa composição simpática. Mas não foi assim.
Por que o confronto de Finn (Campino) com a morte, tão datado e gratuito? Por que a intercalação frenética entre sonho e vigília, sabotando a narrativa? E olhe que não são seqüências mais irritantes que as dos diálogos de Finn com Flávia, depois que o primeiro é atirado ás águas do porto.
Uma pena. E o filme tem uma cena final tão bonita que, por um instante apenas, nos lembra que Wim Wenders é um cineasta a quem não deveríamos ter de dizer o que não fazer.
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Comentários:
Ficamos interessadas no enredo desse filme, mesmo que pareça não ser nenhuma obra de arte...rs!
Beijocas,
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Alexandre Carvalho dos Santos já quis ser grande: um homem da Renascença, um herói existencialista, o poeta do derradeiro poema, do poema da redenção, do gol de bicicleta, do filme que explicará tudo. Conformou-se com uma rede em Itaúnas, os desassossegos de Pessoa e uma última sessão de cinema, sempre nas primeiras fileiras. Mas escreve, porque é inevitável.
No Twitter: @AlexRolleiflex